Riqueza de bilionários atinge recorde e super-ricos ampliam poder midiático e político, alerta Oxfam
Relatório divulgado na abertura do Fórum Econômico Mundial em Davos aponta salto de 16% em 2025 e avanço da influência dos ultrarricos
247 – A riqueza dos bilionários do planeta atingiu o maior nível já registrado em 2025, crescendo em ritmo acelerado e aprofundando divisões econômicas e políticas que, segundo a Oxfam, ameaçam a estabilidade democrática. O alerta está em um relatório divulgado nesta segunda-feira, em meio à abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos.
As informações foram publicadas pela agência Reuters, que destaca que as fortunas dos bilionários globais subiram 16% em 2025, chegando a US$ 18,3 trilhões, prolongando uma alta de 81% desde 2020. O relatório afirma que essa escalada acontece mesmo com o agravamento das dificuldades de sobrevivência para parcelas gigantescas da população mundial, num quadro que a entidade descreve como socialmente explosivo.
Fortuna em disparada e fome persistente
De acordo com a Oxfam, o crescimento do patrimônio dos ultra-ricos aconteceu enquanto “uma em cada quatro pessoas no mundo tem dificuldade para se alimentar regularmente” e “quase metade da população global vive na pobreza”. A organização afirma que a disparidade expõe um sistema econômico que concentra ganhos no topo e falha em garantir condições mínimas de vida para bilhões.
O documento, segundo a Reuters, se apoia em pesquisas acadêmicas e em bases de dados como o World Inequality Database, além da lista de bilionários da Forbes. A leitura da entidade é que a desigualdade não é apenas um fenômeno financeiro, mas um vetor de instabilidade política, com efeitos diretos sobre instituições, representação e direitos.
A Oxfam também faz uma comparação para dimensionar a magnitude da concentração. A instituição calcula que os US$ 2,5 trilhões adicionados às fortunas dos bilionários em 2025 equivalem aproximadamente ao estoque de riqueza mantido pelos 4,1 bilhões de pessoas mais pobres do planeta.
Concentração de poder e captura da política
O ponto central do relatório vai além do dinheiro. A Oxfam afirma que o boom de riqueza está sendo acompanhado por uma concentração “dramática” de poder político. O estudo sustenta que bilionários seriam 4 mil vezes mais propensos do que cidadãos comuns a ocupar cargos políticos, indicando uma deformação estrutural na representação e na capacidade de decisão dos Estados.
Na avaliação da entidade, o acúmulo de riqueza no topo do sistema econômico também se converte em capacidade de influenciar regras, impostos, fiscalização e políticas públicas. É nesse contexto que o relatório defende a criação de barreiras mais rígidas entre dinheiro e política, com limites para lobby e financiamento de campanhas, além de instrumentos para reduzir desigualdades de forma planejada.
A Oxfam resume o risco como uma combinação de desigualdade material e déficit democrático. “O aumento da diferença entre os ricos e o restante da sociedade está, ao mesmo tempo, criando um déficit político altamente perigoso e insustentável”, afirmou o diretor-executivo da entidade, Amitabh Behar, conforme reproduzido pela Reuters.
Políticas nos EUA e o papel do presidente Donald Trump
A Oxfam associa a nova escalada de riqueza, em parte, a políticas implementadas nos Estados Unidos sob o presidente Donald Trump, apontando que seu segundo governo teria reduzido impostos, protegido multinacionais da pressão internacional e diminuído o escrutínio sobre monopólios. O relatório sugere que esse conjunto de medidas contribuiu para reforçar a capacidade de grandes conglomerados e fortunas individuais de ampliar patrimônio e influência em escala global.
Behar também criticou escolhas feitas por governos, afirmando que há uma tendência de atender interesses das elites, em vez de proteger a maioria social. Ele alertou, segundo a Reuters, que governos estão “fazendo escolhas erradas para agradar a elite”, ao mencionar cortes de ajuda e retrocessos em liberdades civis.
Inteligência artificial, valorização e novos ganhos para quem já é rico
Outro fator citado no relatório é a valorização de empresas de inteligência artificial, que teria gerado ganhos adicionais para investidores que já se encontravam no topo da pirâmide. A Oxfam descreve esse movimento como uma espécie de “ganho inesperado” para quem já possuía grandes carteiras e posições privilegiadas no mercado, reforçando um ciclo em que inovações tecnológicas podem ampliar desigualdades quando seus benefícios ficam concentrados.
A Reuters registra que, em 2025, a população mundial de bilionários ultrapassou 3 mil pessoas pela primeira vez. No mesmo período, o chefe da Tesla e da SpaceX, Elon Musk, teria se tornado o primeiro indivíduo a superar US$ 500 bilhões em patrimônio líquido, um marco que o relatório apresenta como símbolo de um patamar inédito de concentração.
Imposto sobre grandes fortunas e barreiras contra a influência do dinheiro
Como resposta, a Oxfam defende que governos adotem planos nacionais de redução da desigualdade, aumentem a taxação sobre riqueza extrema e construam barreiras institucionais entre poder econômico e processo político. Entre as propostas citadas estão medidas para conter lobby e financiamento político, além de reforçar regras contra captura regulatória.
A entidade observa que impostos sobre riqueza existem hoje em poucos países, como a Noruega, mas que outras nações vêm discutindo mecanismos semelhantes, incluindo Reino Unido, França e Itália. O relatório coloca essas discussões no centro do debate sobre democracia e coesão social, argumentando que a concentração de riqueza não se restringe ao consumo de luxo, mas altera a própria arquitetura do poder.
Controle da mídia por bilionários e impacto na esfera pública
O relatório também chama atenção para o que descreve como avanço da influência de bilionários sobre meios de comunicação tradicionais e digitais. A Oxfam afirma que bilionários já controlam mais da metade das principais empresas de mídia do mundo e cita nomes como Jeff Bezos, Elon Musk, Patrick Soon-Shiong e o francês Vincent Bolloré.
Para a organização, essa concentração na mídia agrava assimetrias porque amplia a capacidade de moldar narrativas, definir prioridades do debate público e influenciar processos eleitorais e decisões institucionais. No entendimento da entidade, quando riqueza, mídia e política se imbricam, o risco é a redução do espaço democrático real, com impacto sobre direitos e liberdades.
Davos, desigualdade e disputa por agendas globais
A divulgação do relatório no início do Fórum Econômico Mundial em Davos não é casual. A Oxfam tradicionalmente usa o encontro como vitrine para expor a distância entre elites políticas e financeiras e as condições de vida enfrentadas pela maioria. Neste ano, a mensagem central é que o salto patrimonial dos bilionários ocorre num ambiente de precariedade alimentar, pobreza persistente e tensões políticas, o que, na visão da instituição, torna a desigualdade um fator direto de instabilidade.
O relatório, como apresentado pela Reuters, sustenta que a discussão sobre riqueza extrema deixou de ser apenas um tema econômico e passou a ser também um tema de sobrevivência institucional. A entidade insiste que, sem medidas efetivas para reduzir desigualdades, conter a influência política do dinheiro e reforçar mecanismos de fiscalização, a distância entre os ultra-ricos e o restante da sociedade tende a se traduzir em erosão democrática e conflitos sociais.

