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Digimais inflou patrimônio em quase dez vezes, diz PF

Investigação aponta que a diferença entre o valor real dos ativos e o montante contabilizado chegou a cerca de R$ 670 milhões

Digimais inflou patrimônio em quase dez vezes, diz PF (Foto: Divulgação | Gerada por IA)
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247 - A Polícia Federal apontou que o Banco Digimais registrou em seus balanços ativos com valor artificialmente ampliado, elevando em quase dez vezes o patrimônio relacionado a cotas de fundos de investimento. Segundo o jornal O Globo, a diferença entre o valor real dos ativos e o montante contabilizado chegou a cerca de R$ 670 milhões, valor que foi alvo de bloqueio judicial na Operação Miragem, deflagrada nesta terça-feira (23).

A investigação apura um suposto esquema de fraudes contra o Sistema Financeiro Nacional envolvendo a gestão do Digimais, instituição controlada pelo grupo empresarial ligado ao bispo Edir Macedo. A operação incluiu o cumprimento de nove mandados de busca e apreensão em São Paulo, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.

Como surgiu a investigação

De acordo com a Polícia Federal, o caso teve origem em uma fiscalização conduzida pelo Banco Central, que identificou possíveis irregularidades na instituição financeira e encaminhou os indícios ao Ministério Público Federal.

Os investigadores afirmam que a suposta manobra contábil teve início quando o Digimais passou a deter cotas do Hermon Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados (FIDC-NP). Essas cotas foram registradas no balanço da instituição pelo valor de R$ 741,348 milhões, embora o custo efetivo dos ativos somasse apenas R$ 71 milhões.

Os direitos creditórios têm origem em uma ação de indenização movida em 1967 por herdeiros da família Villela contra a União. Ao longo de 2023, diferentes parcelas desses créditos foram adquiridas e posteriormente reavaliadas por valores muito superiores aos originalmente pagos.

Reavaliações elevaram patrimônio dos fundos

Segundo a investigação, uma participação adquirida por R$ 9 milhões foi posteriormente reavaliada para R$ 100 milhões. Em outra operação, uma parcela comprada por R$ 22 milhões teve seu valor elevado para R$ 130 milhões.

A Polícia Federal destacou que essas reavaliações produziram efeitos diretos nos demonstrativos financeiros do banco. “Tal fato resultou na apuração de rendas no valor de R$ 199.000.000,00, com o reconhecimento desses valores na contabilidade do BANCO DIGIMAIS S.A. em função da valorização das cotas do fundo”, afirma a representação da PF.

Em outra etapa, duas cotas de direitos creditórios adquiridas por R$ 20 milhões cada passaram a ser avaliadas em R$ 174,59 milhões cada. “Novamente, as aquisições passaram por procedimento de reavaliação e atingiram a monta de R$ 174.590.281,80 cada, o que elevou o registro de patrimônio do fundo para o patamar de R$ 741.348.945,70, muito embora o custo de aquisição dos ativos perfizesse a soma de apenas R$ 71.000.000,00”, destacou a PF.

Banco Central determinou correção

Após a fiscalização, o Banco Central determinou que o Digimais corrigisse seus demonstrativos financeiros e retornasse os ativos ao valor de R$ 71 milhões.

Segundo a investigação, entretanto, em dezembro de 2025 a instituição firmou um contrato de venda das cotas para sua controladora, a B.A. Empreendimentos e Participações, pelo mesmo valor de R$ 741,348 milhões registrado nos balanços.

A Polícia Federal afirma que não houve entrada efetiva de recursos no caixa do banco. O pagamento teria sido previsto apenas para 2032, mantendo os valores registrados na contabilidade como créditos a receber da controladora.

“Por conseguinte, a equipe de fiscalização verificou que o contrato de alienação de cotas resultou na manutenção dos valores gerados pelas reavaliações de ativos nos demonstrativos de contabilidade do BANCO DIGIMAIS, com o registro sob a rubrica de valores a receber do controlador, o que funcionou como via de burla à determinação de correção outrora proferida”, registrou a PF.

PF vê indícios de crimes financeiros

A investigação também aponta que a operação ultrapassou os limites de exposição de crédito previstos pelas normas do Conselho Monetário Nacional (CMN). Segundo o Banco Central, a extrapolação alcançou aproximadamente R$ 699,6 milhões.

Outro aspecto destacado pela fiscalização é que a negociação previa remuneração corrigida pelo IPCA acrescido de juros de 0,5% ao ano. Para os investigadores, a estrutura possui características típicas de uma operação de crédito concedida ao controlador da instituição.

A Polícia Federal aponta indícios de gestão fraudulenta, prestação de informações falsas em demonstrações contábeis, indução de investidores e autoridades a erro sobre a situação financeira da instituição e realização de operação de crédito com controlador.

“Diante da materialidade dos delitos e da complexa engenharia financeira desenhada com o intuito de burlar as normativas de contabilidade e as determinações de ofício do Banco Central, os atos narrados configuram assunção de riscos excessivos e falta de diligência, configurando, pelo menos, gestão temerária e fraudes no mercado de capitais”, afirmou a corporação.

Posicionamento do Digimais

Em nota, o Digimais informou que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar com as investigações. “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes”, declarou o banco.

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