Do mulungu à Presidência: Acadêmicos de Niterói abre o Grupo Especial com desfile político e vibrante sobre Lula
Com Fafá de Belém na abertura e grito de “Sem Anistia” na Sapucaí, escola narra trajetória do presidente e transforma a avenida em debate público
247 – A Acadêmicos de Niterói abriu os desfiles do Grupo Especial na noite de domingo com um enredo assumidamente político, crítico e visualmente competente, defendendo a ideia de que Lula é “o político mais bem-sucedido de seu tempo”. A escola apresentou na Marquês de Sapucaí o tema “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o operário do Brasil”, de autoria do carnavalesco Tiago Martins.
Segundo o relato publicado pelo Agenda do Poder, o desfile começou sob forte comoção: a cantora Fafá de Belém abriu a apresentação cantando o clássico “O Que É o Que É?” (Gonzaguinha), enquanto o setor 1 entoou o grito “Sem Anistia” segundos antes do início da passagem da escola.
Tentativas de censura e reação da Justiça
O desfile também chegou à avenida cercado por disputas judiciais. Semanas antes do carnaval, a oposição tentou barrar a homenagem na Justiça, alegando propaganda eleitoral antecipada. O partido Novo acionou o TSE e, em outra ação, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) levou questionamentos ao Ministério Público Eleitoral; o deputado federal Kim Kataguiri (União-SP) também contestou o desfile.
As ações, porém, foram rejeitadas. O juiz federal Francisco Valle Brum indeferiu os pedidos apresentados, argumentando que não cabe ação popular no caso. Com isso, a escola entrou na Sapucaí sem restrições, apostando no carnaval como espaço de manifestação, memória e disputa simbólica.
Da infância em Garanhuns ao terceiro mandato em cinco setores
A Acadêmicos de Niterói dividiu o enredo em cinco setores para narrar, em ordem cronológica e simbólica, a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva. O primeiro setor retratou o nascimento em Garanhuns, no agreste pernambucano, misturando realismo fantástico e tradição oral para simbolizar esperança em meio à adversidade.
O segundo setor abordou a migração da família Silva para São Paulo, impulsionada pela seca dos anos 1950, reforçando a ideia do destino retirante. Já o terceiro destacou Lula como torneiro mecânico, líder sindical durante a Ditadura Militar e fundador do Partido dos Trabalhadores, culminando em sua eleição como deputado constituinte e presidente.
O quarto setor enfatizou políticas sociais implementadas em seus mandatos e os embates de classe do período. O quinto encerrou a narrativa no terceiro mandato, exaltando pautas trabalhistas e a defesa da soberania nacional diante de tensões políticas contemporâneas, compondo a linha central do desfile.
Comissão de frente e alegorias transformam política em cena
A comissão de frente, intitulada “O amor venceu o medo” e coreografada por Handerson Big e Marlon Cruz, dramatizou de forma cômica e dramática a trajetória de Lula como símbolo da luta pela cidadania. A encenação incluiu a ruptura institucional de 2016 e o período de crise posterior, culminando na anulação das condenações e na recondução à Presidência, descrita como gesto de reparação democrática e reafirmação da soberania.
No tripé, a escola trouxe representações de Lula, Dilma, Michel Temer, Alexandre de Moraes e Bolsonaro caracterizado como “Bozo”. O desfile também exibiu imagens de Lula subindo a rampa “de braço dado com o povo”, simbolizando a posse do terceiro mandato, enquanto a arquibancada reagia à promessa de novas polêmicas.
Entre os carros, o abre-alas “Do alto do mulungu surge a esperança” usou tons terrosos e fluorescentes para remeter à natureza do agreste pernambucano e à árvore típica do Nordeste, de onde uma escultura de Lula “surge”. A terceira alegoria, “Feito metal: de operário a presidente”, trabalhou tons de cobre e referências à metalurgia: engrenagens reapareceram como signo do tempo percorrido até a vitória presidencial, com uma escultura de “homem de ferro” usando a faixa no topo do carro.
Já o carro “O Brasil mudou de cara” trouxe, na traseira, um palhaço “Bozo” com roupa de presidiário, enjaulado e com tornozeleira eletrônica, compondo a crítica política do enredo. A quinta e última alegoria, “Vale uma nação, vale um grande enredo”, exaltou Lula como “o mais importante político da história recente brasileira”, conforme o livro abre-alas citado no relato.
Convidados, fantasias e a Sapucaí em coro
Lula já havia sido tema de enredo no carnaval em São Paulo, pela Gaviões da Fiel, em 2012, com “Verás que um filho fiel não foge à luta – Lula, o retrato de uma nação”. Na ocasião, ele não desfilou por estar em tratamento de câncer na laringe, mas dona Marisa Letícia participou em um carro alegórico. Desta vez, nem Lula nem a primeira-dama Janja da Silva desfilaram, embora ela tenha estado no sambódromo, no camarote da Prefeitura do Rio de Janeiro.
O desfile teve ainda a presença de artistas: a atriz Juliana Baroni, que interpretou Marisa Letícia no filme “Lula, o filho do Brasil”, e o ator Paulo Vieira, representando Marisa e Lula no desfile. Na última alegoria, estavam convidados do presidente, como Fafá de Belém, Júlia Lemmertz, Chico Diaz, Débora Lamm, Elisa Lucinda, Bete Mendes, Inês Vianna, Paulo Betti e Hildegard Angel, entre outros citados no texto original.
No chão, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Emanuel Lima e Thainara Matias, apresentou a fantasia “Luar do Sertão”, em azul e branco, simbolizando a noite. O relato destaca que a dança foi bem executada em todos os módulos de jurados. O desfile também apostou em fantasias de teor crítico, como a ala “Neoconservadores em conserva”, comparando a oposição no Congresso a “latas de conserva de ervilhas”, e a ala “Patriotas da América”, com Mickeys usando boné “Make America Great Again”, em referência às ameaças à soberania nacional atribuídas ao governo norte-americano de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos.
A Sapucaí, por sua vez, cantou trechos do samba-enredo repletos de referências políticas e históricas. Entre eles, versos como “Eu Vi Brilhar A Estrela De Um País” e “Sem Temer Tarifas E Sanções, Assim Que Se Firma A Soberania, Sem Mitos Falsos, Sem Anistia”. No refrão, o canto explodiu: “Olê, Olê, Olê, Olá, Vai Passar Nessa Avenida Mais Um Samba Popular Olê, Olê, Olê, Olá, Lula! Lula!”.
Ao fim, conforme a descrição do Agenda do Poder, a Acadêmicos de Niterói não apenas abriu o Grupo Especial, como também abriu um debate em plena avenida, reafirmando o carnaval como território de memória, disputa e manifestação popular, sob os holofotes e o olhar atento do país.


