Governo estuda impor cotas de exportação de carne bovina para a China
Medida em análise busca evitar corrida de embarques após salvaguardas chinesas e pode entrar na pauta da CAMEX já nesta quinta-feira
247 - O governo brasileiro avalia criar um sistema de cotas individuais de exportação para frigoríficos e empresas nacionais que vendem carne bovina à China, em uma tentativa de organizar o fluxo de embarques diante das novas restrições impostas por Pequim às importações do produto.
A informação foi divulgada pela Reuters, com base em entrevista concedida nesta quarta-feira (11) por Luis Rua, secretário de Comércio do Ministério da Agricultura, que afirmou que o tema está em discussão com o setor privado para evitar distorções no mercado.Segundo Rua, a proposta surge como resposta às chamadas “medidas de salvaguarda” anunciadas pela China, que buscam proteger a indústria local chinesa e limitar a entrada de carne bovina estrangeira. De acordo com ele, a intenção do governo brasileiro é evitar que exportadores acelerem embarques em massa para tentar garantir espaço dentro da nova cota chinesa, o que poderia pressionar preços e gerar instabilidade.“É uma discussão em andamento”, afirmou o secretário em entrevista por telefone. “Estamos conversando com o setor privado para encontrar alternativas e evitar uma corrida descontrolada”, acrescentou.
Discussão pode avançar na CAMEX
Ainda conforme o secretário, o plano de estabelecer cotas individuais para cada empresa pode ser debatido já nesta quinta-feira, durante reunião da Câmara de Comércio Exterior (CAMEX), órgão responsável por decisões estratégicas ligadas ao comércio internacional brasileiro.
A adoção de um mecanismo de distribuição interna de cotas seria uma forma de organizar as exportações brasileiras para o maior destino da carne bovina nacional, garantindo previsibilidade ao setor e evitando disputas desordenadas entre exportadores.
China cria sobretaxa para importações acima do limite
A China anunciou que passará a aplicar uma tarifa adicional de 55% sobre as importações de carne bovina que excederem as quotas estabelecidas para grandes fornecedores internacionais, incluindo Brasil, Austrália e Estados Unidos.A medida entrou em vigor em 1º de janeiro e terá validade de três anos, com previsão de aumento gradual do volume total permitido ao longo do período.Para 2026, a cota total de importação chinesa destinada aos países atingidos pelas novas salvaguardas foi definida em 2,7 milhões de toneladas métricas, número próximo do recorde histórico de 2,87 milhões de toneladas importadas no total em 2024.
Brasil terá cota definida até 2028
O Brasil, principal parceiro comercial da China, aparece como um dos países mais impactados pelas novas regras. Em 2025, o país exportou 1,648 milhão de toneladas de carne bovina fresca para o mercado chinês, estabelecendo um recorde.
Pelas regras anunciadas por Pequim, a cota brasileira será de:
- 1,106 milhão de toneladas em 2026
- 1,128 milhão de toneladas em 2027
- 1,151 milhão de toneladas em 2028
A definição desses volumes reforça a necessidade de coordenação interna para que o Brasil consiga distribuir de forma organizada o limite anual entre as empresas exportadoras.
Dúvida sobre cargas já em trânsito
Outro ponto ainda indefinido envolve a contagem de embarques que já estavam a caminho da China antes do anúncio oficial das medidas. Segundo Rua, ainda não está claro se os volumes em trânsito — estimados pelo setor em cerca de 250 mil toneladas — serão contabilizados dentro da cota brasileira de 2026.
A indefinição preocupa empresas exportadoras, que podem enfrentar dificuldades caso parte relevante dos embarques seja considerada dentro do limite anual, reduzindo o espaço disponível para novas vendas ao longo do ano.
Pressão sobre exportações e preços preocupa governo
O temor do governo é que o anúncio das salvaguardas incentive uma corrida de exportadores para garantir embarques antecipados, provocando excesso de oferta e possível queda nos preços da carne bovina brasileira no mercado internacional.
Com a China concentrando grande parte das compras externas do produto, mudanças em suas regras comerciais costumam gerar impactos imediatos sobre a cadeia pecuária brasileira, especialmente em estados produtores como Mato Grosso, Goiás, Pará e São Paulo.
A eventual criação de cotas individuais, caso avance, representará uma mudança relevante na dinâmica de exportação da carne bovina brasileira para o mercado chinês, em um momento de crescente pressão internacional sobre o comércio de alimentos e commodities.


