Guimarães Rosa e a travessia eterna do Brasil profundo
Aos 118 anos de seu nascimento, o autor de “Grande Sertão: Veredas” permanece como uma das vozes mais universais da literatura brasileira
247 – João Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais, mas sua obra parece escapar ao tempo cronológico. Poucos escritores brasileiros foram capazes de criar um universo literário tão profundamente enraizado no território nacional e, ao mesmo tempo, tão aberto às grandes questões universais da existência. Médico, diplomata, poliglota e escritor de invenção radical, Rosa fez da língua portuguesa uma matéria viva, maleável, incandescente. Em suas mãos, o idioma deixou de ser apenas instrumento de comunicação para se tornar experiência, paisagem, música, pensamento e revelação.
Sua importância atemporal está justamente nessa capacidade rara de unir o particular e o universal. O sertão rosiano é, ao mesmo tempo, o interior do Brasil e o interior do ser humano. É geografia e alma. É chão de veredas, jagunços, rios, pactos, mortes e amores, mas também espaço de dúvida moral, de busca espiritual, de espanto diante do mundo. Ao escrever sobre personagens aparentemente distantes dos grandes centros urbanos, Rosa não os reduziu ao folclore ou à caricatura regionalista. Ao contrário: conferiu a eles uma densidade filosófica comparável à dos grandes protagonistas da literatura mundial.
Em “Grande Sertão: Veredas”, publicado em 1956, essa força atinge seu ponto máximo. O romance é uma das obras mais ambiciosas e complexas da literatura em língua portuguesa. Narrado por Riobaldo, ex-jagunço que rememora sua vida diante de um interlocutor silencioso, o livro é uma longa travessia verbal. Mais do que contar uma história, Riobaldo pensa em voz alta. Interroga o passado, tenta compreender o mal, revisita o amor por Diadorim, questiona a existência do diabo e busca sentido para uma vida marcada por guerra, desejo, culpa, coragem e perda.
A grandeza de “Grande Sertão: Veredas” está em não oferecer respostas simples. O romance é uma máquina de perguntas. “O diabo existe?”; “o bem e o mal são forças separadas ou convivem dentro do mesmo ser?”; “o destino conduz os homens ou são os homens que fazem seus caminhos?”; “o amor pode sobreviver ao segredo?”; “a linguagem é capaz de dar conta da vida?” Essas questões atravessam o livro e o tornam inesgotável. A cada leitura, “Grande Sertão” parece outro, porque o próprio leitor também mudou. É essa uma das marcas das obras-primas: elas não envelhecem, acompanham o envelhecimento de quem as lê.
O sertão como mundo
Ao afirmar que “o sertão está em toda parte”, Guimarães Rosa ofereceu uma das chaves mais poderosas para a compreensão de sua obra. O sertão não é apenas um lugar no mapa. É uma condição. Pode estar nos Gerais de Minas, nas margens do São Francisco, nas disputas entre bandos de jagunços, mas também nas zonas de incerteza da alma humana. O sertão é o espaço da travessia, palavra central em Rosa. Viver é atravessar. Amar é atravessar. Narrar é atravessar. Pensar é atravessar.
Essa concepção amplia o alcance de sua literatura. Rosa não escreveu apenas sobre uma região. Escreveu sobre a humanidade a partir de uma região. É por isso que sua obra pode dialogar com Homero, Dante, Shakespeare, Cervantes, Dostoiévski, Joyce, Faulkner e tantos outros nomes centrais da literatura universal. Como eles, Rosa compreendeu que a grande literatura nasce quando uma experiência local é elevada à dimensão mítica, simbólica e filosófica.
No caso de “Grande Sertão: Veredas”, o jagunço Riobaldo é também guerreiro, filósofo, pecador, amante, narrador e sobrevivente. Sua fala carrega o pó da estrada, a violência dos combates, a delicadeza da lembrança e a vertigem metafísica. Ele não é um personagem simples; é um homem tentando decifrar a própria vida. E, ao fazê-lo, decifra também parte do Brasil.
A reinvenção da língua portuguesa
Outro aspecto decisivo da importância de Guimarães Rosa é sua revolução linguística. Rosa não se limitou a reproduzir a fala sertaneja. Ele a recriou. Misturou oralidade popular, arcaísmos, neologismos, vocábulos regionais, estruturas poéticas, referências eruditas e intuições sonoras. Sua língua é inventada e, ao mesmo tempo, profundamente verdadeira. Parece nascer da boca do povo, mas passa pelo laboratório de um escritor de consciência extrema.
Essa operação transformou a literatura brasileira. Depois de Rosa, tornou-se impossível pensar o português literário da mesma forma. Ele demonstrou que a língua não é um sistema fechado, mas um campo de possibilidades. Em sua obra, as palavras se expandem, se dobram, se fundem, ganham novas camadas de sentido. O leitor não apenas acompanha a narrativa; ele precisa entrar no ritmo da linguagem, aceitar seus desvios, suas surpresas, seus encantamentos.
Em “Grande Sertão: Veredas”, a forma é inseparável do conteúdo. O livro não poderia ser escrito em uma linguagem neutra, convencional ou transparente. A turbulência da frase rosiana expressa a turbulência da memória de Riobaldo. Os volteios da fala correspondem aos volteios da consciência. As invenções verbais reproduzem a dificuldade de nomear o que é contraditório, ambíguo, indizível. Rosa cria uma linguagem à altura do mistério humano.
Riobaldo, Diadorim e o amor impossível
Entre os muitos elementos que fazem de “Grande Sertão: Veredas” uma obra inesgotável, a relação entre Riobaldo e Diadorim ocupa lugar central. Trata-se de um dos vínculos mais intensos, delicados e perturbadores da literatura brasileira. Riobaldo ama Diadorim, mas esse amor é atravessado por segredo, repressão, violência e impossibilidade. A revelação final do romance não encerra a questão; ao contrário, reabre toda a narrativa sob nova luz.
Diadorim é uma das grandes criações de Guimarães Rosa. Personagem de coragem extrema, mistério e beleza trágica, carrega em si a tensão entre aparência e essência, destino e escolha, identidade e ocultamento. Sua presença reorganiza toda a memória de Riobaldo. É em torno de Diadorim que o narrador experimenta suas maiores inquietações afetivas e existenciais.
O amor, em Rosa, não aparece como sentimentalismo fácil. Ele é força de transformação e sofrimento. É revelação e perda. Em “Grande Sertão”, amar é também não compreender plenamente. Riobaldo passa a vida tentando nomear aquilo que viveu. E talvez seja justamente essa impossibilidade de nomear que dá ao romance sua força emocional mais profunda.
O bem, o mal e o pacto
Outro eixo fundamental do romance é a pergunta sobre o mal. Riobaldo acredita, ou teme acreditar, que fez um pacto com o diabo. A dúvida percorre todo o livro. O pacto aconteceu? Foi real? Foi imaginação? O diabo existe como entidade externa ou como potência interna do próprio homem? Rosa nunca fecha a questão. E essa abertura é decisiva.
Ao não resolver o enigma, o romance se aproxima das grandes obras filosóficas e religiosas da humanidade. Riobaldo não busca apenas narrar aventuras de jagunçagem. Ele tenta compreender se seus atos foram fruto de escolha, destino, tentação ou necessidade. Quer saber se foi culpado. Quer saber se o mal tem substância própria. Quer saber se Deus se manifesta no mundo ou se o mundo é apenas confusão.
A resposta de Rosa não é doutrinária. É literária. O mal aparece misturado à vida, às decisões, às ambiguidades humanas. O sertão é o território onde “viver é muito perigoso”, frase que sintetiza uma ética da incerteza. Perigoso não apenas pela violência física, mas porque cada escolha pode alterar o rumo da alma.
O Brasil profundo sem exotismo
Guimarães Rosa também é essencial porque ofereceu ao Brasil uma imagem de si mesmo sem simplificação. Seu sertão não é pitoresco, nem atrasado, nem meramente exótico. É complexo, sofisticado, cheio de códigos, afetos, saberes, violências, espiritualidades e formas próprias de pensamento. Rosa revelou que a cultura popular brasileira não é matéria inferior a ser “traduzida” pela cultura letrada, mas fonte de alta elaboração estética e filosófica.
Nesse sentido, sua obra tem dimensão política, ainda que não seja panfletária. Ao colocar jagunços, vaqueiros, mulheres sertanejas, crianças, loucos, beatos e andarilhos no centro da grande literatura, Rosa deslocou o eixo do prestígio cultural. Mostrou que a inteligência brasileira não está apenas nas academias, nas capitais ou nos salões. Está também nas falas quebradas, nos causos, nos provérbios, nas crenças, nos silêncios e nos modos de vida do interior.
Rosa ouviu profundamente o Brasil. Mas não se limitou a registrar. Transfigurou. Fez da escuta uma criação artística de alcance universal.
Uma obra que resiste ao tempo
A permanência de Guimarães Rosa se explica porque sua obra não depende de modismos. Ela atravessa gerações porque fala de temas que não se esgotam: amor, morte, destino, linguagem, culpa, coragem, medo, transcendência, memória, violência, amizade, identidade e liberdade. Cada época encontra em Rosa novas perguntas.
Em tempos de empobrecimento da linguagem pública, sua obra lembra que as palavras importam. Em tempos de simplificações brutais, mostra que o ser humano é feito de contradições. Em tempos de polarizações estreitas, ensina que a realidade é sempre mais ambígua do que os discursos que tentam aprisioná-la. Em tempos de desenraizamento, afirma a força de uma cultura profundamente ligada ao território. Em tempos de pressa, exige leitura lenta, escuta, atenção.
Ler Rosa é reaprender a ler. É aceitar que a literatura não serve apenas para informar ou entreter, mas para modificar nossa percepção do mundo. “Grande Sertão: Veredas” não é um livro que se consome; é um livro que se atravessa. E, como toda travessia verdadeira, deixa marcas.
O escritor brasileiro mais universal
Há muitos caminhos para medir a grandeza de um escritor. Pode-se falar de influência, inovação formal, densidade temática, recepção crítica ou permanência histórica. Em todos esses critérios, Guimarães Rosa ocupa um lugar singular. Mas talvez sua maior conquista tenha sido provar que o Brasil profundo poderia produzir uma das linguagens literárias mais sofisticadas do século XX.
Rosa não imitou modelos estrangeiros, embora dialogasse com muitos deles. Sua modernidade nasceu do mergulho no próprio país. Ele foi universal porque foi radicalmente brasileiro. Não buscou apagar o sotaque do sertão para alcançar o mundo; fez do sertão uma língua capaz de falar ao mundo.
“Grande Sertão: Veredas” permanece como um monumento da literatura brasileira não por ser um livro fácil, mas por ser necessário. Ele exige do leitor esforço, disponibilidade e entrega. Em troca, oferece uma experiência rara: a sensação de que a língua ainda pode criar mundos, de que a vida ainda guarda mistérios, de que o Brasil ainda precisa ser ouvido em sua profundidade.
Aos 118 anos do nascimento de Guimarães Rosa, sua obra continua a nos interpelar. Riobaldo segue falando. Diadorim segue assombrando. O sertão segue se abrindo em veredas. E a travessia, como sempre em Rosa, permanece.



