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China reduz títulos dos EUA e expõe fragilidades do dólar, diz Fábio Sobral

Professor da UFC analisa impactos da venda de Treasuries, a corrida do ouro nos BCs e o risco de crise global com efeitos no Brasil

China reduz títulos dos EUA e expõe fragilidades do dólar, diz Fábio Sobral (Foto: Divulgação)

247 - A decisão da China de orientar bancos a reduzir a exposição a títulos da dívida pública dos Estados Unidos abriu uma nova frente de tensão no sistema financeiro internacional e reacendeu o debate sobre a robustez do dólar em um cenário de juros elevados, bolhas de ativos e disputa geopolítica.

A avaliação foi detalhada pelo economista Fábio Sobral, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), em entrevista ao Boa Noite 247. Ao comentar a movimentação chinesa, ele sugeriu que a iniciativa busca blindagem e impulso interno, ao mesmo tempo em que pressiona a dinâmica de financiamento dos Estados Unidos.

China e a estratégia de reduzir exposição à dívida dos EUA

Ao ser questionado sobre os impactos da redução de títulos americanos, Sobral afirmou que, antes de tudo, é preciso olhar para o “porquê” do movimento. Ele descreveu uma trajetória em que a China, após se consolidar como grande centro industrial, teria passado a priorizar a expansão do mercado consumidor interno, sobretudo após a crise de 2008.

Segundo o professor, a venda de títulos do Tesouro americano permitiria aos bancos chineses recompor caixa em dólares e redirecionar recursos para a economia doméstica. “Os bancos vão vender os títulos, receber os dólares, ficar com dólares, ou seja, vão ficar com dinheiro em caixa e com esse dinheiro em caixa o banco não vai deixar parado, ele vai impulsionar a economia chinesa”, disse.

Sobral também mencionou desconfiança em relação ao sistema financeiro dos EUA, afirmando haver uma percepção de que os estímulos adotados após 2008 teriam ampliado riscos estruturais. “Para superar a bolha de 2008, eles fizeram uma bolha ainda maior e vai explodir”, afirmou, ao justificar por que a China estaria tentando reduzir a contaminação em caso de crise.

Efeito nos Estados Unidos: juros, dólar e risco de bolha

Na leitura do economista, a consequência para os Estados Unidos pode ser sensível, tanto pelo custo de financiamento quanto pelos reflexos sobre o dólar. Ele indicou que a queda da moeda americana pode produzir efeitos ambíguos: de um lado, ajudaria exportações e poderia favorecer a repatriação de indústrias; de outro, aumentaria a vulnerabilidade em um ambiente de excesso de liquidez.

“O dólar cair é positivo por uma parte, porque isso pode atrair indústrias americanas que estavam no exterior para voltarem aos Estados Unidos”, disse, ao explicar que produtos ficariam mais competitivos. Em seguida, porém, apontou o risco de uma reversão brusca caso o mercado passe a desconfiar do valor desses ativos: “Se de repente as pessoas perceberem que isso perde o valor, a economia americana explode”.

Emergentes e a busca por proteção: o avanço do ouro nas reservas

Ao ampliar o foco para países emergentes, Sobral destacou que a reação dos bancos centrais têm incluído o aumento de compras de ouro como instrumento de proteção. “Tem havido uma compra significativa, cada vez maior, de ouro pelo Banco Central Brasileiro”, afirmou, descrevendo uma troca gradual de títulos americanos por metal.

Na análise apresentada, o ouro funcionaria como uma espécie de seguro diante de turbulências. “Se explodir uma crise nas bolsas de valores do mundo, os países que tiverem mais ouro vão estar resguardados”, disse. E completou: “Quem tiver muitos dólares vai se arrebentar”.

Brasil, reservas e limitações legais: o debate sobre uso interno

O tema das reservas brasileiras entrou na conversa quando interlocutores questionaram se o país poderia adotar uma gestão mais “ousada” para reduzir o custo da dívida interna, especialmente diante de juros elevados. Sobral lembrou que há restrições legais para uso doméstico das reservas cambiais e criticou o fato de recursos permanecerem alocados em ativos externos.

Ele citou um exemplo ligado ao período da pandemia: “Faltaram respiradores, faltaram anestésicos para as pessoas serem intubadas e o Brasil não podia comprar com dinheiro das reservas cambiais e o dinheiro estava aplicado em títulos da dívida americana”.

Na mesma linha, defendeu que recursos poderiam apoiar projetos estratégicos nacionais. “Imagine se o Brasil utiliza as reservas cambiais… para fazer, por exemplo, uma rede de GPS própria”, afirmou, mencionando também investimentos em tecnologia e autonomia.

Juros, inflação e “arma de guerra”: a crítica à política monetária

Sobral sustentou que a política econômica dominante não seria neutra e que sua lógica prejudicaria países em desenvolvimento. “A teoria econômica que está aí é uma arma de guerra”, declarou. Ao discutir inflação, contestou a ideia de que juros sejam o principal instrumento de controle: “É mentira. A inflação no Brasil é controlada basicamente… por preços administrados”, citando combustíveis, energia e medicamentos como exemplos.

Sobre a dívida pública, defendeu uma estratégia de redução da atratividade dos juros e de reorganização do perfil de vencimentos. “Dívida não se paga, você rola. Rola para reduzir os juros”, disse, ao mencionar um exemplo histórico para sustentar o argumento. Ele também destacou a prática de alongar prazos: “Você pega a dívida atual e transforma em dívida futura com menores juros”.

Banco Master e rombos: o risco de repassar a conta ao setor público

A entrevista também abordou o caso citado no programa sobre fundos previdenciários de estados e municípios que teriam investido no Banco Master e ficado deficitários. Questionado sobre quem arcaria com o impacto, Sobral respondeu: “Provavelmente prefeituras e governos estaduais”.

Em seguida, descreveu o que chamou de “esperteza” usada por governantes para recompor caixa: tomar empréstimos caros no mercado e, mais adiante, buscar renegociação com a União. “Eles vão ter que cobrir com empréstimos no mercado financeiro”, afirmou, antes de apontar a possibilidade de colapso e pedido de socorro federal.

Ao comentar escolhas por crédito mais caro, fez ressalvas e tratou parte do raciocínio como hipótese: “Eu não tô dizendo que tenha ocorrido, mas eu fico me perguntando por que um governante vai pegar o dinheiro mais caro”.

Especulação e comunicação política: o exemplo citado por Sobral

Perto do fim, Sobral foi questionado sobre especulação contra o real e respondeu vinculando o tema à atuação de autoridades e à circulação de informações. “Você evita especulação primeiro, tendo gente séria aí no governo que impede as tramóias”, disse.

Ele relatou um exemplo envolvendo declarações públicas e efeitos sobre ativos, citando o período em que Jair Bolsonaro falava sobre a Petrobras: “O Bolsonaro… ia ao cercadinho… ameaçar a Petrobras. O que é que acontecia com a ação da Petrobras? Caía. O que é que acontecia com o dólar? Subia”.

Ao ampliar o argumento para o cenário internacional, Sobral mencionou Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, ao comentar reações de mercado a declarações políticas. “Ele faz essas declarações erráticas… É esperteza econômica, é coisa de mafioso”, afirmou, ao sustentar que oscilações poderiam beneficiar grupos informados previamente.

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