Correria para vender cobertura de R$ 60 milhões aconteceu no dia da prisão de Vorcaro
Emails obtidos pela Polícia Federal indicam tentativa urgente de negociar imóvel de luxo em São Paulo
247 - A troca de mensagens eletrônicas obtida pela Polícia Federal revela uma tentativa acelerada de vender um apartamento de alto padrão avaliado em R$ 60 milhões no mesmo dia em que o empresário Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez, em 17 de novembro do ano passado. O imóvel em negociação é uma cobertura ainda em construção no empreendimento Vizcaya Itaim, localizado na avenida Horácio Lafer, na zona sul de São Paulo.
De acordo com reportagem da Folha de S.Paulo, os emails mostram a mobilização de intermediários e advogados para concluir a venda do imóvel enquanto Vorcaro participava de reuniões com representantes do Banco Central e anunciava a venda do Banco Master à financeira Fictor — movimento que investigadores apontam como possível tentativa de despistar autoridades diante da iminência de sua prisão.
Imóvel de luxo no Itaim Bibi
A cobertura tríplex em negociação faz parte de um empreendimento com arquitetura assinada por João Armentano e inclui 12 vagas de garagem. O projeto é desenvolvido pela Lucio Engenharia e administrado pela Bolsa de Imóveis, responsáveis pela incorporação, construção e gestão do complexo imobiliário.
Como o edifício ainda não estava concluído, a venda dependia da intermediação dessas empresas. O imóvel pertence à Viking, uma das principais companhias associadas a Vorcaro.
Emails mostram pressão para concluir negócio
As mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que a tentativa de venda começou na sexta-feira anterior à prisão, em 14 de novembro. Naquele dia, Regiane Bernardes, da Victorino Imóveis e responsável pela negociação em nome de Vorcaro, enviou um email à Bolsa de Imóveis solicitando a documentação necessária para concretizar a operação.
No contato, ela confirmou o valor da negociação e afirmou: "Informo que o valor da cessão é de R$ 60 milhões". Na mesma mensagem, destacou a urgência da transação: "Sabemos que o prazo é curto para concluir ainda hoje, mas seguimos confiantes de que, com o alinhamento entre todos, será possível avançar da melhor forma."
A resposta veio no mesmo dia de Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União durante o governo de Jair Bolsonaro e responsável pela atuação jurídica do comprador, cuja identidade não aparece nas mensagens. Ele ressaltou que a negociação estava avançada, mas dependia de documentos.
"Estamos bem avançados na negociação, mas impedidos de seguir pela ausência do termo de quitação. Peço a gentileza de nos encaminharem o quanto antes", escreveu.
Insistência por documentos no dia da prisão
Na manhã de 17 de novembro, data da prisão, a representante de Vorcaro voltou a pressionar pela documentação. Em mensagem enviada antes das 8h, ela pediu urgência no envio do link digital para assinatura do contrato.
"Como houve mudança na administração da Viking e precisamos avançar imediatamente, peço com urgência o link digital para que o novo administrador realize a assinatura do compromisso de venda e compra quitado ainda esta manhã."
Uma advogada ligada à incorporadora respondeu pedindo mais tempo para análise dos documentos. "Nesse empreendimento temos a Lucio Engenharia como parceira e precisamos da aprovação deles em todos os documentos", afirmou.Mesmo assim, a pressão continuou. A representante voltou a insistir: "Estamos aguardando o envio e sabemos que o tempo está bem curto e a operação deve ser concluída ainda hoje."Bianco reforçou a necessidade do documento essencial para avançar com o negócio: "Gostaria de reiterar a urgência do termo de quitação", acrescentando que "isso é premissa para a negociação."
Ligação de vorcaro com empresa proprietária
Os emails também indicam que Vorcaro seguia conectado à Viking, empresa proprietária do imóvel. A companhia havia se tornado conhecida por possuir três aeronaves utilizadas pelo empresário, incluindo o jato que ele pretendia usar para viajar ao exterior naquele mesmo dia.
Dois meses antes da prisão, em 17 de setembro, Vorcaro vendeu 55% do controle da Viking a um fundo de investimentos administrado pela Reag e deixou formalmente o cargo de administrador da empresa, transferindo a função a um ex-despachante de Nova Lima (MG). A mudança foi interpretada como uma tentativa de distanciamento formal de parte de seu patrimônio.
Apesar disso, as mensagens mostram que ele permanecia envolvido no processo de venda do imóvel, sendo incluído em cópia nas conversas e confirmando a autonomia de sua representante.
Prisão ocorreu enquanto negociação seguia
Por volta do horário do almoço de 17 de novembro, a representante de Vorcaro voltou a cobrar rapidez na conclusão da transação e reforçou que havia sido designada diretamente pelo empresário para conduzir o processo.
Às 16h35 daquele dia, o então controlador do Banco Master confirmou que ela possuía acesso completo e autonomia para agir em seu nome. Um minuto antes, segundo informações apresentadas pela defesa em pedido de habeas corpus, a Justiça Federal já havia expedido o mandado de prisão contra ele.
Horas antes, Vorcaro havia se reunido com diretores do Banco Central e informado sobre uma viagem aos Emirados Árabes Unidos. Segundo seus advogados, o objetivo seria formalizar a venda do Banco Master para a Fictor e investidores internacionais.
Negociação acabou não concluída
Enquanto as tratativas sobre o banco eram divulgadas à imprensa no fim da tarde, a representante do empresário continuava tentando acelerar a venda do apartamento.
"Estamos o dia todo no aguardo dos documentos", escreveu.
Quando finalmente foi enviada a comprovação de quitação do imóvel, ela pediu o link para assinatura digital do contrato de compra e venda — documento que nunca chegou a ser encaminhado.
Segundo pessoas próximas à negociação ouvidas pela reportagem da Folha de S.Paulo, a venda não foi concluída. Vorcaro foi preso naquela mesma noite, e o Banco Master acabou liquidado pelo Banco Central na manhã seguinte.