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Reimont Otoni

Deputado federal (PT-RJ), presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara

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Venezuela, a ponta do iceberg Trump

Não podemos permitir a interferência americana nas eleições de 2026

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante entrevista coletiva em Palm Beach, na Flórida - 03/01/2026 (Foto: REUTERS/Jonathan Ernst)

Passada uma semana do ataque ilegal dos Estados Unidos a Venezuela – aparentemente, com o único propósito de sequestrar o presidente Nicolas Maduro e sua esposa, Cilia –, a situação no país vizinho permanece nebulosa, indefinida. As notícias que recebemos, em sua maioria, parecem saídas diretamente do Departamento de Estado americano. 

Esse vácuo soa como proposital, como parte de um plano de deixar o mundo na expectativa do que virá. Falar sobre a agressão dos Estados Unidos a Venezuela olhando apenas o nosso país vizinho parece interessar mais ao projeto despótico de controle global de Donald Trump e sua Doutrina Donroe (uma versão personalíssima da já caduca Doutrina Monroe, de 1823!).

É primário falar em ditadura de Chavez ou Maduro, como se este fosse o ponto central da operação terrorista perpetrada, quando é notório que Trump jamais se preocupou com ditaduras, especialmente as aliadas, ou demonstra qualquer preocupação com o presente e o futuro político da Venezuela. É primário falar em ação de combate ao narcotráfico internacional, quando o próprio Departamento de Justiça dos Estados Unidos reviu as acusações contra Nicolás Maduro e, em nova versão enviada ao Tribunal de Justiça recuou na tese de que ele seria o chefe de um Cartel de los Soles que nunca existiu, segundo especialistas.

Ambas as justificativas foram só isso: um modo forjado para justificar legalmente o ataque ilegal, que contrariou todas as leis internacionais. 

No curto espaço de tempo em que permaneceram no território venezuelano, as tropas de Trump cometeram brutalidades, em desrespeito aos direitos humanos da população – ao menos 50 civis foram mortos, casas populares foram bombardeadas e destruídas por mísseis e arrasaram o principal centro de tratamento de doenças renais do país. Cilia Flores Maduro apareceu no tribunal de Nova York, para a audiência de custódia, cheia de ferimentos e hematomas no rosto.

A Venezuela é apenas a ponta do enorme iceberg Trump. E quem tenta analisar só a ponta, perde a dimensão da grande ameaça que o atual presidente americano representa para a paz e o equilíbrio mundiais. Em entrevista ao New YorK Times, ele deixou claríssimo o que pretende ao dizer que o seu poder global só tem um limite: ele mesmo.

No espaço de uma semana, desde que comandou a operação ilegal de invadir a Venezuela, Trump já ameaçou a Groenlândia, a Colômbia, o Irã, Cuba e até a Rússia. Para cada um uma justificativa. Com seu discurso errático e aparentemente (só aparentemente) desconexo, mantém o mundo em um suspense permanente girando ao seu redor.

Trump não está preocupado com democracia, justiça social, bem estar dos povos, paz mundial. Quer é riquezas para os grandes magnatas americanos. Já disse que se acha o dono do Hemisfério Sul e que vai ganhar muito dinheiro por aqui e fazer os melhores negócios para os Estados Unidos. Mas, para isso, precisa se cercar de governos fracos, submissos e escravos aos americanos. Os povos que se danem.

No caso particular do Brasil, ainda que as ameaças e ataques diretos tenham sido neutralizados pela habilidade diplomática do governo Lula, é evidente que Trump está de olho no nosso petróleo, no nosso minério, nas nossas terras raras e nas nossas grandes reservas de água doce. Para isso, é mais do que provável que procure interferir nas eleições de 2026, seja em apoios e declarações diretas, seja por meio de seus marionetes e bajuladores da extrema direita brasileiras. Por isso, quem defende Trump, está contra o Brasil, está contra o povo brasileiro, é traidor. Não podemos perdoar ou compactuar com traidores. Não podemos permitir a interferência americana nas eleições de 2026.

O mundo não é o parquinho de diversões dos Estados Unidos. Seguimos juntos, em defesa da soberania dos povos, da democracia, da integração latino-americana. Em defesa da paz mundial, exigimos respeito à soberania de cada país.

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Adendo: Peço licença e aproveitar o espaço para saudar Kleber Mendonça, Wagner Moura e toda a equipe de “O agente secreto”, que brilharam no Globo de Ouro. Como disseram Kleber e Wagner, a cultura é democracia, caminham juntas. Viva a cultura brasileira.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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