Transportadora foi o elo central que enquadrou Deolane como operadora do PCC
De acordo com os investigadores, a transportadora movimentou mais de R$ 20 milhões em três anos
247 - A prisão da influenciadora e advogada Deolane Bezerra trouxe à tona, segundo o Ministério Público de São Paulo e a Polícia Civil, uma investigação sobre um suposto esquema de lavagem de dinheiro vinculado ao núcleo familiar de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder do Primeiro Comando da Capital, o PCC. As informações são do jornal O Globo.
A operação, batizada de Vérnix, mirou uma estrutura que, de acordo com os investigadores, teria usado uma transportadora do interior paulista para movimentar valores associados ao tráfico de drogas e inseri-los no sistema financeiro formal por meio de empresas, depósitos fracionados e contas de terceiros.
A Justiça expediu seis mandados de prisão preventiva no caso. Além de Deolane, foram alvos Marcola, o irmão dele, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, os sobrinhos Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, e Everton de Souza, apontado como operador financeiro do grupo investigado.
Marcola e Alejandro já estavam presos em unidades federais. Deolane e Everton foram detidos durante a operação. Paloma e Leonardo são considerados foragidos. Segundo a investigação, ela estaria na Espanha, enquanto ele estaria na Bolívia. Os dois tiveram os nomes incluídos na Lista de Difusão Vermelha da Interpol.
As apurações tiveram início em 2019, depois da apreensão de bilhetes manuscritos na Penitenciária II de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. O material, segundo os investigadores, continha ordens internas da facção, menções a movimentações financeiras e referências a possíveis ataques contra servidores públicos.
A partir desses documentos, a investigação chegou à Lopes Lemos Transportes, também conhecida como Lado a Lado Transportes. Para o Ministério Público, a empresa teria atuado como um braço financeiro da cúpula do PCC.
De acordo com os investigadores, a transportadora movimentou mais de R$ 20 milhões em três anos. No mesmo período, foi identificada uma incompatibilidade de R$ 6,9 milhões entre as receitas declaradas e os valores que passaram pelas contas bancárias da empresa, ponto tratado como indício de lavagem de dinheiro.
Mesmo presos no sistema penitenciário federal, Marcola e Alejandro seguiriam, segundo a polícia, com influência sobre a estrutura financeira investigada. A apuração afirma que Alejandro determinava a compra de caminhões, a divisão dos lucros e a circulação dos recursos.
Paloma, filha de Alejandro, é apontada como responsável por repassar ordens do pai após visitas ao presídio federal. Mensagens interceptadas pela investigação indicariam orientações sobre a distribuição de valores. Leonardo, por sua vez, apareceria como beneficiário direto de parte do dinheiro movimentado.
Nas contas de Leonardo, a polícia identificou cerca de R$ 746 mil em movimentações. Parte dos valores teria entrado por meio de depósitos em espécie sem origem identificada.
Outro nome considerado central pelos investigadores é Everton de Souza, conhecido como “Player”. Ele é apontado como responsável por coordenar a distribuição do dinheiro e indicar contas que receberiam os recursos.
A ligação com Deolane teria sido identificada em 2021, durante a Operação Lado a Lado. Na ocasião, a polícia apreendeu o celular de Ciro Cesar Lemos, sócio da transportadora e apontado como operador central do esquema. No aparelho, foram encontrados comprovantes de depósitos destinados a contas ligadas à influenciadora e a Everton.
Segundo o inquérito, entre 2018 e 2021, Deolane recebeu R$ 1.067.505 em depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil. A prática é conhecida como “smurfing” e, conforme a investigação, pode ser usada para dificultar o rastreamento de movimentações financeiras.
Além desses valores, cerca de 50 depósitos feitos em empresas ligadas à influenciadora somaram aproximadamente R$ 716 mil. Os investigadores afirmam não ter localizado contratos ou prestação de serviços advocatícios que justificassem os repasses.
Para a polícia, a projeção pública de Deolane e sua estrutura empresarial funcionariam como “camadas de aparente legalidade” para ocultar recursos ilícitos. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 27 milhões em bens da influenciadora.
No conjunto dos demais investigados, o bloqueio de ativos ultrapassa R$ 357 milhões. A operação também resultou na apreensão de carros de luxo e joias.
Entre os veículos recolhidos estavam modelos das marcas Cadillac, Mercedes, Jeep e Range Rover. Um Cadillac Escalade apreendido, segundo a reportagem, pode custar até R$ 2 milhões no Brasil.
Deolane ganhou projeção nacional após a morte do então marido, o funkeiro MC Kevin, em 2021. Desde então, acumulou mais de 21 milhões de seguidores nas redes sociais e passou a associar sua imagem pública a ostentação, apostas on-line e itens de luxo.
Horas antes da prisão, a influenciadora apareceu nas redes sociais com uma bolsa Chanel avaliada em mais de R$ 300 mil. Ao chegar presa à sede da Polícia Civil, usava um suéter da marca Polo Ralph Lauren vendido por cerca de R$ 5 mil.
Segundo o promotor Lincoln Gakiya, a operação contou com cooperação internacional entre autoridades brasileiras, italianas e espanholas. O objetivo, de acordo com a investigação, foi evitar vazamentos e impedir fugas de alvos no exterior.
Deolane havia retornado ao Brasil um dia antes da deflagração da operação, depois de passar semanas em Roma. A defesa da influenciadora não comentou as acusações.



