“A esquerda perdeu espaço para a direita extremada”, diz Miola
Análise destaca autocrítica de Lula, desigualdade persistente e risco de avanço conservador no Brasil
247 - O jornalista Jeferson Miola afirmou que a esquerda enfrenta uma crise de identidade e precisa retomar um projeto transformador para reconectar-se com a população. A avaliação ocorre em meio à autocrítica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao avanço de forças conservadoras no cenário político brasileiro.
As declarações foram feitas durante o programa Giro das Onze, da TV 247. No debate, Miola analisou os desafios do campo progressista e apontou que há um distanciamento entre governos de esquerda e suas bases sociais.
Ao comentar o cenário político, ele foi direto: “A esquerda ou a socialdemocracia tradicional perdeu espaço para a direita mais extremada”. Segundo o analista, esse movimento não é exclusivo do Brasil e reflete uma tendência global.
Miola relacionou esse processo à postura adotada por governos progressistas nas últimas décadas. Ele citou a recente reflexão de Lula sobre o tema, segundo a qual “governos de esquerda ganham as eleições com discurso de governos de esquerda e praticam austeridade”, o que, na visão do presidente, levou à percepção de que “nós nos tornamos o sistema”.
Para o jornalista, essa contradição contribui para a perda de identidade política da esquerda. “O PT nasceu como um partido que propunha outra ordem, mas hoje está inteiramente incorporado a essa ordem”, afirmou.
Miola destacou que a crise econômica e social também influencia esse cenário. Mesmo com indicadores positivos recentes, como crescimento econômico e redução do desemprego, ele avalia que a população não percebe melhora concreta no cotidiano.
“Mesmo isso, apesar disso, não existe uma adesão entusiasmada desses amplos setores”, disse. Segundo ele, o alto nível de endividamento das famílias e a baixa renda explicam essa desconexão.
O analista reforçou que o Brasil continua sendo um país marcado pela desigualdade. “Nós temos um país que é uma economia grande, mas de um povo pobre”, declarou, criticando a ideia de que a sociedade brasileira seja majoritariamente de classe média.
Diante desse contexto, Miola defende mudanças estruturais na economia. “Não se trata de fazer pacote em cima de pacote”, afirmou, ao comentar medidas pontuais adotadas pelo governo.
Ele também alertou para o papel da extrema direita na disputa política. “A extrema direita é uma fábrica de agenciamento de ressentimentos”, disse, ao explicar como esses grupos conseguem transformar insatisfação social em apoio político.
Para o jornalista, a saída passa pela reconstrução de um projeto que recupere a esperança e ofereça perspectivas concretas à população. “Nós precisamos sinalizar um horizonte de vida digna para o povo brasileiro”, afirmou.
Miola ainda apontou que a esquerda perdeu capacidade de mobilização simbólica. “A extrema direita tem mística, tem apelo, e a esquerda perdeu isso”, declarou.


