Conflito no Oriente Médio pode elevar custos da petroquímica e fertilizantes no Brasil, alerta Abiquim
Entidade aponta impacto indireto via petróleo, câmbio e insumos importados e defende agenda para reduzir vulnerabilidade estrutural do setor
247 - A escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, iniciada em 28 de fevereiro, acendeu o sinal de alerta na indústria química brasileira. Em posicionamento divulgado nesta terça-feira (3), a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) afirma que o conflito pode elevar custos da petroquímica e dos fertilizantes no país, principalmente por meio do aumento do petróleo, da volatilidade cambial e de possíveis restrições na oferta de insumos estratégicos.
Segundo a entidade, não há, até o momento, ruptura operacional nas cadeias de suprimento que atendem ao Brasil. No entanto, os efeitos indiretos e sistêmicos já preocupam, especialmente nos segmentos de energia, petroquímicos básicos e fertilizantes.
Petróleo e nafta no radar
O Irã produz cerca de 3,5 milhões de barris de petróleo por dia, e o Estreito de Ormuz concentra aproximadamente 20% da oferta global e 25% do comércio marítimo mundial da commodity. Uma eventual restrição prolongada ao tráfego na região pode pressionar o preço do barril tipo Brent, referência internacional.
Para a indústria química brasileira, o reflexo ocorre principalmente na nafta petroquímica, principal insumo para a produção de eteno e propeno via craqueamento.
De acordo com a Abiquim, uma alta de US$ 20 no Brent pode elevar de forma relevante o custo variável dos petroquímicos e reduzir o chamado “spread” do setor entre 10% e 25%, dependendo das condições de mercado.Embora o Brasil seja exportador líquido de petróleo, o país ainda é importador líquido de derivados como diesel, GLP e nafta. Assim, uma alta sustentada do Brent tende a impactar custos industriais, fretes internacionais e pressionar a inflação doméstica.
A entidade destaca ainda que, diferentemente dos Estados Unidos — beneficiados pelo shale gas — e de países do Oriente Médio, o Brasil não dispõe de gás natural em condições de competitividade semelhantes, o que reduz a capacidade de reação da indústria nacional em cenários de choque energético.
Fertilizantes e agronegócio
Outro ponto sensível é o mercado de fertilizantes nitrogenados. O Irã é importante exportador de ureia e amônia, e o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome.Uma eventual restrição das exportações iranianas pode elevar os preços da ureia nitrogenada, impactando diretamente o agronegócio e pressionando os custos de alimentos. Além disso, o aumento desses insumos também encarece matérias-primas utilizadas pela própria indústria química.
Intermediários e especialidades
O país do Oriente Médio também é grande exportador de metanol e de intermediários químicos como formaldeído, resinas termofixas, MTBE e ácido acético. Caso haja redução de oferta global desses produtos, os preços tendem a subir, pressionando custos de produtores brasileiros de resinas e especialidades químicas.
Câmbio e investimentos
Conflitos na região costumam gerar movimento global de busca por ativos considerados mais seguros, como dólar e títulos do Tesouro americano. Esse fluxo pode resultar em desvalorização do real e maior volatilidade cambial.
Para a Abiquim, um câmbio mais depreciado beneficia exportadores de commodities, mas encarece importações industriais e investimentos em bens de capital (CAPEX) que dependem de equipamentos importados.Três cenários possíveis
A associação traçou três cenários para os próximos meses:
Conflito limitado (mais provável): alta temporária do petróleo, volatilidade cambial moderada e impacto inflacionário controlável.
Bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz: Brent acima de US$ 100, maior pressão inflacionária global, prolongamento do aperto monetário no Brasil e forte impacto sobre fertilizantes e nafta.
Escalada regional ampla: choque energético persistente, redesenho das cadeias globais de suprimento e impacto severo sobre a indústria química mundial.
Agenda estratégica
No posicionamento, a Abiquim defende que o momento reforça a necessidade de políticas estruturantes voltadas à redução da vulnerabilidade energética do país e à diminuição da dependência de insumos importados, como nafta petroquímica e fertilizantes nitrogenados.A entidade afirma que seguirá monitorando os desdobramentos do conflito e defende soluções diplomáticas, ao mesmo tempo em que ressalta a importância de uma agenda industrial capaz de ampliar a resiliência, a competitividade e a segurança produtiva da indústria química brasileira.