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José Múcio defende investimentos em defesa: 'tudo pelo qual o mundo briga nós temos aqui'

Ministros afirma que seria ingenuidade não investir em defesa diante do crescimento das tensões geopolíticas

Brasília (DF) - 03/01/2026 – Ministro da Defesa, José Múcio, fala da invasão americana à Venezuela durante coletiva de imprensa (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

247 - O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, disse nesta sexta-feira que seria ingênuo o Brasil não investir em defesa em um momento de crescente instabilidade internacional, marcado pelo uso explícito da força por grandes potências e pela disputa global por recursos estratégicos. Para ele, a posição do país no cenário mundial exige atenção redobrada, já que o território brasileiro reúne riquezas naturais cobiçadas, extensas fronteiras terrestres e marítimas e desafios internos de segurança. As informações são do jornal O Globo.

Nesta semana, uma pesquisa Genial/Quaest apontou que 58% dos brasileiros temem que o país enfrente, no futuro, um cenário semelhante ao da Venezuela, com intervenção direta dos Estados Unidos. Segundo o ministro, essa percepção da população reflete uma mudança profunda na forma como o mundo opera hoje.

“É uma mudança de paradigma. Nós achávamos que, estando dentro dos nossos direitos, estaríamos protegidos. O que aconteceu mostrou que, mesmo assim, a força pode prevalecer”, afirmou José Múcio. Para ele, ignorar esse contexto seria um erro estratégico grave. “Dizer que não podemos nos preocupar talvez seja ingênuo demais, porque nós temos tudo. Tudo pelo qual o mundo briga temos demais aqui. Temos petróleo, temos gás, temos todos os minerais, temos as terras raras, temos água doce, temos tudo”, disse.

O ministro ressaltou que o Brasil está a uma distância enorme do poderio militar norte-americano, lembrando que os Estados Unidos planejam investir cerca de US$ 1,5 trilhão em defesa, enquanto o mundo gastou, apenas em 2024, aproximadamente US$ 2,7 trilhões na área. “Não há como fazer frente a isso”, reconheceu, mas ponderou que o objetivo brasileiro não é competir com superpotências, e sim garantir capacidade mínima de proteção. “A gente precisa defender as nossas fronteiras, defender o que é nosso, a gente não pode se entregar”, afirmou.

Nesse sentido, José Múcio destacou a liberação de R$ 30 bilhões fora do Orçamento tradicional, a serem aplicados ao longo de seis anos, como um passo importante, embora insuficiente. “Isso será investido em equipamento nos nossos sistemas estratégicos. Não é para folha, não é para aumentar contingente”, explicou. Segundo ele, o valor representa cerca de R$ 5 bilhões por ano, montante pequeno diante das necessidades acumuladas ao longo de décadas de baixo investimento.

O ministro também abordou as dificuldades históricas na relação entre civis e militares após a ditadura iniciada em 1964, apontando que o tema da defesa foi relegado a segundo plano nos projetos políticos. “A defesa saiu das plataformas de governo. É como se você contratasse um vigia, não confiasse nele e não permitisse que ele trabalhasse armado”, comparou, defendendo que o assunto volte a ser tratado como prioridade de Estado, e não de governo.

Questionado sobre o impacto das prisões de generais, almirantes e coronéis envolvidos em tentativas de ruptura institucional, José Múcio afirmou que o episódio foi assimilado internamente como um alerta. “Bate como uma lição para nunca mais fazermos isso”, disse. Segundo ele, não houve reação corporativa das Forças Armadas e a punição individual foi fundamental para preservar as instituições. “Nós ajudamos a que fossem punidos nos seus CPFs. Não podíamos condenar o CNPJ”, afirmou.

Ao tratar do cenário internacional recente, o ministro citou a atuação dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, como exemplo de uma política externa mais direta e baseada na força. Para José Múcio, essa postura reforça a necessidade de o Brasil não negligenciar sua própria capacidade defensiva, ainda que saiba de seus limites frente às grandes potências.

A Amazônia apareceu como um dos principais pontos de atenção, tanto pela riqueza ambiental quanto pela atuação do crime organizado. O ministro lembrou o deslocamento de tropas e equipamentos para a região nos últimos anos, mas reconheceu que o efetivo ainda é reduzido diante da extensão territorial. “Nós temos cerca de 20 mil homens nas fronteiras, que é muito pouco”, afirmou, ao destacar também o papel das Forças Armadas no apoio logístico e no acesso a áreas remotas.

José Múcio defendeu que o combate ao crime organizado vá além da atuação militar e envolva os demais Poderes da República. “É uma guerra que nós estamos perdendo, mas sai das responsabilidades das Forças Armadas”, disse, ao cobrar mudanças legais e maior coordenação institucional para enfrentar um problema que, segundo ele, ameaça toda a sociedade.

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