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“BC está exagerando na dose com os juros atuais”, diz Roberto Gianetti

Fundador do PSDB, economista defende que os cortes comecem já na reunião do Copom nesta semana

Roberto Gianetti (Foto: Divulgação)

247 - O economista Roberto Giannetti da Fonseca avalia que a política monetária brasileira atravessa um momento de excesso de rigor, com efeitos diretos sobre o nível de investimento, o crescimento econômico e a concentração de renda. Em uma análise ampla sobre juros, inflação, política fiscal e cenário internacional, ele defende mudanças graduais na condução econômica e faz críticas diretas à atual gestão do Banco Central.

As declarações foram dadas em entrevista ao site Brazil Economy, na qual Giannetti analisou desde a taxa Selic até as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, além de comentar o papel do PSDB, do PT e os rumos da social-democracia no país.

Formado em economia pela Universidade de São Paulo (USP) no início da década de 1970, Roberto Giannetti construiu trajetória destacada no setor público e empresarial. Foi presidente da Cotia Trading, secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex) durante o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e presidente da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). Atualmente, atua como head do LEAD Comércio Exterior, empresa ligada ao grupo comandado por João Dória.

Selic e política monetária

Ao ser questionado sobre o atual patamar da taxa básica de juros, Giannetti afirmou: “Não tem qualquer sentido em se manter neste patamar.” Para ele, o Comitê de Política Monetária deveria iniciar um ciclo de cortes graduais, com reduções entre 0,25 e 0,5 ponto percentual por reunião.

Segundo o economista, “a reunião desta semana tem que dar início a um processo gradual de cortes que até o fim do ano a coloque em cerca de 12% em termos nominais e 6 ou 7% em termos reais.” Ele avalia que juros elevados desestimulam investimentos produtivos e reduzem o ânimo do setor empresarial. Giannetti também observou que o contexto eleitoral pode pressionar por mudanças: “Acredito que a taxa deve baixar principalmente por ser ano eleitoral, caso o governo tenha alguma intenção de causar um impacto positivo na economia para melhorar sua popularidade.”

Meta de inflação e críticas ao Banco Central

Na avaliação de Giannetti, a atual meta de inflação de 3% impõe custos excessivos à economia. “Temos que rever a meta de inflação de 3% que é altamente excessiva e rigorosa no Brasil”, afirmou. Ele lembrou que, até o governo do presidente Michel Temer, a meta era de 4% e defendeu o retorno a esse patamar, com banda de 2%.

O economista também destacou que previsões pessimistas feitas por agentes financeiros não se confirmaram. “No começo do ano passado os agentes financeiros diziam que o câmbio e a inflação iam disparar, mas ocorreu o contrário”, disse, acrescentando que esse cenário daria margem para cortes nos juros.

Ao comentar o embate entre o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Giannetti reconheceu a importância da autonomia da autoridade monetária, mas fez ressalvas: “Os Bancos Centrais têm que ser independentes, mas as análises devem ser técnicas e quando não se resolve o problema precisam ser criticados.”

Ele foi ainda mais direto ao afirmar: “No Brasil, o BC está exagerando na dose com esses juros atuais. Isso evita a cura da doença e pode até matar o paciente.” Segundo Giannetti, cada aumento de 1 ponto percentual nos juros gera um custo adicional de R$ 40 bilhões por ano ao setor público, beneficiando rentistas e ampliando a concentração de renda.

Arcabouço fiscal e dívida pública

Giannetti avaliou que o arcabouço fiscal criado após a revogação do teto de gastos tinha como objetivo conter despesas, mas perdeu credibilidade diante do número de exceções. “Ele teve por finalidade colocar uma restrição na área de despesas do governo, mas tem sido tão grande o número de exceções abertas no arcabouço que ele perdeu a credibilidade”, afirmou.

Apesar do crescimento da dívida pública no terceiro mandato de Lula, o economista rejeitou visões alarmistas. “Isso é uma teoria do pânico que eu não concordo de maneira alguma”, disse. Para ele, a dívida brasileira não se tornará impagável, especialmente porque parte dela está lastreada em reservas internacionais.

Giannetti defendeu que o foco esteja no crescimento econômico: “Temos que ter mais crescimento econômico, já que com maior PIB o Estado arrecada mais.”

Tarifas dos Estados Unidos e comércio internacional

Ao comentar as tarifas impostas ao Brasil pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 2025, Giannetti classificou a medida como inaceitável. “As tarifas foram totalmente inaceitáveis da forma como foram feitas, desprezando todas as regras do comércio internacional”, afirmou.

Ele avaliou, no entanto, que o Brasil conseguiu resultados positivos nas negociações posteriores. “Conseguimos renegociar em cerca de dois terços dos produtos afetados com apoio dos empresários norte-americanos”, disse, acrescentando que o redirecionamento das exportações para a Ásia e a América Latina foi decisivo. “Foi uma vitória do Brasil ao se portar de maneira pragmática durante essa crise das tarifas.”

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