Tony Garcia diz que deu à Lava Jato dados de Eduardo Cunha contra o PT
Ex-colaborador afirma ter abastecido investigações com informações obtidas junto ao ex-presidente da Câmara
247 - O ex-colaborador da 13ª Vara Federal de Curitiba Tony Garcia afirmou, em depoimento prestado à juíza Gabriela Hardt em março de 2021, que forneceu informações à força-tarefa da Lava Jato sobre esquemas envolvendo a Petrobras. Segundo ele, os dados teriam sido obtidos em conversas com o então deputado federal e ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. As informações são da jornalista Daniela Lima, do UOL.
No depoimento, Tony Garcia lista procuradores que atuaram na Lava Jato e sustenta que trabalhou de forma contínua com o Ministério Público por mais de uma década. “A todos a sra. pode perguntar. Eu trabalhei ininterruptamente até 2018, desde 2005. Eu trabalhei para o Ministério Público. Pelas minhas amizades e meus relacionamentos, eu levei ao Ministério Público informações que resultaram em várias condenações que o PT sofreu”, declarou.
Ao detalhar a dinâmica do repasse de dados, o ex-colaborador afirmou que as informações eram encaminhadas principalmente aos procuradores Januário Paludo e Carlos Fernando dos Santos Lima. “Condenações que o PT sofreu de várias informações que eu recebia e passava ao dr. Januário [Paludo] e ao dr. Carlos Fernando [dos Santos Lima], principalmente. E eu recebia de uma pessoa que era muito amiga minha e tinha um poder enorme, que era o deputado Eduardo Cunha”, disse.
Tony Garcia prestou o depoimento em um contexto de tensão com o Ministério Público Federal. Segundo relatou, ele se sentia ameaçado com a possível rescisão do acordo de colaboração premiada firmado em 2005 com o então juiz Sergio Moro, já transitado em julgado havia cerca de 15 anos. Em 2018, de acordo com seu relato, recebeu uma representação do MPF exigindo novas informações sobre um esquema em âmbito estadual, sob pena de distrato do acordo concluído mais de uma década antes.
Em declarações posteriores ao Supremo Tribunal Federal, Tony afirmou que, naquele momento, a força-tarefa buscava ampliar o conjunto de investigados para além do PT e passou a cobrar informações sobre o então governador do Paraná, Beto Richa, à época filiado ao PSDB. À juíza Gabriela Hardt, ele reforçou a proximidade com os procuradores: “Eles confiavam em mim”, afirmou, ao dizer que não ficava uma semana sem comparecer ao Ministério Público. Nesse trecho da audiência, Hardt ouviu o depoente sem formular perguntas, enquanto uma integrante do MPF acompanhou a sessão em silêncio.
Quando retomou a condução da oitiva, a juíza direcionou o foco para um caso envolvendo uma empresa que, em tese, mantinha relações com o ex-governador Beto Richa. Eduardo Cunha, citado reiteradamente por Tony, teve papel central no processo que levou ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e, após 2016, tornou-se alvo prioritário da Lava Jato, culminando na cassação de seu mandato parlamentar.
Procurado, o ex-procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, apontado por Tony como um dos principais destinatários das informações, não respondeu aos contatos. Já o ex-juiz Sergio Moro, também mencionado no depoimento, enviou nota negando envolvimento. “O senador desconhece o assunto e não tem qualquer envolvimento. A colaboração de Tony Garcia foi celebrada em 2004 com o MPF [Ministério Público Federal] e perdurou por dois anos, com gravações autorizadas judicialmente de suspeitos e com acompanhamento policial. Após o sentenciamento do caso, em 2006, com a concessão de benefícios, cessou qualquer colaboração do criminoso junto à 13 Vara. Não existe nenhuma relação desse caso de 2004-2006, no qual Eduardo Cunha não foi investigado, com o processo uma década depois movido pelo PGR contra o então deputado federal.”
O ex-presidente da Câmara confirmou que manteve contato com Tony Garcia durante o período em que comandava a Casa. “Conheci Tony Garcia na campanha do [Fernando] Collor, ainda no fim da década de 1980. Depois ele foi deputado estadual, tentou se eleger ao Senado e perdeu. Eu tinha, portanto, uma relação com ele”, afirmou Cunha. Sobre os contatos mais recentes, acrescentou: “Ele me procurou, sim, diversas vezes, no período em que eu estava como presidente da Câmara, buscando informação minha e aparentando ter informações sobre a Lava Jato. Hoje não tenho dúvida de que ele fazia um papel de leva e traz de informações”.
Tony Garcia é apontado como figura central em um inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal e apura suspeitas de abuso judicial na 13ª Vara Federal de Curitiba durante o período em que esteve sob a condução de Sergio Moro. O caso corre sob sigilo, sob relatoria do ministro Dias Toffoli, e envolve a análise de documentos e vídeos encontrados pela Polícia Federal na vara onde a Lava Jato tramitou, após o descumprimento de ordens de remessa desse material ao Supremo por juízes que sucederam Moro.

