Digimais: conheça o banco de Edir Macedo alvo de operação da PF
Investigação apura manipulação de balanços, ocultação de prejuízos e operações irregulares; bloqueio de bens pode chegar a R$ 670 milhões
247 - O Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, tornou-se alvo de uma investigação da Polícia Federal (PF) e do Banco Central (BC) por suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. A Operação Miragem mobilizou mais de 50 policiais federais para cumprir nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo. As informações são do jornal O Globo.
Além de Edir Macedo, outros envolvidos na gestão da instituição financeira estão entre os investigados. A Justiça também autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos alvos da investigação, além do bloqueio de bens e valores que podem alcançar R$ 670,3 milhões.
Segundo a Polícia Federal, as investigações foram abertas após análises de relatórios produzidos pelo Banco Central apontarem indícios de graves irregularidades na condução dos negócios do banco. As apurações indicam que administradores da instituição teriam manipulado balanços e demonstrações financeiras para esconder a real situação econômica do Digimais e apresentar uma aparência de solvência aos órgãos de fiscalização.
De acordo com os investigadores, o esquema teria permitido a supervalorização de ativos e a geração artificial de receitas em valores que somam centenas de milhões de reais. A PF também apura operações financeiras supostamente realizadas em benefício da empresa controladora da instituição, além da possível inserção de informações falsas em sistemas oficiais utilizados pelo órgão regulador.
Os investigados poderão responder, de acordo com o grau de participação de cada um, por crimes como gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas pela legislação que regula o sistema financeiro brasileiro.
Origem do Digimais
A instituição financeira foi fundada em 1981, em Porto Alegre (RS), com o nome de Banco Renner. Criado pela família Renner, o banco passou por diversas mudanças de controle ao longo das décadas até ser transformado em uma operação digital.
Edir Macedo ingressou no quadro societário da instituição em 2009, quando adquiriu 40% das ações. Em 2020, assumiu o controle integral do banco, promoveu uma ampla reestruturação e mudou sua marca para Digimais. Na mesma época, o bispo João Urbanela foi escolhido para comandar a instituição.
A partir da mudança de controle, porém, a situação financeira do banco começou a se deteriorar. Em 2022, o Digimais registrou prejuízo de aproximadamente R$ 740 milhões, resultado que chamou a atenção do mercado e dos órgãos reguladores.
Disputas judiciais e suspeitas sobre créditos
Nos últimos anos, o banco passou a enfrentar uma série de questionamentos envolvendo suas carteiras de crédito. Desde novembro do ano passado, a gestora Yards trava uma disputa judicial contra o Digimais, alegando irregularidades em créditos utilizados para compor um fundo de direitos creditórios.
Segundo a ação, cerca de 22 mil Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), de um universo de 54 mil títulos apresentados pelo banco, apresentariam problemas de lastro. A gestora também apontou inconsistências relevantes em parte significativa da carteira oferecida.
Outros questionamentos surgiram nos últimos meses. Em março, a revista piauí revelou suspeitas de práticas irregulares envolvendo o Digimais. Uma das acusações está sendo analisada pela 13ª Vara Cível de São Paulo, onde o fundo EXP1 afirma que a instituição teria negociado cerca de R$ 650 milhões em carteiras de crédito consideradas falsas.Mais recentemente, reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo informou que carteiras transferidas pelo Digimais para outras instituições financeiras apresentavam índices de inadimplência próximos de 60%.
Negociações para venda ao BTG Pactual
A crise financeira do Digimais também chegou ao centro das discussões do mercado. Em abril, o BTG Pactual confirmou que iniciou negociações para avaliar a aquisição da instituição.
A operação, entretanto, depende da aprovação do Banco Central e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O BTG passou a ser apontado como um dos principais interessados em uma eventual solução para o banco, em meio ao agravamento da situação financeira da instituição.
Dados do Banco Central mostram que o Digimais possuía aproximadamente 199 mil clientes ao final do ano passado. Informações da plataforma IF.Data indicavam ativos de R$ 9,3 bilhões e patrimônio líquido de R$ 420,5 milhões até o terceiro trimestre do período analisado. A instituição também possuía carteira de crédito de R$ 1,92 bilhão e R$ 2,285 bilhões em títulos e valores mobiliários.
Rombo bilionário e tentativas de socorro
Nos bastidores do sistema financeiro, o Digimais passou a ser associado a um déficit estimado em R$ 8,5 bilhões. O tamanho do problema levou à discussão de diferentes alternativas para evitar uma deterioração ainda maior da situação da instituição.
Entre as possibilidades analisadas estava um aporte bilionário com recursos do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Diante das dificuldades para avançar nas negociações, Edir Macedo chegou a ser apontado como disposto a realizar um investimento de R$ 1,5 bilhão para reforçar o capital do banco.
Em dezembro do ano passado, o fundador da Igreja Universal já havia injetado R$ 250 milhões na instituição como tentativa de fortalecer sua estrutura financeira.
Transferência de controle não foi concluída
Em janeiro de 2025, Edir Macedo anunciou a transferência do controle do Digimais para o empresário Maurício Quadrado. A operação chegou a receber autorização do Cade, mas acabou não sendo concluída.
O grupo liderado por Quadrado, posteriormente rebatizado de BlueBank, desistiu da aquisição após não encaminhar toda a documentação necessária ao Banco Central e diante da piora das condições de mercado.
Quadrado foi sócio e responsável pela área de Investment Banking do Banco Master entre 2020 e 2024, período em que participou de importantes operações conduzidas pela instituição financeira.
Agora, além de enfrentar dificuldades financeiras e negociações para encontrar uma solução para o futuro do banco, o Digimais terá de lidar com os desdobramentos da investigação conduzida pela Polícia Federal e pelo Banco Central, que busca esclarecer a extensão das supostas irregularidades identificadas na gestão da instituição.


