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Brasil adere a iniciativa para triplicar energia nuclear até 2050

Decisão anunciada em Paris reforça a aposta brasileira na segurança energética, na transição de baixo carbono e no desenvolvimento do combustível nuclear

Brasil adere a iniciativa para triplicar energia nuclear até 2050 (Foto: Divulgação/Governo Federal)

247 – O Brasil anunciou nesta terça-feira, 10 de março, sua adesão à Declaração para Triplicar a Energia Nuclear até 2050, movimento internacional que busca ampliar a capacidade instalada dessa fonte energética no mundo nas próximas décadas. A decisão foi formalizada durante a II Cúpula sobre Energia Nuclear, realizada em Paris, na França.

Segundo informou a Sputnik Brasil, a adesão brasileira ocorreu no encontro organizado pelo governo francês com apoio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Na mesma ocasião, China, Bélgica e Itália também passaram a integrar a iniciativa, que agora reúne o apoio de 38 países.

A declaração foi lançada originalmente durante a COP28, realizada em Dubai, e integra uma estratégia internacional voltada ao fortalecimento da segurança energética e ao atendimento da crescente demanda global por eletricidade. De acordo com o Itamaraty, a expansão da energia nuclear também é vista como instrumento para acelerar a transição energética por meio de uma fonte de baixa emissão de carbono, contribuindo para o cumprimento das metas climáticas globais.

Em nota divulgada pelo governo brasileiro, o país associou sua entrada no pacto à defesa de uma expansão responsável da geração nuclear, com ênfase em segurança, proteção e não proliferação. O texto oficial destaca a experiência já acumulada pelo Brasil nesse setor estratégico.

“Ao endossar a iniciativa, o Brasil reafirma seu compromisso com o desenvolvimento responsável da energia nuclear, em conformidade com elevados padrões de segurança, proteção e não proliferação. Com mais de quatro décadas de operação segura de usinas nucleares, o país domina o ciclo do combustível nuclear, da mineração de urânio à fabricação de combustível”, diz a nota divulgada pelo governo brasileiro.

Energia nuclear ganha peso no debate estratégico

A adesão do Brasil ao compromisso internacional ocorre em um momento de reorganização da matriz energética global. Pressionados pelo aumento do consumo de energia, pela necessidade de reduzir emissões e pela busca por maior autonomia estratégica, vários países têm recolocado a energia nuclear no centro de seus planejamentos de longo prazo.

No caso brasileiro, a decisão também reforça a percepção de que a energia nuclear poderá exercer papel mais relevante na diversificação da matriz elétrica nacional. Embora o país possua forte presença de fontes renováveis, como hidrelétrica, solar e eólica, o setor nuclear é visto por formuladores de políticas públicas como uma fonte estável e contínua, capaz de complementar o sistema em momentos de maior pressão sobre a oferta.

Atualmente, a geração nuclear responde por cerca de 3% de toda a energia produzida no Brasil. Essa participação vem principalmente das usinas Angra 1 e Angra 2, localizadas em Angra dos Reis, no estado do Rio de Janeiro.

Angra e o domínio do ciclo do combustível nuclear

Um dos elementos centrais do discurso brasileiro sobre energia nuclear é o domínio do ciclo do combustível. O país possui reservas de urânio, capacidade de mineração e conhecimento industrial acumulado para etapas relevantes da cadeia produtiva, o que amplia sua margem de autonomia em um setor sensível do ponto de vista tecnológico e geopolítico.

Ao enfatizar esse ponto, o governo busca projetar a imagem de um país que não apenas opera usinas, mas que também domina conhecimento estratégico ligado à produção de combustível nuclear. Trata-se de um diferencial importante num cenário internacional em que tecnologia, segurança energética e soberania industrial aparecem cada vez mais conectadas.

A experiência brasileira com usinas nucleares também foi ressaltada na nota oficial, que menciona mais de quatro décadas de operação segura. Esse argumento é usado para sustentar a posição de que o Brasil reúne condições técnicas e institucionais para ampliar sua presença nesse segmento sem abrir mão dos compromissos internacionais de segurança e não proliferação.

Extensão da vida útil de Angra 1

No contexto da revalorização da energia nuclear, a usina Angra 1 também volta ao centro das discussões. Conforme as informações divulgadas, a unidade foi fruto de um investimento construído ao longo de 40 anos. Para a extensão da vida útil da usina, a Eletrobras obteve financiamento de R$ 22,2 milhões com parceiros internacionais.

Esse movimento indica que, além de aderir a uma iniciativa global de expansão da energia nuclear, o Brasil também trabalha para preservar e modernizar ativos já existentes. A ampliação da vida útil de Angra 1 é parte desse esforço de manutenção da capacidade instalada e de atualização da infraestrutura nuclear nacional.

A relevância de Angra 1 e Angra 2 no sistema elétrico vai além do peso percentual atual. Em um cenário de aumento do consumo energético e de maior exigência por fontes estáveis, as usinas nucleares passam a ser observadas como ativos importantes para a segurança do abastecimento, sobretudo por não dependerem das variações climáticas que afetam outras fontes.

Paris, AIEA e a nova etapa da agenda nuclear

A realização da II Cúpula sobre Energia Nuclear em Paris, com apoio da AIEA, evidencia que a agenda nuclear voltou a ganhar centralidade em fóruns multilaterais. A presença de um número crescente de países na declaração mostra que há uma articulação internacional em curso para reabilitar essa fonte como parte da resposta à crise climática e às tensões energéticas globais.

Para o Brasil, a adesão ao compromisso também tem peso diplomático. O gesto aproxima o país de um bloco de nações que defendem a expansão da energia nuclear sob marcos regulatórios rígidos e sob supervisão internacional, ao mesmo tempo em que reposiciona o debate doméstico sobre investimentos, planejamento energético e política industrial.

A entrada do Brasil na iniciativa, portanto, não se resume a um ato protocolar. Ela sinaliza uma escolha estratégica que combina segurança energética, ambição climática e valorização de capacidades tecnológicas nacionais. Em um ambiente internacional marcado por disputa por recursos, instabilidade geopolítica e pressão por transição energética, a energia nuclear volta a ser tratada como peça relevante no tabuleiro global — e o Brasil decidiu ocupar seu espaço nesse debate.

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