HOME > Brasil

Pessoas negras representam 77% das vítimas de homicídio no Brasil, mostra Atlas da Violência

Pesquisa aponta 32.820 homicídios de pessoas negras em 2024 e expõe desigualdade racial na violência letal

Pessoas negras representam 77% das vítimas de homicídio no Brasil, mostra Atlas da Violência (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Brasil de Fato - O relatório Atlas da Violência 2026, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que o Brasil registrou 32.820 homicídios de pessoas negras em 2024, o que corresponde a 77% do total de homicídios registrados naquele ano.

Os números reafirmam a persistência de um padrão estrutural de desigualdade racial na violência letal no país. Esses dados revelam que, em média, 89,9 pessoas negras são assassinadas diariamente no território nacional.

A disparidade entre os grupos raciais torna-se ainda mais evidente quando se comparam as taxas de mortalidade. Enquanto a taxa para pessoas não negras foi de 10,1 por 100 mil habitantes, a taxa entre negros atingiu 27,3. Isso significa que a mortalidade por homicídio entre negros é 170,3% superior à de não negros.

Na prática, uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chances de ser morta do que uma pessoa branca, amarela ou indígena, número igual ao de 2023. Se olhar para os estados, a condição fica ainda mais assustadora. O cenário de maior discrepância no país é registrado em Alagoas, onde o risco relativo atinge um nível extremo: no estado, a população negra tem 23,3 vezes mais chances de ser vítima de homicídio do que a população não negra.

Essa discrepância brutal coloca Alagoas no topo do ranking de desigualdade racial na violência letal, repetindo o mesmo padrão crítico que já havia sido mapeado na edição de 2025 do levantamento. Logo atrás, o estado do Amapá apresenta o segundo maior risco relativo do Brasil, com a população negra tendo 16,7 vezes mais chances de ser morta.

O ranking da desigualdade letal segue com índices também bastante desproporcionais em Sergipe (6,8 vezes) e na Paraíba (5,5 vezes). A regra observada é que, em praticamente todo o território brasileiro, ser negro significa ter uma probabilidade consideravelmente maior de ter a vida interrompida pela violência.

A única exceção a esse cenário é Roraima, que registrou um risco relativo de 0,5, sendo o único estado em que a população negra apresentou menor chance de vitimização letal em comparação ao grupo de não negros. Ao todo, na série histórica de 11 anos avaliada pelo documento (de 2014 a 2024), o país somou o alarmante número de 435.551 pessoas negras assassinadas, contra 132.156 vítimas do grupo de não negros.

Desigualdade na redução

Embora o Brasil tenha experimentado uma tendência geral de queda na violência letal no longo prazo, os avanços não ocorrem no mesmo ritmo para todos os grupos. Entre 2014 e 2024, a redução dos homicídios para não negros foi de 38,9%, enquanto para negros a queda foi significativamente menor, de 21,7%.

Esse descompasso indica que os ganhos na segurança pública não se distribuem de forma equitativa, mantendo a população negra em uma posição de maior vulnerabilidade.

A leitura regional do Atlas expõe que a violência letal contra pessoas negras está fortemente concentrada nos territórios das regiões Norte e Nordeste, enquanto os índices mais baixos se concentram no Sul e Sudeste.

Em 2024, as maiores taxas de homicídios de negros por 100 mil habitantes ocorreram no Amapá (56,8), Alagoas (48,9), Pernambuco (47,6) e Bahia (47,1). No extremo oposto, as menores taxas foram computadas nos estados de São Paulo (8,0) e Santa Catarina (10,3).

Impacto sobre as mulheres negras

O cruzamento entre o racismo estrutural e a cultura patriarcal faz com que as mulheres negras (soma de pretas e pardas) sejam as principais afetadas pela violência letal no Brasil. É importante destacar que o Atlas da Violência contabiliza o total de homicídios de mulheres registrados pelo sistema de saúde, e não especificamente de feminicídios — termo jurídico restrito aos assassinatos motivados por violência doméstica ou menosprezo à condição de gênero.

Como o documento aponta, a subnotificação e a falta de preenchimento adequado de boletins de ocorrência mascaram o real tamanho do feminicídio no país, tornando o índice geral de homicídios a métrica mais segura para medir a letalidade.

Em 2024, o país registrou o assassinato de 2.457 mulheres negras, o que representou expressivos 67,5% de todas as mortes violentas de mulheres ocorridas no território nacional. Na prática, a taxa de vitimização por homicídio de mulheres negras ficou em 4,0 mortes para cada 100 mil habitantes, um índice 66,7% superior à taxa verificada entre as mulheres não negras, que registrou 2,4 ocorrências por 100 mil.

Geograficamente, 14 unidades da Federação superaram a média nacional de violência contra a mulher negra em 2024. Os cenários mais graves foram identificados no Ceará, com uma taxa de 7,2 mortes por 100 mil, seguido por Pernambuco (6,7), Espírito Santo (6,5) e Roraima (6,3).

Na contramão da tendência histórica de declínio nacional, o estado do Ceará registrou um salto severo de 56,5% na taxa de homicídios de mulheres negras ao longo da última década.

Quando não mata

Para além dos índices de assassinatos, a sobreposição das vulnerabilidades de gênero e raça também se manifesta cruelmente nos registros de violência não letal, que incluem agressões físicas, psicológicas e sexuais reportadas ao sistema de saúde.

Os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) mostram que a violência contra a mulher não é apenas uma questão de idade ou de contexto familiar, mas é profundamente organizada por desigualdades raciais, colocando as mulheres negras no topo das estatísticas de vitimização.

O peso dessa disparidade estrutural fica evidente quando se analisam as proporções desse cenário no último ano. Em 2024, as mulheres negras representaram a expressiva maioria das vítimas de violência doméstica e intrafamiliar no país. Elas concentraram 58,6% de todos os registros contabilizados nos serviços de saúde, uma parcela significativamente superior à observada entre as mulheres brancas (39,3%), indígenas (1,1%) e amarelas (1,0%).

Essa assimetria torna-se ainda mais alarmante quando se calculam as taxas de vitimização, que medem o risco real a que cada grupo está submetido. A cada 100 mil mulheres negras no Brasil, 175,4 foram vítimas de violência doméstica e dentro da família em 2024, enquanto a taxa entre as mulheres não negras foi de 156,8 ocorrências para o mesmo grupo populacional.

População LGBTQIAPN+ negra

A análise da violência contra a população LGBTQIAPN+ revela que, independentemente da orientação sexual, a maior parte das vítimas de agressões no país é composta por pessoas negras. Os registros do sistema de saúde mostram que, entre as vítimas que se identificam como heterossexuais, homossexuais e bissexuais, a participação de pessoas negras varia de 57% a 59%, superando de forma consistente e sistemática a proporção de vítimas brancas.

Esse recorte racial torna-se ainda mais alarmante quando o foco recai sobre as vítimas dissidentes de gênero. Os dados expõem que pessoas negras correspondem a 67% das travestis e 61% das mulheres transexuais vítimas de violência no Brasil.

No caso dos homens transexuais, embora a distribuição apresente uma participação ligeiramente maior de vítimas brancas (42%) em comparação aos brancos dos demais grupos, a concentração de negros também permanece sendo a maioria, representando 55% dos registros de mortes de homens transexuais.

Percepção do racismo

Apesar de a população negra estar submetida a um risco de morte por homicídio flagrantemente superior, essa disparidade extrema ainda não é plenamente reconhecida pelo senso comum como uma expressão concreta do racismo.

Para ilustrar esse fenômeno, o Atlas da Violência cita uma pesquisa do instituto Ipsos, realizada em 2025 em dez capitais brasileiras: embora 78% dos entrevistados afirmem perceber o tratamento desigual entre brancos e negros no país, a maioria associa o preconceito quase exclusivamente a situações interpessoais ligadas à discriminação cultural ou econômica.

Segundo o levantamento, a sociedade aponta como principais palcos do racismo os ambientes de consumo, como shoppings e comércios (57%), e o mercado de trabalho (44%).

O relatório indica que escancarar essas estatísticas e tornar visível o peso do racismo na letalidade violenta é um passo inegociável. No documento, os pesquisadores apontam que, apenas rompendo com essa invisibilidade, será possível fornecer evidências sólidas para que o Estado formule políticas públicas capazes de avançar em uma perspectiva antirracista, corrigindo de forma efetiva os danos da desigualdade racial no Brasil.

Artigos Relacionados