Vitamina D3 - saúde e doença
Para garantir a potência das funções do sistema imunológico é indispensável o alcance e a manutenção de concentração efetiva de vitamina D3 no sangue
Publiquei em novembro de 2025 o livro de minha autoria intitulado “Imunidade inata: A grande negligenciada durante a pandemia de Covid-19 – Injustificável menosprezo à homeostase da vitamina D3”, com 278 Referências Bibliográficas (págs. 109-154) e 273 artigos incluídos na Bibliografia Complementar (págs.165-208).
O significado da interferência dos níveis de vitamina D3 no sangue da população não se limita à Covid-19, mas refere-se também ao aparecimento (e ao tipo de evolução clínica) de grande número de outras doenças – citadas na Bibliografia Complementar do livro, págs. 165-208 –, a saber: doenças infecciosas (não só do aparelho respiratório), doenças autoimunes, autismo, psoríase etc. A atuação da vitamina D3 – com a finalidade de promover a saúde e evitar a doença – tem, portanto, ampla abrangência.
Sabe-se que para garantir a potência das funções do sistema imunológico é indispensável o alcance e a manutenção de concentração efetiva de vitamina D3 (> 50 ng/mL) no sangue de todas as pessoas. Constitui conhecimento básico saber que a vitamina D3 é indispensável para a prevenção e, eventualmente, para o tratamento de grande número de enfermidades humanas (capítulos 9 e 10 do livro e Bibliografia Complementar).
Embora tenha tido sua existência oficialmente reconhecida somente em 2010, há algumas décadas a humanidade vive uma pandemia de hipovitaminose D3. Segundo a Organização Mundial da Saúde, há cerca de 1,3 bilhão de pessoas no mundo (uma entre seis pessoas) com deficiência de vitamina D3. Esse número não é pequeno, se comparado com os 705 milhões de pessoas que foram acometidas pela Covid-19 (com pouco mais de 7 milhões de óbitos). Embora possa acometer qualquer pessoa, a deficiência de vitamina D3 predomina entre idosos, indivíduos de cor preta e obesos.
Os principais motivos que contribuíram para que grande parte da população mundial (inclusive a do Brasil) passasse a apresentar deficiência (< 20 ng/mL) ou insuficiência (entre 20 e 30 ng/mL) de vitamina D3 se relacionam com três fatos: 1) A vitamina D3 apenas pode ser obtida naturalmente por meio de exposição de grande parte da superfície do corpo á luz solar (raios ultravioleta B), durante tempo e período do dia adequados (ver págs. 27-29 do livro); 2. Nos últimos 50 anos, grande parte da população brasileira mudou-se da zona rural para a zona urbana das cidades. Como exemplo, a população de Londrina em 1970 era de 212.902 habitantes, com 28% de moradores na zona rural; em 2010, com população de 506.701 habitantes, apenas 2,6% residiam na zona rural; 2) A essa ocorrência – elevada concentração populacional nos centros urbanos – observada em todos os estados do nosso país, juntaram-se os hábitos culturais assumidos pela quase totalidade dos moradores da zona urbana das cidades, passando a viver a maior parte do tempo em ambientes fechados e só se expondo ao sol ocasionalmente, assim mesmo, quase sempre com o uso de protetor solar (que impede que os raios ultravioleta B tenham acesso à pele (às camadas inferiores da epiderme) para promover a formação da pré-vitamina D3); 3) Ao mesmo tempo, verifica-se que a maioria das pessoas não são orientadas pelos seus médicos ou por gestores de saúde pública a fazer a suplementação de vitamina D3, por via oral, de forma correta (isto é, em doses e esquemas apropriados) (ver págs. 155-158 do livro).
Como existe deficiência ou insuficiência de vitamina D3 em grande parte da população, as doenças associadas a esse déficit tornaram-se mais frequentes e mais graves. Está havendo reaparecimento de casos de raquitismo em crianças e a osteoporose passou a ser mais comum entre os idosos. Globalmente, 15,7% das crianças apresentam menos de 12 ng/mL de vitamina D3 no sangue, taxa que alcança 71,8% nos países a leste do mar Mediterrâneo e 40 a 80% no sul da Ásia. A osteoporose acomete atualmente cerca de 500 milhões de pessoas no mundo, sendo altamente subdiagnosticada). Dados sobre a deficiência e a insuficiência de vitamina D3 no Brasil e no mundo (inclusive em profissionais da área da saúde) encontram-se no capítulo 4 e 5 do livro.
Como a vitamina D3, entre suas dezenas de funções biológicas (a quase totalidade das células humanas apresentam receptor de vitamina D), tem atuação relevante no sistema imunológico, tanto na imunidade inata quanto na imunidade adquirida – protegendo o ser humano de grande número de enfermidades –, vários problemas de saúde (além do raquitismo e da osteoporose) associados com essa carência vieram a tornar-se mais frequentes e mais graves (ver Bibliografia Complementar do livro – págs. 165-208).
Como já foi mencionado, a pandemia de Covid-19 constitui apenas um exemplo do que se verificou recentemente no Brasil e na maioria dos países do mundo, com grande número de casos e de óbitos (pág. 46 do livro), tendo contribuído significativamente para essas ocorrências a alta prevalência na população de déficit de vitamina D3, fato reconhecido, com a relevância que teve, apenas pelos pesquisadores que – como eu – foram estudar com profundidade a existência dessa associação, que não foi casual, como “argumentam”, mas de fato causal – pelo menos e sem discussão relativamente à prevenção da Covid-19 (ver capítulo 10 do livro).
A expressão “imunidade inata” não foi escrita ou pronunciada (senão duas ou três vezes, de passagem) durante a pandemia de Covid-19 pelos comentaristas e analistas da mídia tradicional (jornais, revistas e emissoras de rádio e de televisão) que cogitaram identificar os fatores envolvidos nas causas e nas consequências da citada pandemia.
Surtos repetidos de viroses respiratórias agudas (e de suas complicações, entre as quais a síndrome respiratória aguda grave ou SRAG, com número significativo de óbitos), ocorrem no Brasil e no mundo– conforme o que estamos presenciando, entre nós, neste outono (a mais seca estação do ano, propícia para a disseminação das infecções respiratórias). Esses surtos não são causados somente pelos vírus da gripe e pelo vírus sincicial respiratório (os únicos para os quais há disponibilidade de vacinas), mas por centenas de tipos e sorotipos dos denominados´”vírus respiratórios”, entre os quais se encontram os rinovírus (30% dos casos atuais de SRAG), adenovírus, pneumovírus e outros, para os quais não existem vacinas.
A alternativa disponível (em adição à necessidade do amplo uso das duas vacinas existentes) para reduzir a incidência e as complica-ções do grande número de viroses respiratórias agudas é adotar medidas que tenham como finalidade a correção das baixas concentrações no sangue de vitamina D3 – observadas em grande parte da população (pandemia de hipovitaminose D3) – por meio de procedimento de baixo custo e de fácil implementação, a ser posto em prática por profissionais da área de saúde, particularmente médicos orientados e treinados para esse tipo de atendimento, realizado nas unidades básicas de saúde do SUS. Se não houver recursos para que essa proposta contempla toda a população (alegação que será feita, com quase certeza), pode-se inicialmente dar prioridade à parcela da população mais vulnerável ou mais exposta a infecções, incluindo idosos, pessoas que vivem em asilos ou casas de repouso, indivíduos com obesidade (obesidade mórbida ou não) ou que apresentem doenças ou situações clínicas que deprimam as funções imunológicas, tanto da imunidade inata quanto da imunidade adquirida (a saber, enfermos em tratamento de câncer, transplantados de órgãos e pessoas que estejam recebendo medicamentos imunodepressores).
Para que esse programa seja colocado em prática basta haver vontade política dos governantes, ao lado de gestores de saúde com preparo científico adequado.
Descrevemos no nosso livro (págs. 95-98) a experiência pessoal que tivemos com a suplementação de vitamina D3 de 97 idosos acolhidos no Asilo São Vicente de Paulo de Londrina, realizada no período de agosto de 2020 a setembro de 2021, durante a pandemia de Covid-19. Não ocorreu nenhum óbito entre os idosos que permaneceram no Asilo São Vicente de Paulo durante esse período, tomando vitamina D3 sob orientação e controle médicos. Sabe-se que a letalidade por Covid-19 em asilos de idosos no Brasil, durante a pandemia, ultrapassou a taxa de 15%, havendo a informação de que, em 2020, teriam morrido 24.500 idosos residentes em asilos no Estado de São Paulo, dentre o total de 60.000 idosos assistidos nesse ano em asilos do nosso país.
É importante informar que, na denominada comunidade médico-científica do Brasil, prevalece – se não a completa incredulidade” ou “indiferença” – acirrada controvérsia a respeito dos resultados do uso da vitamina D3 no tratamento da Covid-19 (capítulo 9 do livro), em pessoas com deficiência desse hormônio. Como está registrado no capítulo 9 do meu livro, grande número de estudos sobre o tratamento da Covid-19 com administração de vitamina D3 (colecalciferol), por via oral, apresenta resultados desfavoráveis ou inconclusivos, invariavelmente por conta de distorções metodológicas (uso de doses insuficientes de vitamina D3 e de esquemas inadequados, início tardio do tratamento, casuística muito pequena etc.). Só para citar um exemplo, no estudo realizado na UTI do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (referência bibliográfica número 237 do meu livro), os autores concluíram qua a administração de “alta dose” (200.000 UI, uma só vez), por via oral, de vitamina D3 (colecalciferol), feita em média no décimo dia de internação hospitalar-, não trouxe qualquer benefício aos doentes tratados, que apresentavam baixa concentração de vitamina D3 no sangue (essa pesquisa – considerada “modelar” – é repetidamente incluída nas metanálises publicadas sobre tratamento de Covid-19 com vitamina D3). A literatura especializada reconhece como alta dose única de vitamina D3 – para o tratamento da Covid-19 em momento adequado – o valor de 600.000 UI, sabendo-se que já se demonstrou que o início da atividade biológica da vitamina D3 (sob forma de colecalciferol), quando administrada em alta dose (dose única) por via oral, só se dá a partir de, no mínimo, sete a dez dias depois de ingerida por pessoas hígidas, até que o colecalciferol se transforme nos rins em calcitriol (forma ativa da vitamina D3), isso depois de passar pelo fígado, onde o colecalciferol dá origem a outra forma (ainda não dotada de atividade biológica) de vitamina D3 denominada calcidiol ou calcifediol (forma de vitamina D3 circulante no sangue, detectada nos exames de laboratório). No décimo dia de internação, quando no estudo citado (realizado na UTI do HC da FM-USP) a “alta dose” de colecalciferol foi administrada, os pacientes certamente já se encontravam em condição clínica na qual nenhum tipo de tratamento poderia possibilitar resultado favorável.
Na análise que fizemos no capítulo 10 do nosso livro, fica claramente demonstrado o efeito altamente benéfico da profilaxia da Covid-19 realizada com a administração de doses apropriadas (em esquema corretos) de colecalciferol, por via oral, capazes de elevar a concentração de vitamina D3 no sangue a níveis protetores (idealmente entre 50 e 80 ng/mL), já alcançados antes que a infecção venha a se instalar (efeito preventivo).
A manutenção dessas elevadas concentrações de vitamina D3 no sangue (entre 50 e 80 ng/mL) também foi cientificamente comprovada como preventiva para diversos outros tipos de infecção e de outras doenças não infecciosas (ver Bibliografia Complementar – págs. 165-208 do livro).
Segundo nosso ponto de vista, é premente a necessidade de adoção, pelas autoridades de Saúde Pública, de medidas que promovam a homeostase da vitamina D3 na população, ou seja, é urgente a implementação de programas que permitam às pessoas obter mais um recurso (recurso natural) – de que estão desprovidas – que lhes permitam evitar ou enfrentar os citados problemas de saúde.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



