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Clã Bolsonaro acumulou episódios com suspeitos ligados ao crime organizado

Antes de defender PCC e CV como terroristas, Flávio e Jair Bolsonaro tiveram relações políticas com acusados de vínculos com milícias e facções

Clã Bolsonaro acumulou episódios com suspeitos ligados ao crime organizado (Foto: Flickr/Bolsonaro)
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247 - A defesa feita por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) da classificação do PCC e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos reacendeu o debate sobre a trajetória política do clã Bolsonaro e suas relações com personagens acusados de envolvimento com o crime organizado, especialmente no Rio de Janeiro.

As informações são da Folha de S.Paulo. Segundo a reportagem, o senador e outros integrantes da família Bolsonaro mantiveram, ao longo dos anos, relações políticas, homenagens públicas, vínculos de gabinete ou alianças com pessoas posteriormente acusadas de ligação com milícias, grupos armados ou organizações criminosas.

A decisão norte-americana de enquadrar o PCC e o CV como grupos terroristas foi comemorada por Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência da República. O anúncio ocorreu após uma visita do senador a Donald Trump, nos Estados Unidos, e passou a ser tratado por aliados como um trunfo político na área de segurança pública.

Em nota, a assessoria de Flávio negou qualquer conivência da família com grupos criminosos e atacou o governo Lula. "A família Bolsonaro e Flávio Bolsonaro não compactuam com facções ou grupos armados e criminosos. Diferentemente do governo Lula [PT], que recebeu a primeira-dama do tráfico no Ministério da Justiça e fez lobby nos Estados Unidos a favor de facções narcoterroristas", afirmou a assessoria do pré-candidato do PL à Presidência.

A declaração faz referência à ida de Luciane Farias ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 2023. Ela é esposa de um homem apontado como líder do Comando Vermelho no Amazonas e ficou conhecida como "dama do tráfico". A pasta reconheceu que Luciane foi recebida em reuniões, mas afirmou que desconhecia sua identidade. O presidente Lula não se reuniu com ela.

A assessoria de Flávio também afirmou que "não há um único boletim de ocorrência ou processo que corrobore a tese da reportagem". A nota ainda acusou o governo Lula de manter "relações próximas com uma integrante do PCC recentemente presa e que pode estar à frente de um plano de atentado contra a vida de Flávio", mas não apresentou detalhes sobre a acusação nem citou indícios.

Um dos episódios mais conhecidos envolve o ex-policial militar Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio Escritório do Crime. Em 2005, Adriano recebeu, na cadeia, a visita de Flávio e Jair Bolsonaro, que lhe entregaram a Medalha Tiradentes, honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

A homenagem ocorreu a pedido de Flávio, então deputado estadual. Antes disso, em 2003, ele já havia feito outra homenagem a Adriano da Nóbrega. Jair Bolsonaro afirmou à imprensa, em 2020, que essa primeira homenagem teria ocorrido a pedido dele.

Adriano foi morto em 2020 durante uma operação da Polícia Militar da Bahia. Ele estava foragido havia mais de um ano e era acusado de homicídios no Rio de Janeiro e de envolvimento com máquinas caça-níqueis, atividade proibida no país.

A ligação política também passou pelo gabinete de Flávio na Alerj. Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, respectivamente mãe e esposa de Adriano da Nóbrega, foram empregadas no gabinete do então deputado estadual até 2018.

Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, as duas teriam participado de um esquema de "rachadinha", prática em que parte dos salários de assessores é devolvida ao parlamentar. Flávio sempre negou as acusações.

De acordo com os investigadores, Danielle repassou ao menos R$ 150 mil a Fabrício Queiroz, policial militar aposentado que atuava como assessor de Flávio. Desse total, R$ 115 mil teriam sido transferidos por meio de contas controladas por Adriano da Nóbrega. Também teriam sido usadas contas de dois restaurantes ligados à família do ex-policial e de Raimunda, antes da nomeação dela no gabinete.

As apurações sobre o caso foram encerradas depois que o STF (Supremo Tribunal Federal) e o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anularam, em 2021, as provas coletadas. Flávio sustenta que foi alvo de uma ofensiva política para atingir sua imagem.

"[Houve] toda essa espuma, todo esse ataque para tentar destruir minha reputação, e nunca teve início um processo criminal contra mim. Sabe quantas ligações financeiras tem com meus assessores? Zero. Sabe quantos assessores disseram que cobrei salário de volta para empregar no meu gabinete? Zero", afirmou Flávio Bolsonaro ao podcast Inteligência Ltda em março deste ano.

Outro ponto citado pela reportagem é o histórico de declarações públicas de Jair e Flávio Bolsonaro sobre milícias. Esses grupos, formados sobretudo por ex-agentes de segurança, são classificados como organizações criminosas e atuam em áreas do Rio de Janeiro com controle territorial, cobrança de taxas e intimidação de moradores.

Em 2018, Jair Bolsonaro associou a presença de milícias a uma suposta redução da violência. "Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência", afirmou.

Flávio Bolsonaro também já fez declarações que minimizaram a atuação desses grupos. Em discurso na Alerj em 2007, chamou as milícias de "nova forma de policiamento, entre aspas". Ele também disse que "não raro é constatada" a felicidade de moradores de comunidades controladas por milicianos.

A reportagem também menciona que Jair Bolsonaro, durante seu mandato como presidente, entre 2019 e 2022, não adotou movimento para classificar grupos como o PCC como organizações terroristas. O ex-presidente também foi preso por integrar uma organização criminosa que tentou dar um golpe de Estado.

Outro episódio envolve a campanha de Flávio Bolsonaro ao Senado em 2018. Naquele ano, a Operação Quarto Elemento prendeu policiais suspeitos de participar de uma quadrilha especializada em extorsões. Entre os detidos estavam os irmãos gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, policiais militares que teriam atuado na segurança da campanha de Flávio.

Os dois são irmãos de Valdenice de Oliveira Meliga, que foi assessora da liderança do PSL, antigo partido de Bolsonaro, na Alerj e tesoureira da legenda no Rio de Janeiro. Na época, Flávio negou ao jornal O Estado de S. Paulo que os policiais integrassem sua campanha. Valdenice afirmou que os irmãos atuavam como voluntários.

Em outubro de 2017, Flávio publicou uma foto ao lado de Valdenice e dos gêmeos em uma rede social. Na legenda, escreveu: "Parabéns Alan e Alex pelo aniversário, essa família é nota mil!!!".

A lista de relações políticas citadas pela Folha inclui ainda Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj. A partir de 2024, Bacellar se aproximou da família Bolsonaro com o objetivo de se viabilizar como possível candidato ao Governo do Rio de Janeiro na sucessão de Cláudio Castro (PL).

Em julho daquele ano, Bacellar se reuniu com Jair, Flávio e Carlos Bolsonaro para discutir as eleições municipais. Na ocasião, recebeu do clã uma medalha com os dizeres "imorrível, imbroxável e incomível".

Depois de se tornar potencial candidato apoiado pela família Bolsonaro no Rio, Bacellar perdeu o mandato e foi preso sob suspeita de participar de uma organização criminosa e de vazar informações para beneficiar o Comando Vermelho.

A reportagem também cita a proximidade de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de crimes relacionados a fraudes no Banco Master, incluindo organização criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro.

Segundo áudio divulgado pelo site The Intercept Brasil, Flávio mantinha contato com Vorcaro. O site afirmou que o ex-banqueiro combinou o pagamento de R$ 134 milhões para financiar o filme "Dark Horse", produção sobre Jair Bolsonaro.

Posteriormente, Flávio afirmou que Vorcaro pagou cerca de R$ 60 milhões ao longa-metragem e reconheceu ter cobrado parcelas restantes. O senador justificou que se tratava de recursos privados, não públicos. Ele também admitiu ter se encontrado pessoalmente com Vorcaro para, segundo afirmou, "colocar um ponto final" na relação.

Os episódios reunidos pela reportagem contrastam com o discurso atual de Flávio Bolsonaro em defesa de medidas mais duras contra facções criminosas. Ao mesmo tempo em que celebra a decisão dos Estados Unidos sobre PCC e CV, o senador e sua família voltam a ser cobrados sobre relações políticas passadas com personagens acusados de vínculos com milícias, grupos armados e organizações criminosas.

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