Monica Benicio cobra julgamento dos mandantes de Marielle e diz que resposta do STF é condição para a democracia
Primeira Turma começa a analisar acusação contra Chiquinho e Domingos Brazão e Rivaldo Barbosa, citados como articuladores do assassinato de Marielle
247 – A vereadora Monica Benicio (PSOL-RJ), viúva de Marielle Franco, afirma viver a expectativa do início do julgamento dos acusados de mandar matar a companheira e o motorista Anderson Gomes e defende que a decisão do Supremo Tribunal Federal é determinante para a confiança pública nas instituições. “Precisamos dessa resposta para podermos dizer que vivemos em uma democracia”, disse ela.
A declaração foi dada à coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, na segunda-feira (23), véspera do início do julgamento na Primeira Turma do STF, marcado para esta terça-feira (24), no qual a Corte começa a examinar as acusações contra os apontados como mandantes e articuladores do crime.
STF inicia julgamento e caso entra em fase decisiva
A Primeira Turma do STF começa a julgar os acusados de planejar o assassinato de Marielle Franco (PSOL) e de Anderson Gomes. Estão presos desde março de 2024 o ex-deputado Chiquinho Brazão, seu irmão Domingos Brazão, conselheiro do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro), e o ex-chefe da Polícia Civil Rivaldo Barbosa, citados como responsáveis por arquitetar o crime.
A etapa abre um novo capítulo de um dos casos mais emblemáticos da história recente do país, tanto pelo impacto político quanto pela dimensão simbólica do assassinato de uma vereadora negra, defensora dos direitos humanos e referência no enfrentamento à violência nas periferias.
“Não é conforto”, diz Mônica, ao lembrar expectativas frustradas e interferências
Monica Benicio descreve o momento como atravessado por dor e alívio, sem qualquer idealização. Para ela, o avanço do processo não apaga perdas nem repara o futuro interrompido, mas representa a chegada a um ponto que, por muito tempo, pareceu distante.
“Não existe nada que conforte a dor de ter tido o futuro com alguém que se ama arrancado, então o nome para a sensação que temos agora não é conforto, sobretudo depois de tantas expectativas rompidas em um processo cheio de interferências, inclusive do chefe da Polícia Civil na época, Rivaldo Barbosa, agora acusado de ser mentor do assassinato. Mas chegamos a esse estágio com algum alívio”, afirmou.
Ao mencionar “interferências”, a vereadora reforça a leitura de que o caso atravessou pressões e obstáculos ao longo dos anos, num ambiente em que a apuração de crimes políticos no Rio de Janeiro frequentemente esbarra em redes de poder e em estruturas armadas que influenciam o cotidiano institucional.
Luto cotidiano e memória: “As coisas pequenas” que viraram ausência
Quase oito anos após a morte de Marielle, Mônica diz que a ausência é permanente e que o luto se renova em gestos simples do dia a dia. Ela afirma sentir falta da companheira todos os dias e ressalta que a perda foi também de convivência, casa, rotina e projeto de vida.
“A pessoa com quem eu compartilhava a vida, a casa e os valores. As coisas pequenas são as que mais sinto saudade, como arrumar o quarto juntas pela manhã e conversar sobre as expectativas para o dia”, declarou.
A fala recoloca Marielle não apenas como figura pública, mas como presença íntima, afetiva e concreta, mostrando como a violência política não destrói somente trajetórias coletivas: ela invade lares, rompe vínculos e produz marcas permanentes em famílias e comunidades.
Família e expectativa por condenação dos responsáveis
Monica Benicio afirma manter boa relação com a família e com a filha de Marielle, e diz que o ambiente entre os parentes também é de expectativa diante do julgamento no STF. A mobilização por responsabilização, segundo ela, é resultado de uma longa insistência coletiva, que reuniu sociedade civil, movimentos de direitos humanos e pessoas comprometidas com Justiça e verdade.
Na avaliação da vereadora, Marielle, como defensora dos direitos humanos, estaria orgulhosa da persistência de quem pressionou para que o caso não fosse empurrado para o esquecimento, nem capturado por interesses alheios ao esclarecimento dos fatos.


