Viagem de Lula à Ásia mira agronegócio e amplia busca por novos mercados
Comitiva empresarial acompanhará agenda na Índia e na Coreia do Sul com foco em carne bovina, grãos e tecnologia
247 - O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma nova ofensiva diplomática e comercial na Ásia, com foco na ampliação das exportações do agronegócio brasileiro e na abertura de mercados alternativos para reduzir a dependência de grandes compradores internacionais. A estratégia também busca diminuir a exposição do país a barreiras comerciais e medidas protecionistas adotadas nos últimos anos por parceiros estratégicos. A viagem está marcada para ocorrer entre os dias 17 e 24 de fevereiro, com passagens por Nova Delhi, na Índia, e Seul, na Coreia do Sul, segundo a Folha de São Paulo.
A agenda internacional contará com uma ampla comitiva de empresários organizada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex). De acordo com a entidade, cerca de 150 empresários já confirmaram presença na etapa indiana da missão, enquanto aproximadamente 100 devem acompanhar a visita à Coreia do Sul. O objetivo é criar pontes comerciais e institucionais que facilitem a entrada de produtos brasileiros em novos mercados e fortaleçam parcerias de médio e longo prazo.
Na Coreia do Sul, o principal interesse do governo brasileiro é avançar nas negociações para a abertura do mercado à carne bovina. O país asiático tradicionalmente importa a proteína de fornecedores geograficamente mais próximos, como Austrália e Nova Zelândia, mas a expectativa do governo é apresentar o Brasil como uma alternativa competitiva e confiável. O governo brasileiro também tem interesse na indústria de cosméticos.
O presidente da Apex, Jorge Viana, destacou a importância dessa aproximação em um contexto internacional mais restritivo. “A Coreia hoje tem uma das maiores indústrias [de cosméticos] do mundo. E o Brasil é, de fato, um player que pode fornecer matérias-primas. Então, a gente quer estreitar mais esse comércio nessa área”.
A chegada da comitiva brasileira a Seul ocorre poucos meses após a China, principal destino da carne bovina brasileira, anunciar a adoção de uma medida de salvaguarda para proteger frigoríficos locais. A decisão, válida a partir de 2026 e com duração prevista de três anos, estabelece uma tarifa de 55% caso as importações ultrapassem 1,1 milhão de toneladas. Em 2025, as exportações brasileiras de carne bovina para o mercado chinês chegaram a 1,65 milhão de toneladas.
Além do agronegócio, o governo espera avançar em diálogos com empresas sul-coreanas do setor de tecnologia, com a perspectiva de anúncios de novos investimentos no Brasil. A estratégia faz parte de um esforço mais amplo para diversificar a pauta exportadora e atrair capital estrangeiro em áreas de maior valor agregado.
Na Índia, considerada pelo governo e pelo setor empresarial como um mercado com grande potencial de crescimento, a expectativa é firmar acordos voltados à exportação de grãos e aves, já que o consumo de carne bovina é reduzido no país. Também estão no radar novas rotas comerciais para produtos brasileiros e iniciativas voltadas à segurança alimentar.
“Na área de segurança alimentar, a Índia tem características que são bastante distintas do Brasil e nós não vamos chegar lá com a carteira do agronegócio brasileiro, vamos chegar com o cooperativismo, com a agricultura familiar brasileira”, declarou Viana, ao detalhar a abordagem que será adotada nas negociações.
A agenda indiana inclui ainda a assinatura de acordos relacionados à indústria farmacêutica, setor estratégico para o Brasil, que importa parte relevante dos insumos utilizados na produção de medicamentos a partir da Índia. Também estão previstos diálogos sobre minerais críticos, terras raras e biocombustíveis, áreas consideradas centrais para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia.
A viagem de Lula acontece cerca de quatro meses após a visita do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) à Índia, ocasião em que foi firmado um acordo para aprofundar o comércio entre o país asiático e o Mercosul. A aproximação bilateral ganhou novo impulso após a visita do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, ao Brasil, em julho de 2025.
A intensificação da busca por novos mercados ocorre em um contexto de maior pressão internacional, após a imposição de tarifas comerciais pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 2025. A estratégia brasileira segue um movimento observado em outros países afetados pelas medidas, como a própria Índia, que também tem buscado diversificar parcerias comerciais, inclusive com a União Europeia.




