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"Esquerda ainda é pautada pela Europa Ocidental e os EUA", diz Elias Jabbour

Professor defende, em entrevista à TV 247, soberania e reindustrialização como eixos para enfrentar a extrema direita internacional. Assista

Ato de esquerda e Elias Jabbour (Foto: PR/Reprodução)

247 - O professor Elias Jabbour afirmou, em entrevista à TV 247, que a esquerda brasileira e latino-americana ainda opera, em grande medida, a partir de referenciais da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, sem se reconhecer plenamente como parte do Sul Global. Para ele, esse descolamento histórico compromete a capacidade de formular respostas estratégicas diante da escalada de agressões externas lideradas por Donald Trump e contribui para o avanço da extrema direita no Brasil e no mundo.

Ao longo de mais de uma hora de diálogo, Jabbour analisou o cenário internacional, a política externa brasileira, a situação da Venezuela, o papel da China, a crise das instituições multilaterais e os desafios da esquerda no processo eleitoral. Segundo ele, a leitura fragmentada desses fenômenos impede a compreensão de uma nova etapa histórica marcada pelo aumento da coerção internacional e pela perda de hegemonia dos Estados Unidos.

Violência imperialista exige ajuste de discurso da esquerda

Ao ser questionado sobre o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos, Jabbour avaliou que o episódio evidencia uma nova fase da violência imperial. Para o professor, esse contexto exige uma revisão profunda do discurso político da esquerda.

"Eu já venho falando há muito tempo da necessidade de a esquerda brasileira e latino-americana ajustar o seu discurso para uma nova época histórica que está a surgir, que é uma época de decadência do imperialismo e de exponencialização da tendência à violência que essa decadência nos entrega à humanidade", afirmou.

Na avaliação de Jabbour, a resposta estratégica passa pela retomada da centralidade da questão nacional, abandonada sobretudo a partir dos anos 1990. Segundo ele, a defesa da soberania deve voltar a ser o eixo organizador das forças progressistas.

"Cabem às esquerdas no Brasil e na América Latina um ajuste de discurso orientado à centralidade da chamada questão nacional, o que significa a defesa da soberania nacional como a plataforma central das esquerdas", declarou.

Extrema direita como expressão de estratégia neocolonial

O intelectual também criticou a forma como parte da esquerda interpreta a ascensão da extrema direita ao tratá-la como um fenômeno isolado da política externa dos Estados Unidos. Para ele, essa leitura contribuiu para a incapacidade de compreender processos como a Operação Lava Jato e abriu espaço para o avanço do bolsonarismo, que classificou como expressão de uma estratégia neocolonial.

Ao abordar a política externa brasileira, Jabbour afirmou que décadas de desindustrialização reduziram drasticamente a capacidade de intervenção internacional do país. Segundo ele, sem capacidade produtiva e financeira, o Brasil perde margem de manobra no cenário global, o que reforça a necessidade de um projeto nacional de desenvolvimento ancorado na reindustrialização.

Derrota da extrema direita passa pela liderança de Lula

No campo político, Jabbour afirmou que a derrota da extrema direita passa pela liderança de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele também mencionou ser pré-candidato a deputado federal pelo PCdoB no Rio de Janeiro, destacando que sua atuação busca contribuir para a construção de um projeto nacional baseado na soberania, na reindustrialização e na retomada da mobilidade social. Assista:

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