"Justiça mesmo seria Marielle estar viva", diz Anielle Franco
Ministra acompanha julgamento no STF e afirma que assassinato da vereadora não pode ficar impune
247 - A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco (PT), afirmou que o assassinato da vereadora Marielle Franco, ocorrido em março de 2018, “não pode ficar impune” e declarou à Folha de São Paulo que a expectativa da família diante do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) é que “a democracia saia fortalecida”.
Irmã da parlamentar assassinada, Anielle destacou que o momento é marcado por sentimentos contraditórios, mas reforçou a confiança de que o processo judicial trará respostas. “A expectativa da família como um todo é que a gente consiga minimamente ter justiça nesse processo e responsabilizar mesmo aqueles que, de fato, forem os culpados, que a gente possa ter essa resposta, mesmo sabendo que a justiça mesmo seria ela estar viva”, afirmou.
Ela descreveu o impacto emocional que atravessa a família desde o crime. “É um mix de sentimentos. O sentimento de que a gente precisa continuar lutando, o sentimento de que já se passou muito tempo e a dor da perda não consegue ser mensurada, mas, ao mesmo tempo, é uma luta diária para esse lugar de ter um pouco de justiça”, declarou.
Julgamento no STF
A Primeira Turma do STF iniciou nesta terça-feira (24) o julgamento do ex-deputado federal Chiquinho Brazão (sem partido-RJ), do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro Domingos Brazão e do ex-chefe da Polícia Civil Rivaldo Barbosa. Os três são réus sob acusação de planejar o assassinato da vereadora. Eles estão presos desde março de 2024 e negam participação no crime.
Além deles, dois policiais militares também respondem por envolvimento na execução. A família de Marielle acompanha presencialmente a sessão em Brasília. Estão presentes o pai, Antônio, a mãe, Marinete, a filha Luyara e a viúva Mônica Benicio, além de Agatha Anaus, viúva de Anderson Gomes, motorista que também foi morto no atentado.
Anielle reafirmou que continuará mobilizada independentemente do desfecho judicial. “Vamos supor que, de fato, alguém é absolvido, então quem mandou matar? Aí começa uma outra busca, uma nova busca. Eu fiz a promessa no 14 de março, que quando tiver sangue correndo nas minhas veias, eu vou seguir vocalizando, verbalizando e falando a justiça por Marielle e Anderson”, disse.
Apesar das incertezas, ela mantém esperança em uma decisão que traga responsabilização. “Mas eu estou confiante que a justiça vai ser feita, mesmo repetindo, achando que justiça mesmo seria ela estar viva. Agora é a minha esperança que as respostas venham. Positivas ou não, a gente vai continuar lutando pelo legado dela e pela memória e para descobrir também quem mandou matar ou não".
Lacunas no processo e confiança nas instituições
Reportagem da Folha apontou que o processo não preencheu lacunas centrais relacionadas ao suposto planejamento do crime, conforme relato do ex-policial militar Ronnie Lessa, que firmou acordo de delação premiada e confessou ter executado Marielle e Anderson. Segundo a investigação, não há provas independentes que confirmem encontros relatados por Lessa com os irmãos Brazão nem evidências autônomas de contato entre os acusados e Rivaldo Barbosa sobre o planejamento do homicídio.
Questionada sobre esses pontos, Anielle afirmou confiar nas instituições. “O que tiver que ser, se tiverem provas, como eles farão para dar o próximo passo. Eu não sou da área jurídica, nem muito menos da área criminal, mas o meu desejo enquanto família é que de fato a gente tenha as respostas que a gente espera amanhã e quarta-feira (25)”, declarou.
Federalização das investigações
A Polícia Federal passou a atuar diretamente no caso em 2023, após determinação do então ministro da Justiça e hoje ministro do STF Flávio Dino para ampliar a colaboração federal nas investigações.
Anielle disse que a família passou a defender a federalização após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), avaliando que, no governo anterior, o caso não recebeu a devida atenção.
Para a ministra, o assassinato de Marielle pode estar relacionado ao que ela simbolizava na política brasileira. “As motivações das lutas em um único corpo e o que ela representava e representa. Porque você imagina, em um país machista, misógino, racista como é o Brasil, uma mulher negra chegar ali com 46 mil votos, da maneira com que ela chegou, sem ter um padrinho político”, afirmou.

