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Livro resgata legado da revolucionária Alexina Crêspo, mulher de Francisco Julião

Obra organizada por Raul Calle de Paula reúne poemas, cartas e documentos da revolucionária pernambucana

Capa do livro Os poemas de Apolo e outros escritos; Alexina, Francisco Julião e filhas (Foto: Capa do livro Os poemas de Apolo e outros escritos/Divulgação/Cepe/Alexina, Francisco Julião e Filhas/Divulgação/Acervo Familiar)
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247 - A trajetória da pernambucana Alexina Crêspo (1926-2013), militante revolucionária, escritora e uma das protagonistas das Ligas Camponesas, ganha novo destaque com o lançamento de Os poemas de Apolo e outros escritos, publicação da Cepe Editora que marca o centenário de nascimento da autora. O lançamento acontece nesta terça-feira (30), às 19h30, no hall do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), em Casa Forte, no Recife.

A obra foi organizada por Raul Calle de Paula, bisneto de Alexina, que reuniu parte da produção literária inédita da autora. O livro também integra a programação especial promovida pela Fundaj em homenagem aos 100 anos da militante, cuja contribuição política e intelectual permaneceu durante décadas em segundo plano, muitas vezes restrita à condição de esposa do advogado e líder das Ligas Camponesas Francisco Julião.

Protagonista além da história de Francisco Julião

Embora frequentemente lembrada pela relação com Julião, com quem teve quatro filhos, Alexina Crêspo desempenhou papel decisivo na organização das Ligas Camponesas. Atuou na manutenção da comunicação internacional do movimento de trabalhadores rurais e, antes disso, participou das atividades políticas do Partido Comunista Brasileiro (PCB) no meio urbano.

Além da intensa militância, cultivou a literatura como forma de reflexão sobre a política, o exílio, a memória e a esperança. Parte dessa produção permaneceu inédita durante décadas e agora chega ao público pela primeira vez.

Segundo Raul Calle de Paula, o projeto nasceu tanto da importância histórica da bisavó quanto do desejo de reparar um apagamento de sua trajetória.

"O que me motivou a produzir o livro foi tanto a dimensão quanto o esquecimento sobre a vida e a obra dela, além, claro, do afeto pessoal. Ela foi uma mulher imensa, com uma biografia e uma produção independentes de Francisco Julião", afirma o organizador.

Escritos recuperados após décadas

Com 124 páginas, a publicação reúne 34 textos produzidos entre as décadas de 1980 e 2000, período posterior ao retorno de Alexina ao Brasil, além de 22 reproduções de fotografias, documentos e recortes de jornais.

"O que conseguimos resgatar de sua voz, uma vez que grande parte do que escreveu acabou perdendo-se em razão das vicissitudes políticas que envolveram sua existência", explica Raul Calle de Paula.

A abertura do livro traz Carta para Aurora, correspondência escrita para sua mãe, Aurora Florida de Souza Lins. O texto jamais chegou à destinatária e é definido pelo organizador como um verdadeiro manifesto da saudade.

"Minha mãe querida! Aqui estamos nós conversando. Sim, porque as cartas são conversas silenciosas. Lendo-as estamos ouvindo a voz das palavras escritas e sentindo a alegria ou a dor do que dizem em silêncio", escreveu Alexina.

A experiência do exílio

A produção reunida no livro é atravessada pela experiência do exílio vivida pela autora e sua família após o golpe militar de 1964.

Alexina estava em Cuba para acompanhar o casamento de uma das filhas quando ocorreu a ruptura democrática no Brasil. Impedida de retornar, permaneceu na ilha até 1970. Em seguida, mudou-se para o Chile durante o governo de Salvador Allende. Após o golpe que derrubou o presidente chileno em 1973, exilou-se novamente, desta vez na Suécia, onde permaneceu até regressar ao Brasil em 1980.

Essas experiências aparecem de forma recorrente em sua produção literária, marcada por reflexões sobre a liberdade, o tempo, a memória e a esperança.

Poesia entre a resistência e a esperança

Os escritos estão organizados em quatro partes. A primeira reúne os dez Poemas de Apolo, produzidos em 1984, entre eles Pontes, Tempestade, Insônia e Revolução.

No poema Insônia, a autora escreve: "Com os olhos abertos, fitando o silêncio, cobri-me de desejos, de sonhos, de esperanças... E a insônia não me deixou mais dormir..."

Já os poemas produzidos entre 2007 e 2009 revelam uma reflexão mais profunda sobre a passagem do tempo e a finitude. "Se eu tivesse tido mais tempo, deitaria à sombra de uma árvore para ouvir o choro baixinho do rio levando um passarinho ferido."

Uma voz redescoberta

No prefácio da obra, a poeta Cida Pedrosa destaca a potência literária dos escritos de Alexina Crêspo e a capacidade da autora de transformar experiências marcadas pelo exílio em uma poesia profundamente humanista.

"Debruçar-se sobre os escritos dessa autora é um deleite. Você encontra a coragem em cada página, a liberdade em cada linha, o pulso em cada palavra", escreve.

Para Cida, apesar das adversidades enfrentadas pela militante, seus textos não se rendem ao pessimismo.

"Mesmo quando a melancolia pulsa, o que ela nos entrega é uma confiança inabalável na formação de um tempo novo", afirma.

Serviço:

Lançamento: Os poemas de Apolo e outros escritos

Data: 30 de junho

Horário: 19h30

Local: Hall do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj)

Endereço: Avenida Dezessete de Agosto, 2.187, Casa Forte, Recife (PE)

Editora: Cepe Editora

Preço: R$ 60 (edição impressa)

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