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Mostra no CCBB do Rio reúne 170 obras de 11 fotógrafas do Pará em “Vetores-vertentes”

Exposição traz imagens, vídeos, instalações e experiências imersivas para destacar cinco décadas de produção feminina na fotografia paraense

Exposição traz imagens, vídeos, instalações e experiências imersivas para destacar cinco décadas de produção feminina na fotografia paraense. Foto: Leila Jinkings (Foto: Leila Jinkings/Divulgação)

247 - A exposição “Vetores-vertentes: Fotógrafas do Pará” chega ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro e será aberta ao público nesta quarta-feira (11), reunindo um amplo panorama da produção de 11 fotógrafas paraenses, com obras que atravessam desde a década de 1970 até a contemporaneidade.

A mostra já passou pelas unidades do CCBB em São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, e agora ocupa o segundo andar e parte do térreo da instituição carioca, apresentando um conjunto expressivo de 170 obras que extrapolam a fotografia tradicional e incorporam linguagens como vídeos, instalações, fotocolagens, fotonovelas e experiências imersivas, informa o jornal O Globo.

A coletiva foi idealizada pelo Museu das Mulheres, projeto sediado em Brasília, e tem curadoria de Sissa Aneleh, professora e historiadora da arte, que também dirige a iniciativa. A proposta da exposição nasceu a partir do doutorado em Artes Visuais defendido pela curadora em 2018, na Universidade de Brasília (UnB), trazendo um recorte de um universo mais amplo de artistas que atuam na região há cerca de cinco décadas.

Ao contextualizar a relevância histórica do Pará na produção cultural do Norte do país, Sissa destaca que o ambiente artístico de Belém se consolidou fortemente nas últimas décadas, mas nem sempre garantiu o mesmo espaço às mulheres que participaram desse processo. “Há uns 50 anos, os artistas fomentaram o cena em Belém do Pará, muita gente se destacou na fotografia, nas artes visuais, instituições e galerias surgiram, e a cidade virou um polo cultural do Norte. Na época, muitas dessas pioneiras não tiveram o mesmo reconhecimento dos artistas homens, mas foram uma referência para as gerações de profissionais mulheres que vieram depois”, afirma.

A curadora também aponta que essas artistas desenvolveram uma abordagem própria sobre as vivências amazônicas, atravessadas por questões de gênero, identidade e pertencimento. “Elas desenvolveram um olhar sobre esse universo feminino amazônico, abordando identidades, território, memória”, acrescenta Sissa Aneleh. A exposição reúne trabalhos de nomes como Deia Lima, Evna Moura, Bárbara Freire, Cláudia Leão, Walda Marques, Jacy Santos, Nailana Thiely, Nay Jinknss, Leila Jinkings e Paula Sampaio, compondo um mosaico que conecta diferentes gerações e linguagens visuais.

Entre os destaques está a trajetória de Leila Jinkings, considerada uma das pioneiras desde os anos 1970. Sua produção começou no contexto do movimento estudantil e, ao longo do tempo, passou a registrar tensões políticas e sociais na Amazônia, incluindo conflitos em áreas de garimpo e em comunidades indígenas. Relembrando esse período, ela relata o impacto e os riscos enfrentados durante suas coberturas. “Tudo o que eu queria era viajar e mostrar o que estava acontecendo. Estive em Tucuruí, durante os protestos pela construção da barragem, cobri as eleições de 1982 numa época de muita vioência, tínhamos medo real de morrer. Só não consegui entrar em Serra Pelada porque fui proibida”, diz.

Já representando gerações mais recentes, a fotógrafa Renata Aguiar apresenta no CCBB trabalhos ligados a sua pesquisa sobre temas como corpo-território, ritualidade e autobiografia, incluindo as fotoperformances da série “Ykamiabas”. Sua trajetória inclui experiências em arte-educação e reflexões críticas sobre a fotografia e suas relações com a representação do outro.

Renata conta que uma de suas vivências mais marcantes ocorreu no sistema prisional feminino do Pará. “Fiz um trabalho de arte-educação no Centro de Reeducação Feminino em Ananindeua, na época o único presídio de mulheres do Pará. Trabalhava a partir da perspectiva de auto-representação no retrato, já me incomodava a ideia da fotografia como esse aparelho de captura colonial da imagem do outro”, afirma.

Ela também relata que sua atuação transitou pela fotografia documental, passando por trabalhos com povos indígenas e experiências internacionais, até que uma mudança decisiva aconteceu durante sua formação acadêmica. “Continuei na fotografia documental, trabalhando com indígenas pela Funai, viajei para Índia com uma ONG. Mas em 2013, no mestrado, comecei entrar em contato com a ideia do autorretrato e da autorrepresentação. Foi a semente para se tornaro que faço hoje em performance para fotografia”, completa.Com um recorte que atravessa décadas e estéticas diversas, “Vetores-vertentes: Fotógrafas do Pará” propõe não apenas um percurso artístico, mas também um olhar ampliado sobre a presença feminina na produção visual amazônica, evidenciando trajetórias que ajudaram a consolidar a fotografia como linguagem cultural e política na região Norte.