Dispara o uso do yuan em transações internacionais, acelerando o declínio do dólar
Sanções dos EUA e conflitos geopolíticos impulsionam moeda chinesa como alternativa global em comércio de petróleo e pagamentos estratégicos
247 – O uso do yuan em transações internacionais registrou forte expansão recente, refletindo mudanças profundas na geopolítica financeira global e sinalizando um movimento de afastamento gradual do dólar em operações comerciais entre países sob pressão de sanções.
Segundo reportagem do jornal Valor Econômico, as liquidações comerciais em yuan cresceram 50% em março na comparação com o mês anterior no Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços da China (CIPS), atingindo 1,46 trilhão de yuans — cerca de US$ 214 bilhões.
O volume representa o triplo do registrado em março de 2021 e confirma uma tendência de alta consistente, impulsionada principalmente por países como Irã e Rússia, que buscam alternativas ao sistema financeiro dominado pelo dólar.
Os pagamentos continuaram avançando em abril, com a mídia chinesa relatando que o CIPS bateu recorde de transações em um único dia.
Irã intensifica uso do yuan após sanções e conflitos
O Irã tem sido um dos principais motores dessa mudança. Praticamente excluído do sistema bancário internacional baseado no dólar devido às sanções dos Estados Unidos, o país passou a depender da moeda chinesa para manter suas operações comerciais.
Após ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel em fevereiro, Teerã fechou o Estreito de Ormuz e passou a cobrar pedágios de embarcações que desejam atravessar a rota estratégica.

Navios de países considerados aliados, como China, Rússia e Índia, foram autorizados a circular, com cobrança realizada em criptomoedas e yuan, reforçando o papel da moeda chinesa como instrumento de comércio em ambientes de restrição financeira.
Rússia amplia transações fora do sistema ocidental
A Rússia também intensificou o uso do yuan após ser excluída do sistema Swift em 2022, o que dificultou o uso de moedas tradicionais como dólar e euro em transações internacionais.
Com isso, Moscou passou a realizar operações em rublos e yuans, especialmente no comércio de petróleo e gás com a China, fortalecendo um eixo financeiro alternativo ao Ocidente.
Em entrevista por escrito à agência chinesa Xinhua, em agosto de 2025, o presidente Vladimir Putin afirmou: "As transações entre a Rússia e a China são quase totalmente feitas em rublos e yuans."
Arábia Saudita amplia liquidações em yuan
O movimento também alcança grandes exportadores de energia no Oriente Médio. A Arábia Saudita elevou para 41% a participação das transações de petróleo liquidadas em yuan em março, segundo a mídia chinesa.
No mesmo período, dois grandes bancos estatais sauditas aderiram ao CIPS, sistema criado pela China em 2015 para promover a internacionalização de sua moeda.
Até o fim de 2025, mais de 1.700 instituições financeiras em todo o mundo já utilizavam o sistema, majoritariamente na Ásia.
China acelera estratégia de internacionalização do yuan
A expansão do yuan também se apoia em iniciativas como o desenvolvimento do yuan digital. Desde 2024, a China testa pagamentos transfronteiriços com países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, permitindo liquidações diretas sem o uso do dólar.
Apesar do avanço, a moeda chinesa ainda ocupa posição modesta no sistema financeiro global. Segundo a Swift, o yuan representava cerca de 3% das liquidações internacionais em março, enquanto o dólar concentrava 51%.
Mesmo assim, o novo plano quinquenal da China, iniciado em 2026, estabelece como prioridade a ampliação do uso do yuan no comércio e nos investimentos internacionais.
Para o economista-chefe do Instituto de Pesquisa Daiichi Life, Toru Nishihama, a tendência é de aceleração desse processo. "A participação do yuan está aumentando gradualmente, e a internacionalização do yuan e o afastamento do dólar também se acelerarão."


