Lula "de carne e osso", diz Fernando Morais, sobre biografia do presidente
Escritor falou na Feira do Livro sobre a biografia de Lula e os desafios de narrar um personagem vivo
247 - O escritor Fernando Morais defendeu, na Feira do Livro, em São Paulo, que sua trilogia sobre o presidente Lula (PT) busca apresentá-lo como um personagem vivo, complexo e humano, distante de qualquer imagem idealizada, ao tratar da biografia e dos desafios de narrar um personagem vivo.
Autor de obras biográficas sobre nomes como Olga Benário Prestes, Assis Chateaubriand e Paulo Coelho, Morais participou no sábado (6) da última mesa do dia do evento. No encontro, o escritor falou sobre política, literatura, memória e os bastidores da relação que mantém com Lula desde os anos 1970.
Questionado sobre por que nunca escreveu uma biografia de Tancredo Neves, a quem conheceu de perto, Morais afirmou que o ex-presidente eleito não lhe parecia literariamente tão instigante quanto Lula. “Com todo o respeito, ele é um personagem muito linear, um personagem muito previsível. O Lula, não. Lula é um personagem que vem mudando, ele brinca, faz piada sobre ele próprio com o negócio da metamorfose ambulante”, disse.
A fala serviu como ponto de partida para uma reflexão sobre o tipo de personagem que atrai o interesse do biógrafo. Para Morais, Lula reúne contradições, mudanças e episódios capazes de sustentar uma narrativa de longa duração. O segundo volume da trilogia dedicada ao presidente foi lançado neste ano pela Companhia das Letras.
Morais também foi questionado sobre o equilíbrio necessário para escrever a biografia de alguém próximo. A dúvida era se ele conseguiu manter distância crítica em relação a Lula, a quem considera amigo, sem transformar a obra em homenagem ou julgamento pessoal.
Morais respondeu mencionando uma máxima atribuída ao escritor Ruy Castro, também seu amigo. “O Ruy Castro diz que não escreve sobre gente viva. Para ele, o personagem tem que estar morto e, de preferência, sem descendentes".
Apesar da proximidade com Lula, Morais afirmou que escrever sobre alguém vivo oferece vantagens narrativas importantes. Segundo ele, sua intenção foi mostrar “o personagem como ele é, de carne e osso”, com suas “grandezas e misérias de um ser humano”.
O escritor rejeitou a ideia de construir uma imagem monumental do presidente. “Não é um Lula de bronze, montado num cavalo, que está no meio de uma praça com um pombo fazendo cocô na cabeça dele. É um Lula que faz besteira, comete erros".
Ao longo de mais de uma hora, Morais compartilhou histórias pessoais e políticas sobre o presidente. Ele relembrou que conhece Lula desde os anos 1970 e que participou, como deputado, das greves do ABC, movimento que projetou nacionalmente o então líder sindical.
O biógrafo também contou que foi contrário à criação do Partido dos Trabalhadores. Na época, defendia que uma nova legenda de esquerda poderia prejudicar a formação de uma frente ampla contra a ditadura. Anos depois, reconheceu que sua avaliação estava equivocada. “A história acabou provando que Lula tinha razão, e eu, não".
A ideia de escrever sobre Lula surgiu depois de três derrotas eleitorais e da chegada do ex-operário à Presidência. Morais viu ali uma narrativa poderosa para um repórter: a trajetória de alguém que, segundo ele, comeu o primeiro pedaço de pão aos sete anos e chegou ao comando do país.
A proposta, porém, não foi aceita de imediato. “Mas ele pulou fora”, disse Morais, ao lembrar a primeira recusa de Lula. O escritor contou ainda que passou a tratar o amigo por “senhor” depois que ele se tornou presidente.
A mudança de posição veio anos mais tarde, após o encerramento do segundo mandato de Lula. Segundo Morais, o presidente o convidou para um café da manhã, abrindo caminho para o projeto biográfico que se transformaria em trilogia.
Entre os bastidores relatados ao público, o escritor destacou que os melhores momentos para entrevistar Lula ocorriam durante viagens de avião, especialmente em voos longos para a Ásia. A ausência de interrupções criava, segundo ele, um ambiente raro para conversas extensas.
“Naquela época não se conseguia falar por telefone no avião”, afirmou. Morais disse que, nessas circunstâncias, não havia interferência de deputados, assessores ou bajuladores, o que lhe permitia conversar diretamente com seu biografado por longos períodos.
O autor resumiu a experiência com uma observação sobre o ritmo de Lula durante as viagens. “Ele dorme pouco e fala muito".
A participação de Fernando Morais na Feira do Livro reforçou o tom de bastidor político e literário que marca sua obra sobre Lula. Entre lembranças pessoais, avaliações históricas e reflexões sobre o ofício de biógrafo, o escritor apresentou ao público a defesa de uma biografia que busca narrar o presidente sem estátua, sem caricatura e sem apagar as contradições de sua trajetória.



