PF preparava nova fase da operação na Americanas há mais de 6 meses
Operação Disclosure mirou acionistas, conselheiros e bancos após apuração sobre fraudes contábeis
247 - A segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada pela Polícia Federal na quinta-feira (25), vinha sendo preparada havia mais de seis meses e mirou acionistas, ex-conselheiros e executivos de bancos ligados ao caso Americanas, em nova frente de investigação sobre fraudes contábeis na varejista.
Segundo apuração do Valor Econômico, a PF aguardava desde o fim do ano passado autorização judicial para cumprir os mandados. A decisão foi concedida apenas na semana passada pela 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, permitindo buscas no Rio de Janeiro e em São Paulo contra oito alvos, em dez endereços.
A operação recolheu celulares, notebooks e outros materiais. Entre os alvos estão Carlos Alberto Sicupira, acionista de referência da Americanas; Paulo Lemann, ex-conselheiro da companhia e filho de Jorge Paulo Lemann; Eduardo Saggioro, presidente do conselho; José Rudge, diretor do Itaú BBA; Gustavo Balassiano, ex-executivo do Itaú BBA; Carlos Pedras, diretor-executivo do Bradesco; André Juaçaba de Almeida, vice-presidente do Santander; e André Abdo, também ligado ao Santander.
A nova etapa ocorre após a conclusão da primeira fase das investigações, centrada na antiga diretoria da Americanas. No inquérito principal, a PF apontou que a varejista foi alvo de uma fraude bilionária conduzida por ex-executivos, sob comando do ex-CEO Miguel Gutierrez. Com base nessa apuração, o Ministério Público Federal denunciou 13 ex-dirigentes da companhia em março de 2025. A denúncia ainda não foi recebida pela Justiça, o que significa que não há réus no caso até o momento.
Após essa fase inicial, a PF abriu novas frentes para apurar se acionistas, representantes no conselho de administração, bancos e executivos financeiros tiveram participação ou conhecimento das irregularidades. O objetivo é aprofundar relatos colhidos em depoimentos e acordos de colaboração premiada de ex-diretores, que afirmaram aos investigadores que informações relevantes sobre a empresa eram repassadas a superiores.
No caso das instituições financeiras, a investigação analisa trocas de mensagens e e-mails que indicariam tentativas da Americanas de convencer executivos de bancos a omitir operações de risco sacado nas cartas de circularização enviadas a auditores. Esse tipo de documento é usado para confirmar informações financeiras de empresas auditadas.
Em uma mensagem de 2 de fevereiro de 2017, enviada em um grupo de WhatsApp chamado “Auditoria 2016”, Fabio Abrate, então diretor financeiro da Americanas, relatou tratativas com o Itaú. “Bom dia. Falei com Itaú agora novamente. Dois caras precisam aprovar. Um já aprovou e o outro não. Nosso gerente vai colocar os dois agora para se falarem. O que aprovou vai precisar convencer o que não aprovou”, escreveu.
De acordo com e-mails obtidos pelo Valor, a Americanas teria sugerido ao banco duas alternativas: excluir o risco sacado da carta de circularização ou manter o item no documento, mas enviar uma manifestação adicional afirmando que aquelas operações não se enquadravam como dívida segundo o entendimento da Comissão de Valores Mobiliários. Segundo a reportagem, pressão semelhante teria sido feita a outras instituições.
No caso do Itaú, o banco manteve a carta original, mas respondeu a um pedido complementar da Americanas sobre determinadas linhas de crédito, sem incluir o risco sacado. A primeira carta teria sido enviada em anexo no mesmo e-mail, mas não há informação sobre o que ocorreu depois com o documento.
A PF afirmou, em nota, que os investigados teriam “pleno conhecimento das fraudes contábeis praticadas ao longo dos anos” na companhia. A decisão judicial também determinou o sequestro de bens dos investigados até o limite de R$ 54 bilhões, valor citado pela perícia policial como estimativa das fraudes contábeis.
O montante gerou questionamentos entre advogados e pessoas próximas ao caso. A recuperação judicial da Americanas envolve dívidas concursais de R$ 42,5 bilhões, enquanto a própria companhia havia calculado a fraude em R$ 25 bilhões, valor usado como referência para o aumento de capital feito por acionistas e credores. “Não sei como chegaram a esse valor, não conseguimos entender essa conta”, disse um advogado de um dos investigados ao Valor.
A operação surpreendeu os alvos, que, segundo fontes ouvidas pela reportagem, esperavam ser chamados a depor, mas não previam a realização de buscas e apreensões. A medida também ocorre em um momento sensível para a Americanas, que tenta deixar a recuperação judicial.
Desde quinta-feira (25), a varejista buscou tranquilizar funcionários, parceiros e fornecedores. A empresa enviou comunicados internos para reforçar que não foi alvo dos mandados e que segue concentrada em sua fase de recuperação operacional. A comunicação com fornecedores também buscou preservar a confiança nas linhas de crédito e financiamento, consideradas importantes para a geração de receita.
Na sexta-feira (26), o tema voltou a ser tratado no canal interno da companhia, com esclarecimentos da área jurídica aos empregados. A Americanas pediu à Justiça do Rio de Janeiro, em 25 de março, o encerramento da recuperação judicial. A solicitação está sob análise do juiz Paulo Assed Estefan, da 4ª Vara Empresarial da Comarca do Rio.
O pedido foi apresentado dois anos após a homologação do plano de recuperação, dentro do prazo mínimo legal para que uma empresa nessa condição solicite a saída do processo. Há parecer favorável do administrador judicial, formado pelo escritório de Advocacia Zveiter e pela Preserva-Ação Administração Judicial, além de manifestação favorável do Ministério Público.
A nova fase da investigação, porém, pode aumentar a cautela do Judiciário diante de uma decisão considerada relevante para o futuro da companhia. “Tecnicamente, nada disso deveria importar, só que é inegável que a dose de cautela do magistrado tende a aumentar, por uma questão de prudência”, afirmou ao Valor um advogado especializado em recuperação judicial.
Do ponto de vista operacional, a Americanas apresentou melhora em seu último balanço, referente ao primeiro trimestre. A venda líquida cresceu 20%, para R$ 3 bilhões, enquanto o prejuízo recuou 34%, para R$ 329 milhões. A companhia informou dívida bruta de R$ 2,1 bilhões e caixa de R$ 1,7 bilhão, resultando em dívida líquida de R$ 347 milhões.
Após a ação da PF, os acionistas de referência divulgaram nota afirmando que foram surpreendidos pela operação. “As investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal ao longo dos últimos anos, inclusive com base em acordos de colaboração premiada, indicam que o conselho de administração e os acionistas de referência foram continuamente enganados e induzidos a erro pela antiga diretoria. Os acionistas de referência entendem que a operação integra o curso regular das apurações em andamento e reiteram seu compromisso de colaborar plenamente com as autoridades competentes para o esclarecimento dos fatos, como vêm fazendo desde 11 de janeiro de 2023, quando tiveram conhecimento das fraudes contábeis”, afirmaram.
O Itaú declarou que não é investigado e que colabora com as autoridades desde o início do caso. “As investigações oficiais já demonstraram que a varejista foi palco de uma das maiores fraudes corporativas do país. O banco, que sofreu perdas bilionárias com o episódio, já comprovou a lisura de sua conduta e da atuação de seus funcionários por meio de documentos apresentados à Justiça. Os registros deixam claro, por exemplo, que o Itaú recusou pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização de balanços”, informou a instituição.
O Santander afirmou que “está ao lado das partes prejudicadas na apuração das fraudes envolvendo a Americanas e segue colaborando com as autoridades competentes, como tem feito desde o início das apurações”. O banco também disse reiterar “seu compromisso com a ética, a transparência e o estrito cumprimento da regulamentação em suas operações”.
O Bradesco informou que “acompanha e está à disposição das autoridades”. A Americanas, por sua vez, declarou que não foi alvo de mandados de busca, que continuará colaborando com as investigações e que é a maior interessada no esclarecimento dos fatos.


