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Negros têm 2,7 vezes mais risco de serem assassinados no Brasil

Dados são do Atlas da Violência 2026 e refletem o cenário de 2024

Uma luta sempre atual (Foto: Rovena Rosa/Ag. Brasil)
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247 - O Brasil registrou 32.820 homicídios de pessoas negras em 2024, número que corresponde a 77% de todas as vítimas de assassinato no país e expõe a permanência de uma profunda desigualdade racial, segundo o Atlas da Violência 2026. O levantamento mostra que a taxa de homicídios entre pessoas negras chegou a 27,3 mortes por 100 mil habitantes, quase três vezes o índice observado entre não negros, informa a Folha de São Paulo.

Elaborado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o estudo considera como população negra o grupo formado por pretos e pardos. De acordo com o Censo 2022, esse contingente representa 55% da população brasileira, proporção muito inferior à participação das pessoas negras entre as vítimas de homicídio, o que reforça a concentração da violência sobre esse grupo racial.

Entre brancos, amarelos e indígenas, classificados pelo Atlas como não negros, foram contabilizados 9.234 homicídios em 2024. Nesse grupo, a taxa foi de 10,1 mortes por 100 mil habitantes. Na comparação, pessoas negras tiveram 170,3% mais risco de serem assassinadas no país. Em termos proporcionais, uma pessoa negra teve 2,7 vezes mais chance de morrer vítima de homicídio do que uma pessoa não negra.

Desigualdade racial aparece com força nos estados

O Amapá registrou a maior taxa de homicídios de pessoas negras no Brasil, com 56,8 assassinatos por 100 mil habitantes negros. Em seguida aparecem Alagoas, com 48,9, Pernambuco, com 47,6, e Bahia, com 47,1. Os dados revelam que a violência letal contra a população negra permanece especialmente elevada em estados do Norte e do Nordeste.

A diferença racial é particularmente intensa em Alagoas. No estado, a taxa de homicídios entre pessoas negras foi de 48,9 por 100 mil habitantes em 2024, enquanto entre não negros ficou em 2,1. No Amapá, a taxa chegou a 56,8 entre negros, contra 3,4 entre não negros. Na Bahia, o índice foi de 47,1 homicídios por 100 mil habitantes negros, diante de 11,5 entre não negros. Em Pernambuco, a taxa foi de 47,6 entre negros e 15,9 entre não negros.

No Sudeste e no Sul, o cenário é diferente, embora a desigualdade racial continue presente. São Paulo apresentou a menor taxa de homicídios de pessoas negras do país, com 8 mortes por 100 mil habitantes. Santa Catarina registrou 10,3. Mesmo nesses estados, pessoas negras permaneceram mais expostas à violência letal do que pessoas não negras.

Série histórica mostra permanência da desigualdade

O Atlas da Violência mostra que a distância entre as taxas de homicídio de negros e não negros se manteve ao longo de toda a série histórica analisada, de 2014 a 2024. No início do período, a taxa de homicídios de pessoas negras era de 39,2 mortes por 100 mil habitantes, enquanto entre não negros era de 16,2.

Dez anos depois, houve queda nos dois grupos, mas a diferença permaneceu elevada. Em 2024, a taxa entre negros ficou em 27,3 por 100 mil habitantes, contra 10,1 entre não negros. Em nenhum momento da década analisada a taxa de homicídios da população negra se aproximou da registrada entre os demais grupos.

O pico da série ocorreu em 2017, quando a taxa de homicídios de pessoas negras chegou a 43,5 por 100 mil habitantes. Naquele mesmo ano, o índice entre não negros permaneceu em 16,2. A comparação reforça que a redução geral dos homicídios não eliminou a desigualdade racial na exposição à morte violenta.

Queda foi menor entre pessoas negras

As tabelas históricas do Atlas indicam que a redução dos homicídios ocorreu em ritmos diferentes. Entre 2014 e 2024, a taxa de assassinatos de pessoas negras caiu de 39,2 para 27,3 por 100 mil habitantes. Entre não negros, a queda foi de 16,2 para 10,1.

Em números proporcionais, a redução dos homicídios entre não negros foi de 38,9% na década. Entre pessoas negras, o recuo foi menor, de 21,7%. O resultado mostra que a melhora nos indicadores de violência letal beneficiou os grupos raciais de forma desigual.

Em alguns estados, a violência contra pessoas negras ficou praticamente estável no período. Na Bahia, por exemplo, a taxa passou de 47,4 homicídios por 100 mil habitantes negros em 2014 para 47,1 em 2024. Em Alagoas, apesar da queda registrada na série histórica, o estado continuou entre os mais violentos do país para a população negra.

Ao longo dos 11 anos analisados pelo Atlas, 435.551 pessoas negras foram assassinadas no Brasil. No mesmo período, foram contabilizadas 132.156 vítimas não negras. A diferença em números absolutos reforça a centralidade da questão racial na dinâmica da violência letal brasileira.

Casos recentes em São Paulo

A desigualdade descrita pelo Atlas também aparece em episódios recentes de violência envolvendo homens negros em São Paulo. Em abril deste ano, a Justiça condenou o estado de São Paulo a pagar R$ 200 mil de indenização à família de Gabriel Renan da Silva Soares, de 26 anos, morto com 11 tiros disparados por um policial militar de folga em frente a um mercado na zona sul da capital.

Gabriel havia furtado produtos de limpeza de um supermercado quando foi baleado pelo PM Vinicius de Lima Britto, em novembro de 2024. Imagens de câmeras de segurança mostram o momento em que o jovem escorrega ao deixar o estabelecimento e é atingido sem chance de defesa.

Outro caso ocorreu em julho de 2025, também na zona sul de São Paulo. O marceneiro Guilherme Dias Santos Ferreira, de 26 anos, homem negro que trabalhava em uma fábrica de camas, foi morto por um policial militar de folga após ser confundido com um assaltante em Parelheiros.

Segundo a investigação, Guilherme havia acabado de sair do trabalho e seguia para um ponto de ônibus carregando mochila, marmita, carteira, celular e um livro quando foi baleado. O policial afirmou ter reagido depois de uma tentativa de roubo cometida por motociclistas na região.

Racismo estrutural e violência letal

Para Daniel Cerqueira, coordenador do Atlas da Violência, os dados evidenciam os efeitos persistentes do racismo estrutural no Brasil. “Após 350 anos de escravidão negra, ainda temos reflexos muito presentes desse processo”, afirma.

Cerqueira relaciona a maior vulnerabilidade da população negra à exclusão histórica dos sistemas educacional e do mercado de trabalho. Segundo ele, esse processo ampliou a presença de pessoas negras entre os estratos mais pobres da população, aumentando a exposição desse grupo à violência.

O coordenador do Atlas também aponta a existência de um “racismo que mata”, associado à atuação institucional e à forma como a violência é aplicada contra pessoas negras. “Vamos olhar como se dá o uso da força das polícias quando o cidadão é negro ou branco. É completamente diferente”, afirma.

Na avaliação de Cerqueira, a associação histórica entre população negra e criminalidade contribui para ampliar a letalidade policial. “Muitas vezes esse preconceito leva a um viés de letalidade. Se olharmos as mortes por intervenção policial, a esmagadora maioria das vítimas é negra”, diz.

Naturalização da violência

O Atlas sustenta que a maior exposição da população negra à violência letal ainda não é plenamente reconhecida como expressão concreta do racismo estrutural no país. O estudo cita uma pesquisa do Ipsos realizada em dez capitais brasileiras, segundo a qual 78% dos entrevistados reconhecem que há tratamento desigual entre brancos e negros.

Apesar desse reconhecimento, a percepção do racismo aparece mais associada a ambientes de consumo e ao mercado de trabalho do que aos homicídios. Para Cerqueira, essa naturalização interfere na forma como as mortes de pessoas negras são recebidas pela sociedade. “Quando uma pessoa negra morre, muitas vezes isso nem vira notícia. Existe uma parcela da sociedade que ainda associa automaticamente a vítima negra à criminalidade”, afirma.

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