Documentos mostram que Pazuello sabia da situação crítica de Manaus desde maio de 2020

Documentos apontam que o ministério da Saúde sabia do cenário crítico sobre o sistema de saúde em Manaus oito meses antes de ser constatada a falta de oxigênio em hospitais da capital. Assessor especial do ministro Eduardo Pazuello, Aírton Antônio Soligo aparece na tabela de gastos da pasta com viagem marcada para Manaus entre os dias 3 e 5 de maio de 2020

Ministro Eduardo Pazuello e o seu assessor especial, Aírton Antônio Soligo
Ministro Eduardo Pazuello e o seu assessor especial, Aírton Antônio Soligo (Foto: Reprodução | Reuters)
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247 - Documentos públicos apontam que o ministério da Saúde, comandado atualmente pelo general Eduardo Pazuello, sabia do cenário crítico sobre o sistema de saúde em Manaus oito meses antes de ser constatada a falta de oxigênio em hospitais da capital amazonense. De acordo com a Agência Sportlight, um documento da pasta apontou uma "situação crítica enfrentada pelo estado do Amazonas em decorrência da pandemia da Covid-19", no mês de maio.

Assessor especial do general Eduardo Pazuello, Aírton Antônio Soligo, o Aírton Cascavel aparece na tabela de gastos do ministério com viagem marcada para Manaus entre os dias 3 e 5 de maio de 2020. No período, Pazuello já era secretário executivo do ministério, cargo que desempenhou desde 28 de abril até 16 de maio.

No documento há uma descrição do motivo de deslocamento: "a situação crítica enfrentada pelo estado do Amazonas em decorrência da pandemia da covid-19".

Cascavel não havia sido nomeado no ministério quando a ida foi marcada, o que só aconteceria em 24 de junho, ou seja, o enviado do ministério para não cumpria os requisitos para desempenhar tal função. A viagem acabou não sendo realizada, apesar de agendada, como mostra o "Portal da Transparência".

Das 11 viagens feitas por ele no ano de 2020, o assessor foi mais duas vezes para a capital amazonense. Três das onze viagens marcadas eram para Manaus, mas nenhuma providência foi tomada. 

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Além das novas informações da agência, a Advocacia-Geral da União (AGU) havia informado ao STF que o governo federal sabia do iminente colapso do sistema de saúde no Amazonas 10 dias antes da crise. O ministério relata reuniões do secretariado do ministério da Saúde, realizadas entre 3 e 4 de janeiro, onde foi constatada a "possibilidade iminente de colapso do sistema de saúde, em dez dias".

Em outra manifestação, o procurador da República Igor Spindo disse que a causa principal para que o oxigênio faltasse para pacientes de coronavírus em Manaus na última semana foi a interrupção do transporte deste insumo pela Força Aérea Brasileira (FAB), ainda não se sabe por ordem de quem. 

Leia agora um trecho da reportagem da agência de jornalismo investigativo Sportlight:

Em dezembro Aírton Cascavel voltou. Ao custo de R$ 4.183,76 para o contribuinte. Entre os dias 3 e 7, de quinta a segunda-feira, mantendo o padrão das viagens para Manaus coincidirem sempre com o fim de semana. Tanto na primeiro agendada e não realizada como nas outras duas.

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Nessa última, o tema alegado nas justificativas de urgência da viagem foi “participar de reunião com o senhor David Almeida, prefeito eleito, para desenvolvimento de estratégias da política de vacinação”.

Aqui vale atenção para algo singular: embora Cascavel tenha alegado debater a estratégia de vacinação com o prefeito de Manaus e ter, segundo a agenda do ministério, se deslocado por quatro dias para tal finalidade, até então o governo federal não tinha apresentado seu “plano nacional de imunização contra a covid-19”, o que só é feito no dia 16 de dezembro.

Viagem de 4 dias para Manaus em dezembro pode ser assim resumida: reunião com prefeito que ainda não tinha assumido para debater um plano de vacinação que ainda não existia

Tampouco tinha confirmado a compra da vacina de origem chinesa da CoronaVac acertada com o Butantan. Pelo contrário. Até essa reunião de 15 de dezembro com o Butantan, o governo Bolsonaro seguia negando a compra, só contando então com quantidade diminuta da vacina da AstraZeneca, (Oxford). As 46 milhões de doses da coronavac acertadas em momento anterior foram dispensadas em outubro por Jair Bolsonaro por questões ideológicas.

“Já mandei cancelar. O presidente sou eu, não abro mão da minha autoridade. Até porque estaria comprando uma vacina que ninguém está interessado por ela, a não ser nós”, afirmou então. Numa rede social, Bolsonaro afirmou em diálogo com um fanático que questionava a compra da vacina de origem chinesa: “Não será comprada”.

Também a reunião da Anvisa para autorização de uso emergencial, tanto da vacina de Oxford como da CoronaVac, é somente no dia 17 de janeiro. Por tudo isso, o que chama atenção na reunião de Cascavel entre os dias 3 a 7 de dezembro para discutir o plano de vacinação pode ser assim resumido: Aírton Cascavel se reuniu com um prefeito que ainda não tinha assumido para debater um plano que ainda não existia.

A cidade que foi o maior destino de Aírton Cascavel até aqui e onde não foi feito nada efetivo para impedir o caos, é também onde o assessor do general Pazuello tem ligações familiares e comerciais, assim como o próprio ministro da saúde.

Além de possuir um apartamento de 178,49 metros quadrados naquela capital, como mostra sua declaração de renda ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 2018, parte significativa do produzido na sua Roraima Agrofrutas foi vendida ao governo do Amazonas, como mostrou reportagem da Agência Sportlight de Jornalismo do último dia 8.

Na última década, o diário oficial daquele estado registra Aírton Cascavel como responsável por vendas de polpas de frutas para o “programa de regionalização da merenda escolar-preme”, financiado pela “Agência de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas”. Fornecedor contratado sem licitação, como mostram os registros entre os anos de 2010 e 2014. Apenas em 2010 vendeu para a merenda do Amazonas R$ 1.068.680,80, que hoje representam R$ 2.233.113,35 na correção do IGP-M. Os sócios do local da produção, a Fazenda Brasilândia, em Boa Vista (Roraima), foram denunciados em ação do MPF-RR por grilagem. Junto com Cascavel está Rodrigo Jucá, filho de Romero Jucá, ex-senador (RR), autor da frase-símbolo “com supremo, com tudo”.

Em 13 de janeiro, reportagem do site mostrou também que o filho de Cascavel, Matheus Soligo, aparece nas redes sociais como diretor comercial do Estaleiro Rio Amazonas (ERAM), com sede em Manaus, e está citado em contratos da empresa como “procurador” da empresa e representante, além de ter se casado em 7 de abril de 2017 com Bruna Thays, sócia do estaleiro e filha de Adalberto Fernandes de Azevedo, majoritário.

Portal da Transparência registra viagem de 4 dias para uma única reunião no lugar de domicílio

Das 11 viagens, em maioria absoluta no esquema de “bate-volta”, além das de Manaus, sempre no fim de semana e consumindo quatro dias, a outra que levou o mesmo número de dias foi para Boa Vista, Roraima, domicílio eleitoral e residencial de Aírton Cascavel e onde está a maior parte de seus negócios.

Entre os dias 4 e 8 de setembro, (de sexta a terça-feira), ficou por lá, com valor da viagem de R$ 3.330,84. Nas justificativas para os 4 dias em Roraima, apenas uma atividade: “participar de reunião com o secretário estadual de saúde sobre destinação do hospital de campanha de Boa Vista”. Presencialmente.

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Portal da Transparência

Outro registro dos valores gastos por Aírton Cascavel no ministério da saúde é o relativo ao pagamento do primeiro vencimento. Nomeado em 24 de junho, em cargo DAS-102.5, cujo vencimento é de R$ 13.623,39, antes de completar um mês já recebeu salário integral. No diário oficial da união de 10 de julho, 16 dias depois de constar oficialmente, estão descritos exatos R$ 13.623,39 a título de “pagamento de ajuda de custo em face de sua nomeação como assessor especial do ministro da saúde publicada em 24/6/2020”.

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Portal da Transparência

Outro lado:

A reportagem enviou questões para o ministério da saúde, sem resposta.

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