No G7, Lula cobra mais apoio dos ricos países contra desigualdade global
Presidente afirma que países ricos precisam ampliar esforços para reduzir desigualdades e combater a pobreza
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta terça-feira (16), durante a Cúpula do G7 em Évian, na França, um maior comprometimento das economias mais desenvolvidas com o combate à pobreza e à desigualdade no planeta. Convidado para o encontro, o chefe de Estado brasileiro afirmou que a distância entre países ricos e pobres continua aumentando e cobrou mais solidariedade internacional. Lula também alertou que a redução dos recursos destinados ao desenvolvimento global e a priorização de gastos militares agravam a situação das populações mais vulneráveis.
Lula alerta para aumento das desigualdades
Ao discursar diante dos líderes das maiores economias do mundo, Lula destacou que a prosperidade observada nos países desenvolvidos contrasta com a realidade enfrentada por bilhões de pessoas no Sul Global.
“Os desafios se multiplicam, mas a solidariedade internacional encolhe. A distância que separa a prosperidade de Évian da realidade enfrentada por bilhões de pessoas no Sul Global não está diminuindo. Nos últimos anos, a desigualdade entre países ricos e pobres tem aumentado. Nossa tarefa é corrigir as desigualdades de um sistema que produz riqueza em abundância, mas que distribui oportunidades de forma profundamente assimétrica”, afirmou.
O presidente também chamou atenção para a redução dos investimentos internacionais voltados ao desenvolvimento e para os impactos sociais provocados por essa retração.
“No ano passado, registramos queda histórica de 23% na Ajuda Oficial ao Desenvolvimento. O Programa Mundial de Alimentos perdeu cerca de 40% de seu financiamento. A Organização Mundial da Saúde e o UNICEF reduziram seus orçamentos em mais de 20%. Guerras e conflitos também continuam desviando o foco da agenda do desenvolvimento. Os gastos militares anuais somam quase 3 trilhões de dólares”, declarou.
Dívida dos países pobres e crise social
Lula argumentou que os números refletem dificuldades concretas enfrentadas pela população dos países em desenvolvimento, especialmente nas áreas de alimentação, saúde e educação.
“Não são cifras abstratas. Elas impactam diretamente o cotidiano dos habitantes de países em desenvolvimento. São milhões de pessoas sem acesso à alimentação adequada; crianças sem frequentar a escola; mulheres privadas de proteção; e comunidades vulneráveis diante de doenças que podem ser prevenidas. O mundo em desenvolvimento transfere 1,4 trilhão de dólares por ano em serviço da dívida, valor sete vezes superior à ajuda recebida dos países ricos”, afirmou.
Críticas ao neoliberalismo
O presidente brasileiro também fez críticas ao neoliberalismo e aos seus impactos sobre a economia e a estabilidade política mundial.
“Ficamos aprisionados em dogmas que defendem desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade fiscal como fins em si mesmos. O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias. Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”, alertou.
Brasil apresenta propostas de cooperação
Ao apontar caminhos para enfrentar as desigualdades, Lula afirmou que o principal desafio é a implementação de políticas e a construção de consensos políticos internacionais.
“Precisamos de um sistema financeiro no qual os países não sejam obrigados a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças. Está claro que o desafio não é administrar a escassez. O déficit que enfrentamos é de implementação e de vontade política”, disse.
O presidente destacou iniciativas apoiadas pelo Brasil, entre elas o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), voltado à preservação ambiental, a Aliança Global contra a Fome e o Painel Internacional sobre Desigualdade, proposto pela presidência sul-africana do G20.
Combate ao crime organizado
Lula também comentou a declaração do G7 sobre o combate ao tráfico de drogas e defendeu uma atuação coordenada contra organizações criminosas transnacionais.
“A Declaração de Líderes do G7 sobre o Combate ao Tráfico de Drogas é um passo positivo. Mas o enfrentamento ao narcotráfico não pode ser dissociado de outros ilícitos, como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas. Valorizar o diálogo e a cooperação institucional, inclusive por meio da Interpol, contribuirá para a localização de ativos e indivíduos vinculados a essas atividades criminosas”, afirmou.
Inteligência artificial e minerais estratégicos
Na etapa final do pronunciamento, Lula defendeu que os debates sobre desenvolvimento internacional incluam o acesso à inteligência artificial e a participação dos países produtores de minerais críticos nas etapas mais lucrativas das cadeias produtivas.
“Outro desafio que não pode permanecer excluído do debate sobre parcerias para o desenvolvimento é o acesso a tecnologias de ponta, como a Inteligência Artificial. As transições energética e digital não podem reproduzir padrões históricos que concentram benefícios econômicos em poucos atores”, afirmou.
“Os países detentores de minerais críticos devem participar das etapas de maior valor agregado da cadeia, por meio da industrialização, da transferência de tecnologia e da formação de capacidades, conforme suas necessidades nacionais”, concluiu o presidente.



