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Millennials estudam mais, mas vivem abaixo da geração X

Millennials estudam mais que os pais, porém renda, moradia e custo de vida dificultam avanço social aos 30 anos

Millennials estudam mais, mas vivem abaixo da geração X (Foto: Freepik )
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247 - Millennials estudam mais que os pais, porém renda, moradia e custo de vida dificultam avanço social aos 30 anos e ajudam a explicar a frustração de uma geração que chegou à vida adulta com mais escolaridade, maior acesso à tecnologia e expectativas elevadas, mas sem conseguir reproduzir o padrão de estabilidade alcançado pela geração X na mesma idade, relata o jornal O Globo.

O caso de Rafaella Steenhagen, de 28 anos, sintetiza esse impasse. Formada em Relações Internacionais, fluente em quatro idiomas e empregada como assistente administrativa, ela afirma não ter obtido o retorno financeiro esperado após investir em educação. Solteira, ainda mora com os pais, ambos advogados, e iniciou uma nova graduação, em Direito, enquanto tenta construir uma trajetória profissional mais próxima da estabilidade que imaginava.

“Eu me sinto frustrada quando vejo que ainda não alcancei o padrão de vida e a estabilidade que planejava, apesar de trabalhar em uma ótima empresa, que oferece salário e benefícios acima do mercado para a função em que atuo”, afirma Rafaella. “É como se diz nas redes sociais: na minha vez de ser adulto, está tudo bem mais caro do que há 30 anos. Apesar de eu ter tido maior acesso a educação e tecnologia, meus pais tiveram mais conquistas financeiras na minha idade".

O sentimento relatado por Rafaella aparece em diferentes faixas de renda entre brasileiros próximos dos 30 anos. A escolaridade avançou, mas a renda não cresceu no mesmo ritmo, o que impede que muitos trabalhadores percebam uma melhora concreta em relação à geração anterior.

Um estudo dos pesquisadores Daniel Duque, Michael França e Fillipi Nascimento, do Insper, comparou a situação econômica e o acesso a bens entre a geração X, formada por nascidos entre 1965 e 1980, e os millennials, nascidos entre 1981 e 1996. A análise observou grupos das duas gerações aos 30 anos, idade atingida pela geração X entre 1997 e 1999 e pelos millennials entre 2022 e 2024.

Os pesquisadores concluíram que os millennials chegaram aos 30 anos com renda superior à da geração anterior na mesma idade, mas o avanço foi limitado. Em nenhuma faixa de renda houve crescimento superior a 2% ao ano em relação à geração X, um ritmo considerado insuficiente para produzir mobilidade social expressiva.

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Melhora foi maior entre os mais pobres

Os maiores ganhos apareceram na base da pirâmide social. Entre os 25% mais pobres, os millennials tiveram crescimento médio de renda de 2% ao ano. Já entre os 5% mais pobres, a alta anual ficou em torno de 1,3%.

Nas faixas de renda mais altas, o avanço foi ainda menor. Entre os 25% mais ricos, a renda cresceu menos de 0,5% ao ano. No grupo dos 10% mais ricos, a variação ficou próxima de zero. Entre os 5% no topo, houve melhora pouco acima de 0,5% ao ano.

Para Daniel Duque, um dos autores do estudo, os números revelam a baixa mobilidade social no país. Mesmo os segmentos que mais avançaram não conseguiram mudar de patamar, e o aumento no padrão de consumo ficou abaixo do esperado.

Segundo o pesquisador, uma mobilidade efetiva entre gerações exigiria crescimento de renda em torno de 3% ao ano, com variação entre 2% e 4%, na comparação entre geração X e millennials. Além disso, as camadas mais baixas precisariam avançar em ritmo pelo menos duas vezes superior ao dos grupos mais ricos da geração anterior.

Crises comprimiram renda e reduziram perspectivas

Duque associa a estagnação a uma combinação de ciclos econômicos negativos e problemas estruturais. “Nesse período, entre a fase adulta da geração X e a dos Millennials, passamos por vários momentos de crise no mercado de trabalho, tanto a crise de 2015 e 2016, quanto a pandemia, e tudo isso comprimiu muito os rendimentos”, afirma.

Além da conjuntura, o pesquisador destaca entraves históricos que limitam a mobilidade socioeconômica no Brasil. A frustração dos jovens adultos, portanto, não decorre apenas de expectativas individuais, mas de um contexto econômico que ofereceu menos espaço para ascensão.

O economista Paulo Tafner, presidente do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), avalia que o país precisa de políticas públicas capazes de dinamizar a economia e ampliar a competitividade das indústrias brasileiras no mercado internacional.

“O nosso processo econômico não está sendo capaz de gerar mobilidade social e eliminação da pobreza. Significa que temos que fazer um esforço monumental de transferir renda. Mas o melhor jeito é no processo de desenvolvimento econômico, ter oportunidades para todo mundo”, afirma Tafner.

Produtividade baixa limita avanço da renda

Para Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, o Brasil tem dado menos atenção do que deveria a reformas estruturais voltadas ao aumento da produtividade, da renda e das oportunidades para as novas gerações.

“Não adianta só melhorar a composição da economia pelo lado do trabalho. Deveríamos estar olhando pelo lado do capital, do investimento, das tecnologias. Nisso, o Brasil peca e sempre pecou”, afirma.

Imaizumi observa que a geração X enfrentou a hiperinflação no início dos anos 1990, mas chegou aos 30 anos em um cenário no qual o Plano Real já havia estabilizado os preços. Naquele período, havia menos pessoas com ensino superior e menor concorrência por vagas de renda mais alta.

O economista também destaca que avanços sociais e de saúde permitiram que trabalhadores mais velhos permanecessem por mais tempo no mercado. Com isso, postos seniores, geralmente mais bem remunerados, continuam ocupados por profissionais de gerações anteriores.

“Eles continuam sendo os principais nas vagas mais seniores, que tendem a ser mais bem remuneradas, não abrem espaço para que os jovens consigam se inserir como gostariam”, afirma Imaizumi.

Para ele, a ampliação do acesso ao ensino superior ocorreu ao mesmo tempo em que cresceu o descompasso entre as habilidades adquiridas pelos jovens e as exigências do mercado de trabalho. Esse desalinhamento dificulta a inserção profissional e reduz o retorno financeiro da formação acadêmica.

Custo de vida pesa sobre a geração dos 30 anos

Embora a economia brasileira tenha crescido nos últimos anos e o mercado de trabalho esteja aquecido, a geração de vagas segue concentrada em ocupações de baixa remuneração. Esse quadro reduz a capacidade de jovens adultos transformarem emprego em estabilidade financeira.

Imaizumi aponta ainda que mudanças nos padrões de consumo, impulsionadas por novas tecnologias, e a permanência de preços elevados após a pandemia prejudicam o poder de compra. Assim, mesmo quando a renda cresce em valores absolutos, a percepção de melhora na qualidade de vida pode ser limitada.

O caso de Rafaella ilustra esse cenário. Apesar de ter estudado mais que os pais e dominar quatro idiomas, ela não conseguiu atuar na área em que se formou nem reunir renda suficiente para deixar a casa da família e adquirir o próprio apartamento.

Acesso a bens aumentou, mas não significa ascensão

O estudo do Insper também identificou aumento no acesso a bens duráveis, como carros, motos e eletrodomésticos, em todas as faixas de renda. O avanço foi mais expressivo em itens como geladeira, fogão e máquina de lavar.

Entre famílias de renda intermediária, o acesso a esses bens subiu de pouco mais de 30% para cerca de 75%. Segundo Duque, isso ocorreu porque bens duráveis ficaram relativamente mais baratos ao longo das últimas décadas, em razão do avanço tecnológico e da produção em escala. A expansão do crédito também contribuiu para ampliar o consumo.

Mas o pesquisador ressalta que esse acesso não necessariamente indica aumento de status social. “Hoje, o acesso, por exemplo, a motocicletas deixou de ser um ponto de distinção social e passou a ser quase um bem de fácil acesso”, afirma.

Moradia expõe mudança no padrão de vida adulta

A pesquisa mostra ainda uma inversão no comportamento residencial entre as gerações. Entre os integrantes da geração X aos 30 anos, quanto maior a renda, maior era a probabilidade de viver fora da casa dos pais. A independência residencial variava de 30% entre os mais pobres a mais de 80% entre os mais ricos, e a propriedade da casa também crescia conforme a renda.

Entre os millennials, o padrão mudou. Aos 30 anos, sair da casa da família e ter um imóvel próprio são situações mais frequentes entre os grupos de menor renda, enquanto os mais ricos tendem a permanecer por mais tempo com os pais. Uma possível explicação é a estratégia de prolongar os estudos diante do alto custo de moradia.

Duque afirma que a mudança reflete novas formas de organizar os investimentos na vida adulta. “Mudaram as estratégias de investimentos da vida adulta. Para as populações de renda média e os mais vulneráveis, ter moradia própria é considerado um investimento importante. Crédito e programas sociais ajudaram. Antes, quem não tinha uma renda maior não tinha acesso nem a financiamento. Não conseguiam casa própria, a não ser que construíssem do zero, o que acontecia muito”, diz.

Desigualdades raciais e de gênero persistem

O estudo também aponta que desigualdades históricas continuam limitando a mobilidade social. Embora tenham diminuído ao longo do tempo, as diferenças de renda por raça e gênero permanecem relevantes.

A renda dos homens brancos da geração X aos 30 anos era superior à de todos os demais grupos identitários de millennials hoje. Para Tafner, esse resultado reflete uma dinâmica econômica estruturada para preservar a vantagem de grupos historicamente hegemônicos.

“O crescimento econômico não é capaz de gerar emprego e renda para aqueles que estão mais abaixo na pirâmide e há, entre os mais pobres, uma concentração maior de pardos e pretos. Então obviamente que isso vai se refletir”, afirma.

O quadro revela que a geração millennial chegou à vida adulta com mais anos de estudo, mais acesso a bens e maior familiaridade com a tecnologia, mas encontrou um país marcado por renda comprimida, baixa produtividade, moradia cara e mobilidade social limitada.

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