Exportações: Brasil troca Estados Unidos por outros mercados
Vendas brasileiras aos EUA caem 16% até maio, mas avanço das exportações para China, União Europeia e Ásia sustenta crescimento do comércio exterior
247 - As exportações brasileiras para os Estados Unidos registraram queda de 16% entre janeiro e maio deste ano na comparação com o mesmo período de 2025. Apesar da retração nas vendas para o mercado norte-americano, o comércio exterior brasileiro manteve trajetória de crescimento, impulsionado pela expansão das exportações para outros destinos, especialmente China, União Europeia e países asiáticos. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) e noticiados originalmente por O Globo.
De acordo com o levantamento, as exportações brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 14 bilhões nos cinco primeiros meses do ano. No mesmo período, as importações provenientes do país caíram 12,6%, alcançando US$ 15,5 bilhões. O resultado mantém a relação comercial deficitária para o Brasil, que comprou US$ 1,5 bilhão a mais do que vendeu aos norte-americanos.
A retração ocorre em meio à estratégia de diversificação de parceiros comerciais adotada pelo Brasil após a imposição de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos no ano passado. Desde então, o governo brasileiro tem buscado ampliar sua presença em outros mercados para reduzir a dependência da economia norte-americana.
Queda começou após imposição de tarifas
Segundo o diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do Mdic, Herlon Brandão, as exportações para os Estados Unidos vêm registrando quedas mensais desde agosto do ano passado, quando entrou em vigor a primeira rodada de tarifas.
"Tivemos a maior queda em outubro, de 35%. Em janeiro tivemos uma redução de 26%, e isso foi se arrefecendo ao longo dos meses, 20% em fevereiro, 10% em março e em abril e 14% agora em maio", afirmou o diretor.
Brandão destacou, porém, que ainda é prematuro concluir se a tendência representa uma mudança estrutural nas relações comerciais entre os dois países. Para ele, será necessário acompanhar o comportamento do comércio exterior nos próximos meses para avaliar se o movimento se consolidará.
Novas tarifas elevam incerteza
O cenário ficou ainda mais incerto após o governo de Donald Trump anunciar uma proposta de sobretaxa de 12,5% para produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos. A medida foi apresentada um dia depois da recomendação de um novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros.
A decisão final sobre a adoção das novas tarifas deverá ser tomada em audiência marcada para 7 de julho. Enquanto isso, autoridades brasileiras acompanham os desdobramentos e avaliam os possíveis impactos para os exportadores nacionais.
Em coletiva realizada nesta terça-feira, representantes do Mdic informaram que a eventual tarifa de 25% poderá atingir cerca de 21% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano. Ainda não há estimativas oficiais sobre os efeitos da sobretaxa adicional de 12,5%.
Superávit comercial segue em alta
Mesmo diante da redução das vendas para os Estados Unidos, o desempenho geral da balança comercial brasileira permaneceu positivo. Até maio, o país acumulou superávit de US$ 32,6 bilhões, resultado 34,2% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior.
A corrente de comércio, que reúne exportações e importações, alcançou US$ 264,5 bilhões, crescimento de 6,2% na comparação anual. O resultado reforça a capacidade do Brasil de compensar perdas em determinados mercados com ganhos em outras regiões.
O principal destaque continua sendo a China. As exportações brasileiras para o país asiático cresceram 21,8% no acumulado do ano, consolidando ainda mais sua posição como principal parceiro comercial do Brasil.
China amplia espaço no comércio brasileiro
Durante evento realizado em Goiás nesta terça-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou a abertura do mercado chinês para a carne brasileira como exemplo das oportunidades surgidas em meio às tensões comerciais com os Estados Unidos.
"Mas como Deus escreve certo por linhas tortas, nada acontece de graça. O que aconteceu hoje para se contrapor a medida do (Donald) Trump (presidente dos EUA)? A China aceitou que o Brasil está nacionalmente livre da febre aftosa, que a nossa carne está livre para o mercado chinês. Então, veja, eu tenho muita sorte, eu não vou ficar chorando. Se você não quer comprar de mim, pode ficar com suas coisas, eu vou vender para outro", declarou Lula.
Além da China, os países da União Europeia também ampliaram suas compras de produtos brasileiros. As exportações para o bloco avançaram 6,7% nos cinco primeiros meses do ano, reforçando o movimento de diversificação dos mercados de destino.
Mercados emergentes ganham relevância
Para a economista-chefe do PicPay, Ariane Benedito, a queda das exportações para os Estados Unidos foi a mais expressiva entre os principais parceiros comerciais do Brasil. Em relatório, ela aponta que parte do movimento está ligada ao redirecionamento dos fluxos de petróleo bruto, mas também reflete a adaptação das relações bilaterais ao novo ambiente tarifário.
"O Brasil tem compensado essa perda de participação com ganhos expressivos em Ásia, Europa e, mais recentemente, em mercados como Índia e Bangladesh, o que demonstra capacidade de diversificação da pauta, ainda que o processo seja gradual", afirmou.
A avaliação reforça a percepção de que o comércio exterior brasileiro atravessa um período de reconfiguração. Embora os Estados Unidos continuem sendo um parceiro relevante, o avanço das exportações para novos mercados indica uma estratégia crescente de ampliação das oportunidades comerciais e redução da dependência de um único destino.



