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Aliados de Lula que apoiaram golpe contra Dilma evitam o tema após 10 anos

Levantamento mostra silêncio predominante entre lideranças e poucos admitem erro ou fazem autocrítica sobre votação de 2016

Dilma Rousseff (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

247 - Dez anos após o golpe de estado cometido contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, ou seja, seu impedimento do cargo sem comprovação de crime de responsabilidade, a maioria dos aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que apoiaram a cassação evita comentar o episódio. Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, apenas uma minoria das lideranças políticas ouvidas reconhece arrependimento ou faz críticas diretas ao processo que marcou a política brasileira em 2016.

A reportagem consultou 19 nomes que estiveram entre os favoráveis ao impeachment — sendo 16 deles parlamentares à época. Do total, 12 não quiseram se manifestar ou não responderam. Apenas dois admitiram arrependimento, enquanto outros fizeram ponderações sem rever explicitamente suas posições.

O tema, sensível dentro do campo político, tem sido tratado com pragmatismo pelo PT, sobretudo na construção de alianças estaduais para as eleições de 2026. Entre os nomes ouvidos, há figuras que hoje ocupam ou já ocuparam cargos relevantes no governo Lula, além de políticos cotados para disputar governos estaduais e vagas no Senado com apoio petista.

Divergências e silêncio no primeiro escalão

O vice-presidente Geraldo Alckmin, atualmente também ministro, afirmou por meio de sua assessoria que o impeachment “teve como base uma justificativa frágil que pôs em risco a democracia no Brasil”. Ele relembrou que já havia questionado, em 2015, a consistência das chamadas pedaladas fiscais — fundamento jurídico do processo. No entanto, não comentou declarações posteriores em que defendeu a atuação do PSDB a favor da cassação.

A ministra Marina Silva, por sua vez, manteve o posicionamento já manifestado anteriormente. Em declaração dada em 2018, afirmou: “Apoiei o impeachment por convicção, houve crime de responsabilidade. Não me oriento por métrica eleitoral”.

Já a senadora Simone Tebet, que também integrou o primeiro escalão do governo, justificou à época seu voto com base nas “consequências nefastas” para o país, mas não comentou novamente o tema na apuração recente.

Para o ex-ministro e advogado de defesa de Dilma, José Eduardo Cardozo, a conjuntura atual exige alianças amplas. “É inevitável juntar forças políticas para evitar a barbárie”, afirmou, ao se referir à união entre diferentes campos políticos desde as eleições de 2022.

Arrependimentos pontuais e revisões críticas

Entre os poucos que admitiram erro está a senadora Eliziane Gama, que classificou seu voto como “um dos poucos erros” de sua trajetória política. Segundo ela, a mudança de posição está ligada a uma avaliação mais madura do episódio.

Outro caso é o de Floriano Pesaro, que considerou o apoio ao impeachment um “erro histórico”. Ele afirmou: “Hoje nós temos consciência de que, naquele momento, grande parte daqueles que votaram a favor do impeachment estava sendo manipulada”.

O ex-senador Cristovam Buarque também reconheceu equívoco, embora de forma parcial: “Votei como economista e confesso que errei como político”. Apesar disso, ponderou que não se trata de arrependimento completo, mas de uma avaliação das consequências.

Avaliações sobre o contexto político

Dentro do PT, a leitura predominante é de que houve uma articulação política ampla contra o partido. O senador Humberto Costa afirmou que “muita gente foi nessa”, ao comentar o apoio de diversos setores ao afastamento de Dilma.

Essa visão é compartilhada por aliados, que hoje defendem diálogo com figuras que, no passado, estiveram em lados opostos. A estratégia reflete o cenário político atual, em que antigos adversários passaram a compor alianças em torno de pautas comuns.

O senador Rodrigo Pacheco, que também votou a favor do impeachment, destacou o impacto institucional do processo. “Hoje, reconheço o trauma gerado pela ruptura de um mandato presidencial, e considero que as consequências disso não foram as melhores”, declarou.

Ausência de autocrítica ainda predomina

Apesar de algumas revisões, a maior parte dos políticos consultados preferiu não revisitar o tema. Lideranças como Renan Calheiros, Eduardo Braga e Davi Alcolumbre evitaram comentar suas posições à época.

Outros mantiveram a defesa do impeachment, como o senador Acir Gurgacz, que afirmou não se arrepender e justificou o voto com base na percepção de que o país estava “ingovernável”.

A década que separa o episódio do cenário atual evidencia mudanças nas alianças e discursos, mas também revela a permanência de divergências e silêncios em torno de um dos momentos mais marcantes da política recente brasileira.

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