PF investiga bancos privados por suspeita de ocultar dívida da Americanas
Bancos privados entram no foco da Operação Disclosure, que apura fraude contábil bilionária na Americanas
247 - A Polícia Federal passou a apurar se executivos de bancos privados tiveram participação ou conhecimento em operações que teriam ajudado a ocultar a real dimensão da dívida da Americanas, no caso de fraude contábil que revelou um rombo bilionário nos balanços da varejista. A investigação avançou na segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada na quinta-feira (25), segundo Mirelle Pinheiro, do Metrópoles.
A nova etapa da apuração ampliou o foco para além da antiga diretoria da Americanas e mira representantes de instituições financeiras envolvidos em operações de risco sacado, mecanismo de crédito usado pela companhia para antecipar pagamentos a fornecedores. A suspeita investigada é se essas transações foram registradas de forma inadequada e contribuíram para reduzir artificialmente a percepção do endividamento da empresa.
Entre os alvos citados na investigação estão executivos ligados a bancos privados, além de Carlos Alberto Sicupira, um dos controladores da Americanas; Paulo Alberto Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann e ex-integrante do conselho de administração; Eduardo Saggioro, também ex-conselheiro da companhia; e Sérgio Rial, ex-CEO da Americanas.
Ao todo, a Polícia Federal cumpriu nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo. A 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro autorizou ainda o sequestro de bens e valores dos investigados até o limite de R$ 54 bilhões. O valor foi fixado com base em estimativas das supostas fraudes apontadas por laudos técnicos produzidos no curso da investigação.
Segundo os investigadores, as possíveis manipulações contábeis teriam ocorrido ao longo de vários anos e se concentrariam em dois eixos principais. O primeiro envolve as operações de risco sacado, que podem ter sido contabilizadas de maneira a esconder parte relevante do endividamento da varejista. O segundo diz respeito às chamadas verbas de propaganda cooperada, conhecidas pela sigla VPC, que teriam incluído registros de contratos sem lastro econômico efetivo.
A investigação ganhou novo impulso a partir de elementos reunidos desde 2024, incluindo a colaboração premiada do ex-diretor financeiro da Americanas, Fábio Abrate. Em depoimento ao Ministério Público Federal, ele afirmou que instituições financeiras retiravam informações sobre operações de risco sacado de documentos associados aos balanços da companhia.
Os bancos privados negam qualquer participação em irregularidades. A Americanas, por sua vez, informou em nota que não foi alvo das buscas realizadas na quinta-feira e afirmou que seguirá colaborando com as investigações.
O caso da Americanas veio à tona em janeiro de 2023, quando a companhia revelou inconsistências contábeis bilionárias em seus demonstrativos financeiros. Desde então, as apurações passaram a investigar responsabilidades de executivos, conselheiros, controladores e agentes externos que possam ter contribuído para a manutenção do esquema.



