Atingido pelo escândalo Bolsomaster, Centrão avalia neutralidade nas eleições presidenciais
PP, União Brasil e Republicanos discutem liberar alianças regionais após crise envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro
247 - O escândalo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master, provocou um forte abalo nas articulações políticas do Centrão para a disputa presidencial de 2026. Lideranças de partidos como PP, União Brasil e Republicanos passaram a discutir a adoção de uma posição de neutralidade no pleito, evitando, ao menos por enquanto, um alinhamento formal com o grupo bolsonarista.
As informações foram publicadas originalmente pelo jornal O Globo e mostram que as principais siglas do Centrão estão divididas diante da crise. Enquanto parte das lideranças considera mais estratégico liberar os diretórios estaduais para definirem seus próprios apoios, outra ala, mais identificada com o bolsonarismo, defende a construção de uma candidatura de direita alternativa ao nome de Flávio Bolsonaro.
O desgaste político ganhou dimensão após o Intercept Brasil divulgar mensagens, áudios e documentos que apontam negociações entre Flávio e Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo a reportagem, o acordo previa aportes de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões —, mas apenas parte do montante, equivalente a R$ 61 milhões, teria sido repassada.
Neutralidade ganha força entre dirigentes
Nos bastidores, integrantes das executivas nacionais das legendas avaliam que a neutralidade pode oferecer maior liberdade política nos estados e ampliar as chances eleitorais das siglas para o Congresso Nacional. O cálculo é essencialmente pragmático: preservar alianças regionais e evitar desgastes em diferentes cenários locais.
Um integrante da Executiva Nacional do PP afirmou que o principal objetivo da legenda é maximizar a eleição de deputados federais e senadores. Nesse contexto, permitir que lideranças estaduais apoiem diferentes candidaturas presidenciais seria a alternativa mais vantajosa para o partido.
A estratégia abriria espaço para aproximações distintas pelo país. Em alguns estados, dirigentes poderiam caminhar ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto em outras regiões alianças com setores bolsonaristas ou com grupos da direita tradicional permaneceriam viáveis.
Ala bolsonarista busca alternativa
Apesar do avanço da tese da neutralidade, uma ala do Centrão ligada ao bolsonarismo resiste à ideia e pressiona por uma candidatura presidencial claramente posicionada contra Lula. Esse grupo avalia que os partidos precisam participar ativamente da disputa para preservar influência em um eventual novo governo.
Entre os nomes mencionados nas conversas informais está o da senadora Tereza Cristina (PP-MS), apontada como possível cabeça de chapa em uma composição com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) como candidata a vice-presidente. A proposta, entretanto, ainda não foi abraçada pelas direções partidárias.
O presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, negou qualquer debate concreto sobre essa hipótese. “Não conversei com ninguém sobre o assunto”.
Lideranças minimizam articulações
No União Brasil, o deputado Elmar Nascimento (BA), vice-presidente nacional da legenda, também rejeitou a existência de discussões internas sobre uma eventual chapa alternativa ligada ao bolsonarismo. “Não consta”.
Já o deputado Cláudio Cajado (PP-BA), outro vice-presidente nacional de partido do Centrão, reconheceu que alguns parlamentares defendem essa possibilidade, embora sem respaldo das cúpulas partidárias. “Tem um grupo querendo, mas as lideranças não”.
A preocupação desse setor é que Flávio Bolsonaro perca competitividade diante do impacto das investigações e do desgaste provocado pelo escândalo envolvendo Vorcaro. Mesmo assim, parlamentares próximos ao ex-presidente Jair Bolsonaro ainda acreditam na viabilidade de uma candidatura conservadora forte para enfrentar Lula em 2026.
Crise amplia distanciamento entre PP e Flávio
A crise também provocou um afastamento político entre Flávio Bolsonaro e setores importantes do PP. Na semana passada, a Polícia Federal realizou uma operação que identificou mensagens em que Daniel Vorcaro questiona o primo Felipe Vorcaro sobre atrasos em pagamentos destinados ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional da legenda.
Os diálogos mencionados pela investigação apontam ainda um suposto aumento de R$ 300 mil para R$ 500 mil em uma “mesada” destinada a uma estrutura que, segundo a Polícia Federal, estaria vinculada ao parlamentar. A defesa de Ciro Nogueira nega qualquer irregularidade e afirma que o senador não praticou crimes.
Em entrevista à GloboNews, Flávio Bolsonaro comentou o caso envolvendo o presidente do PP e declarou: “Se Deus quiser, Ciro vai provar a inocência”.
Na mesma entrevista, porém, o senador buscou se desvincular das investigações ao responder sobre a operação da Polícia Federal contra Ciro Nogueira. “O que eu tenho a ver com isso?”.



