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“Direita brasileira revive velho vira-latismo”, diz José Genoino

Direita brasileira revive velho vira-latismo, diz José Genoino ao criticar Eduardo Bolsonaro, Tábata Amaral e a anistia a golpistas

“Direita brasileira revive velho vira-latismo”, diz José Genoino (Foto: ABR)

247 - A avaliação de que a direita brasileira revive um antigo “vira-latismo” marcou a participação de José Genoino em sua participação no Bom Dia 247, onde o ex-deputado analisou a conjuntura política, criticou a extrema direita, atacou propostas de anistia aos envolvidos nos atos golpistas e condenou iniciativas que, em sua visão, enfraquecem a solidariedade ao povo palestino. Ao longo da conversa, ele também defendeu uma postura mais combativa da esquerda na disputa de 2026 e afirmou que o campo progressista precisa sair da moderação para enfrentar o avanço conservador.

A análise de José Genoino girou em torno de temas como a trajetória do PT, a campanha presidencial de 2026, o posicionamento de setores da direita e os debates mais recentes no Congresso.

Logo no início, Genoino comentou o novo livro de Fernando Morais sobre Luiz Inácio Lula da Silva e elogiou a forma como a obra retrata o presidente. Segundo ele, trata-se de um relato sem adulação, centrado na dimensão política e humana de Lula. O ex-deputado também relembrou sua própria trajetória no PT, as campanhas eleitorais das décadas de 1980 e 2000 e a convivência política com o presidente.

Ao recordar os primeiros anos do partido, Genoino afirmou que sua formação política esteve profundamente ligada à legenda. “A minha vida e a minha experiência estão muito vinculadas ao PT. Eu aprendi com o PT e o PT aprendeu comigo”, disse. Ele também destacou que sua relação com Lula se intensificou especialmente a partir da campanha de 2002.

A entrevista ganhou tom mais duro quando o ex-parlamentar foi questionado sobre declarações de Eduardo Bolsonaro a respeito das eleições brasileiras e da atuação junto ao governo dos Estados Unidos. Para Genoino, esse tipo de postura expressa uma tradição de subordinação de parte das elites nacionais a interesses externos.

“Essa subserviência, essa vassalagem, essa dependência, esse espírito vira lata marca parte da classe dominante brasileira. E essa figura, ela é uma expressão cabal desse tipo de pensamento vira-lata”, afirmou. Na mesma linha, ele avaliou que o ambiente político atual é marcado pela naturalização da violência, do preconceito e do autoritarismo. “Eles perderam o pudor. Eles escancaram tudo para criar o medo, desacreditar as pessoas”, declarou.

Ao projetar a disputa presidencial de 2026, Genoino disse que a esquerda terá de travar um confronto político direto com a extrema direita. Em sua avaliação, a direita tradicional não funciona como barreira real ao bolsonarismo e tende a se compor com esse campo em momentos decisivos. “Nós vamos ter uma batalha muito importante em 2026, porque se nós não enfrentarmos politicamente essa extrema direita fascista, porque a velha direita neoliberal não enfrenta”, afirmou.

Nesse contexto, ele defendeu uma inflexão estratégica do campo progressista. “A esquerda tem que sair da moderação, do defensismo para ir para uma postura mais aguerrida, mais estratégica”, disse. Para o ex-deputado, o debate eleitoral não pode se limitar à defesa do legado de governos anteriores, mas precisa apontar com clareza que projeto de futuro será apresentado ao país.

Genoino também criticou declarações do governador Ronaldo Caiado sobre uma eventual anistia a golpistas. Segundo ele, esse tipo de discurso repete erros históricos da política brasileira, marcados por pactos de conciliação que, em vez de encerrar rupturas institucionais, abrem caminho para novos ciclos de instabilidade. “A primeira medida dele vai ser anistiar golpistas”, afirmou, ao condenar a proposta e associá-la à tradição de acordos “por cima”, sem participação popular.

Outro ponto de forte crítica foi o projeto apresentado por Tábata Amaral que, segundo os entrevistadores e o próprio Genoino, equipara críticas a Israel com antissemitismo e antissionismo. O ex-deputado classificou a iniciativa como grave e disse considerar inaceitável que parlamentares identificados com o campo progressista apoiem esse tipo de formulação.

“Perigosíssimo! É inaceitável que uma deputada que diz de esquerda”, afirmou. Em seguida, aprofundou a crítica ao que chamou de confusão conceitual entre antissionismo e antissemitismo. “É inaceitável e misturar o sionismo com o antissemitismo, misturar quem critica a natureza do Estado de Israel, como se fosse antissemitismo”, declarou.

Na visão de Genoino, esse tipo de proposta ajuda a legitimar a ofensiva militar israelense e enfraquece a solidariedade internacional aos palestinos. “Isso legitima o genocídio contra o povo palestino”, disse. Ele ainda afirmou que deputados do PT que tenham apoiado a proposta deveriam ser cobrados internamente por contrariar, segundo sua leitura, o programa e a linha política do partido.

A crítica ao sionismo político apareceu acompanhada de ataques ao que ele definiu como alinhamento da grande mídia e de setores do Ocidente a uma agenda imperial. Para Genoino, o debate não pode ser dissociado do que chamou de luta pela paz, autodeterminação dos povos e soberania nacional. “É um desserviço no momento que a gente vive hoje”, resumiu.

Na entrevista, o ex-deputado também comentou a definição de Geraldo Alckmin como vice na futura chapa presidencial de Lula, avaliando que a manutenção do arranjo é correta do ponto de vista político. Embora tenha lembrado que discordou da forma como Alckmin foi escolhido em 2022, afirmou que o vice-presidente passou a exercer o cargo com lealdade e seriedade. “O Alckmin conquistou uma maneira séria, democrática, leal de exercer a vice-presidente da República”, disse.

Para Genoino, a consolidação dessa chapa ajuda a encerrar especulações e permite concentrar esforços na organização dos palanques estaduais, sobretudo nos grandes colégios eleitorais. Ele voltou a defender uma aliança ampla para derrotar a extrema direita, mas com um núcleo de esquerda mais nítido, baseado em programa e identidade política.

Ao tratar da estratégia digital do PT contra Flávio Bolsonaro, Genoino disse concordar com uma linha de enfrentamento direto nas redes. Na sua avaliação, a eleição de 2026 será marcada por forte polarização, o que exige não apenas denunciar a extrema direita, mas também apresentar propostas concretas de mudança. “Essa eleição será uma eleição de enfrentamento, não é uma eleição de paz e amor”, afirmou.

Ele citou temas que, em sua visão, deveriam estar no centro da campanha, como reforma tributária progressiva, segurança pública, revisão do arcabouço fiscal, investimentos sociais, debate sobre tarifa zero e o fim da escala 6x1. Para o ex-deputado, a esquerda não pode permanecer apenas na defensiva nem se limitar a responder aos ataques adversários. “Nós temos que tomar iniciativa com bandeiras e com críticas fundamentadas a eles”, disse.

A entrevista também teve momentos de memória política, sobretudo quando Genoino relembrou os comícios das Diretas Já e o período posterior à saída da clandestinidade. Ele descreveu com emoção o impacto de voltar à cena pública após anos de prisão e reencontrar a mobilização popular nas ruas. “Para mim foi um grande momento porque eu saí da clandestinidade, da prisão de 5 anos preso e ver aquele movimento”, afirmou. “Era uma coisa que a gente ficava emocionado.”

No conjunto, a fala de Genoino combinou recordações históricas com um diagnóstico duro sobre o presente. Ao relacionar a disputa de 2026 à defesa da democracia, da soberania nacional e de uma pauta popular, ele sustentou que a esquerda precisará elevar o tom político se quiser enfrentar a extrema direita em melhores condições. “Nós não temos outra opção senão enfrentar”, declarou.

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