Mercadante cobra fortalecimento do multilateralismo: 'conquista civilizatória'
Presidente do BNDES afirma que América Latina e Sul Global devem liderar defesa das instituições internacionais
247 - O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, afirmou que o multilateralismo representa uma conquista civilizatória da humanidade que não pode sofrer retrocessos. Segundo ele, o atual cenário internacional é marcado por instabilidade crescente e pelo avanço de relações unilaterais, o que exige uma resposta coordenada dos países da América Latina e do Sul Global.
As declarações foram feitas durante o seminário internacional “Desafios para o desenvolvimento sustentável da América Latina”, realizado pelo BNDES em parceria com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), conforme informou a Agência de Notícias do BNDES.
Alerta sobre a erosão do sistema multilateral
Mercadante alertou para o enfraquecimento das instituições multilaterais e para a aceleração de práticas autoritárias no plano internacional. “Estamos vivendo um período histórico de erosão do multilateralismo e de transição muito acelerada rumo a um cenário de mais instabilidade e de relações unilaterais e autoritárias, principalmente em relação aos Estados Unidos”, afirmou.
Para o presidente do BNDES, a defesa das regras internacionais deve partir do Sul Global. “Nesse momento em que precisamos reafirmar princípios, um dos valores essenciais é o multilateralismo. O comércio com regras claras e o direito internacional são conquistas civilizatórias da humanidade que não podem retroceder. Atualizar e fortalecer as instituições multilaterais deve ser uma exigência do Sul Global, porque isso não virá do Norte”, disse.
Mercadante também destacou a importância do Estado Democrático de Direito, da preservação de uma cultura de paz na América Latina e do enfrentamento aos extremos climáticos. “A democracia é um valor permanente e universal”, afirmou.
Integração regional e protagonismo latino-americano
O presidente do BNDES defendeu uma maior integração regional e elogiou o acordo comercial firmado entre o Mercosul e a União Europeia. Ele também citou a necessidade de ampliar a aproximação do Canadá e do México com a América Latina e apontou avanços recentes na relação entre Brasil e Índia.
Na avaliação de Mercadante, o cenário global passa por uma reconfiguração profunda, marcada pela emergência da Ásia, sob liderança da China, em contraste com a perda de dinamismo econômico do Ocidente. “A América Latina tem o maior patrimônio genérico da humanidade, as maiores reservas florestais e reservas estratégicas de minerais críticos. Temos que pensar grande e atribuir protagonismo ao BNDES e a outros bancos de desenvolvimento nesse processo”, afirmou.
Segundo ele, a união regional pode ampliar o peso diplomático da região. “A América Latina precisa estar mais unida e mais próxima. Com isso, teremos mais força diplomática e podemos dar uma imensa contribuição para fortalecer as instituições multilaterais. Em vez de vantagens competitivas, precisamos olhar para as vantagens colaborativas”, disse.
Mercadante adiantou ainda que os resultados do BNDES em 2025 foram “extraordinários”, sem antecipar números. O balanço do banco será divulgado em março.
Minerais críticos e agregação de valor
Ao tratar da agenda de minerais críticos, o presidente do BNDES defendeu que a América Latina avance na agregação de valor e no desenvolvimento industrial. “Não podemos ter a visão limitada de substituir o ciclo do ouro pelo ciclo do lítio. Temos que produzir baterias, criar mobilidade híbrida, disputar o SAF na aviação e o biocombustível na navegação. Não podemos só vender minerais”, afirmou.
Na área ambiental, Mercadante citou iniciativas do banco voltadas à restauração de áreas afetadas por desastres, como no Rio Grande do Sul e na região de Mariana, em Minas Gerais. Ele lembrou que, em janeiro, o BNDES investiu R$ 1,3 bilhão no programa BNDES Renovação da Frota, voltado à aquisição de caminhões novos, mais eficientes e menos poluentes.
Acordo Mercosul-União Europeia
Presidente do Barcelona Centre for International Affairs (Cidob), Josep Borrell também participou do evento e avaliou que a política comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, levou a União Europeia a buscar novas parcerias, impulsionando o acordo com o Mercosul. “No fim das contas, implementação é a palavra-chave”, afirmou.
Ex-vice-presidente da Comissão Europeia, Borrell destacou que o acordo foi aprovado provisoriamente antes da análise pelo Tribunal de Justiça da União Europeia e disse confiar na adoção de mecanismos de proteção ao setor agrícola em ambos os blocos. Ele rejeitou alegações de que produtos do Mercosul possam entrar no mercado europeu com exigências ambientais menos rigorosas.
Borrell também afirmou que a América Latina é a “reserva do futuro”, em razão da concentração de minerais críticos, e defendeu que as transições digital e climática ocorram de forma justa. “É preciso imaginar que outro mundo é possível, mais humano, mais capaz de entender os movimentos de pessoas que fogem de ditaduras e de ameaças climáticas”, disse. “A chave do sucesso e da sobrevivência da espécie humana é a cooperação, porque temos objetivos e restrições comuns, não o confrontamento”, completou.
Desafios estruturais da América Latina
O secretário-executivo da Cepal, José Manuel Salazar-Xirinachs, apontou três entraves históricos ao desenvolvimento da região: a baixa capacidade de crescimento econômico, a elevada desigualdade social e a fragilidade institucional. Ele também alertou para o enfraquecimento do sistema multilateral.
Segundo Salazar-Xirinachs, a conjuntura exige uma revisão das estratégias de integração regional. “Diante dessas mudanças, é urgente que os países da América Latina redefinam as estratégias de integração. Se existe um país que pode fazer coalizões regionais importantes, é o Brasil”, afirmou.




