África vive renascimento geopolítico e reafirma protagonismo global no Dia da África
Data que marca a criação da União Africana simboliza luta anticolonial, soberania e a ascensão de um continente estratégico no mundo multipolar
247 – O Dia da África, celebrado em 25 de maio, ganhou neste ano uma dimensão ainda mais estratégica e simbólica diante das profundas transformações geopolíticas em curso no planeta. A data marca a fundação da Organização da Unidade Africana (OUA), em 1963, em Adis Abeba, na Etiópia — organismo que deu origem à atual União Africana (UA) — e representa a luta histórica dos povos africanos contra o colonialismo, o apartheid e a exploração estrangeira.
Mais de seis décadas depois, a África volta ao centro da disputa global. Com uma população superior a 1,4 bilhão de pessoas, vastas reservas minerais, enorme potencial energético e posição estratégica no Sul Global, o continente se tornou peça-chave na construção de uma nova ordem multipolar impulsionada pelos BRICS, pela ascensão da China e pela reorganização econômica global.
O Dia da África deste ano ocorre em um momento em que vários países africanos aprofundam relações com potências emergentes, buscam maior autonomia financeira e militar e questionam antigas estruturas de dependência impostas pelas potências ocidentais desde o período colonial.
África e o nascimento do pan-africanismo
A criação da OUA, em 25 de maio de 1963, foi resultado direto das lutas de libertação nacional que atravessaram o continente ao longo do século XX. Líderes históricos como Kwame Nkrumah, do Gana, Gamal Abdel Nasser, do Egito, Julius Nyerere, da Tanzânia, e Haile Selassie, da Etiópia, defendiam a união africana como instrumento de soberania política e emancipação econômica.
O pan-africanismo surgiu como movimento político e intelectual voltado à integração dos povos africanos e da diáspora negra espalhada pelo mundo após séculos de escravidão e colonização europeia. A ideia central era simples, mas poderosa: apenas uma África unida poderia enfrentar a exploração externa e construir um projeto próprio de desenvolvimento.
A partir dos anos 1960, dezenas de países africanos conquistaram independência formal das potências europeias. No entanto, muitos continuaram submetidos a mecanismos de dependência econômica, financeira e militar, em um processo frequentemente descrito por intelectuais africanos como “neocolonialismo”.
O continente que o mundo disputa
Hoje, a África é vista como uma das regiões mais estratégicas do planeta. O continente concentra parte significativa das reservas globais de minerais essenciais para a transição energética e tecnológica, incluindo cobalto, lítio, manganês, cobre, urânio e terras raras.
A República Democrática do Congo, por exemplo, responde por cerca de 70% da produção mundial de cobalto, elemento essencial para baterias elétricas. Já países como Níger, Angola, Argélia e Moçambique possuem enorme relevância energética e mineral.
Além disso, a África apresenta algumas das economias com maior potencial de crescimento demográfico e urbano do século XXI. Segundo projeções da ONU, um em cada quatro habitantes do planeta será africano até 2050.
Esse cenário colocou o continente no centro da disputa entre Estados Unidos, China, União Europeia, Rússia, Índia e países árabes.
China amplia presença e muda o eixo econômico africano
Nas últimas duas décadas, a China se consolidou como principal parceiro comercial de grande parte dos países africanos. Por meio da Nova Rota da Seda, Pequim financiou ferrovias, portos, hidrelétricas, estradas e projetos industriais em diversos países do continente.
Diferentemente das antigas potências coloniais europeias, a diplomacia chinesa costuma enfatizar o discurso de cooperação Sul-Sul e respeito à soberania nacional, o que ampliou sua influência política na região.
Em vários países africanos, cresce a percepção de que a parceria com a China oferece alternativas mais vantajosas do que os tradicionais programas de austeridade impostos por organismos financeiros internacionais ligados ao Ocidente.
Ao mesmo tempo, Rússia, Índia, Turquia e países do Golfo ampliam investimentos e presença diplomática na África, reforçando a transição para um mundo menos concentrado nas potências atlânticas tradicionais.
BRICS e o fortalecimento do Sul Global
A entrada de novos países africanos na dinâmica dos BRICS também simboliza essa mudança histórica. A África do Sul já integra o bloco desde 2011, enquanto países como Egito e Etiópia passaram a participar do grupo ampliado.
O fortalecimento dos BRICS é visto por muitos governos africanos como oportunidade para reduzir dependência do dólar, ampliar investimentos em infraestrutura e construir mecanismos financeiros alternativos aos controlados por Washington e Bruxelas.
A discussão sobre comércio em moedas locais, bancos de desenvolvimento e maior integração entre países do Sul Global passou a ocupar espaço central nas estratégias africanas de desenvolvimento.
Feridas do colonialismo ainda permanecem
Apesar do crescimento econômico em várias regiões, o continente ainda enfrenta graves desafios sociais e estruturais herdados do colonialismo europeu.
Muitos países convivem com pobreza extrema, conflitos armados, instabilidade política, fome e exploração predatória de recursos naturais por empresas multinacionais estrangeiras.
Além disso, antigas potências coloniais continuam exercendo influência direta em várias regiões africanas, especialmente na África Ocidental, onde cresce o sentimento popular contra a presença militar francesa.
Nos últimos anos, países como Mali, Burkina Faso e Níger passaram por rupturas políticas acompanhadas de forte discurso anti-imperialista e defesa da soberania nacional.
África e Brasil: laços históricos e culturais
O Dia da África também possui profundo significado para o Brasil. Milhões de africanos escravizados foram trazidos ao país durante mais de três séculos, deixando marcas decisivas na cultura, religião, música, culinária e formação social brasileira.
A influência africana está presente em praticamente todos os aspectos da identidade nacional brasileira, do samba às religiões de matriz africana, passando pela capoeira, literatura, gastronomia e vocabulário popular.
Ao mesmo tempo, o racismo estrutural e as desigualdades herdadas da escravidão continuam sendo desafios centrais da sociedade brasileira.
Nos últimos anos, governos progressistas brasileiros buscaram fortalecer relações diplomáticas, comerciais e culturais com países africanos, retomando a ideia de cooperação Sul-Sul e aproximação estratégica entre Brasil e África.
O significado político do Dia da África
Mais do que uma celebração simbólica, o Dia da África representa hoje a afirmação de um continente que busca recuperar sua soberania histórica após séculos de colonização, escravidão e dependência econômica.
Em um mundo marcado pela disputa entre projetos geopolíticos, a África emerge não apenas como território de recursos estratégicos, mas como protagonista político de uma nova ordem internacional multipolar.
A celebração deste 25 de maio ocorre, portanto, em meio a um processo histórico de transformação global no qual os países africanos buscam ampliar sua voz, sua autonomia e sua influência no cenário mundial.



