"Encontro entre PF e CIA é fora de propósito”, diz Genoino
Ex-deputado critica reunião da Polícia Federal com agência dos EUA e defende política nacional autônoma de inteligência e defesa
247 - O encontro entre o diretor-geral da Polícia Federal e o vice-diretor da CIA, realizado em Brasília, provocou reações críticas no campo político e reacendeu o debate sobre soberania nacional, cooperação internacional e os limites da atuação de agências estrangeiras no Brasil. Para o ex-deputado federal e dirigente histórico do PT, José Genoino, a reunião é inadequada diante do atual contexto político e geopolítico, especialmente às vésperas de uma disputa eleitoral decisiva.
As declarações foram feitas durante entrevista concedida ao Bom Dia 247. Na avaliação de Genoino, a aproximação entre a Polícia Federal e a agência de inteligência dos Estados Unidos não se justifica e expõe fragilidades na condução da política nacional de inteligência.
“Esse encontro com a CIA é fora de propósito, no mínimo”, afirmou Genoino, ao comentar a notícia de que a reunião teria como objetivo reforçar a cooperação em inteligência. Para ele, o Brasil deveria adotar uma postura mais cautelosa e estratégica nas relações com organismos ligados à política externa e militar norte-americana.
Ao contextualizar sua crítica, Genoino relembrou experiências anteriores de cooperação entre a Polícia Federal e agências dos Estados Unidos, ainda no início dos anos 2000. Segundo ele, esse tipo de relação sempre esteve associado a interesses estratégicos de Washington. “A CIA não faz nada de graça. O Pentágono não faz nada de graça. Quem tiver ilusão nessas instituições e na relação com os Estados Unidos está cometendo um equívoco ou está se enganando”, declarou.
O ex-parlamentar também questionou o modelo atual de organização da inteligência brasileira, defendendo uma separação clara entre inteligência policial, militar e de Estado. “A inteligência da Polícia Federal é para efeito do processo judicial. A inteligência militar é para o papel das Forças Armadas. A inteligência de Estado deveria ser coordenada pela Abin”, disse, ao apontar a necessidade de uma reforma estrutural no setor.
Genoino associou o tema da inteligência à defesa da soberania nacional, que, segundo ele, estará no centro da disputa política de 2026. Na entrevista, ele destacou que a crise do modelo neoliberal e a radicalização do cenário internacional recolocam a autonomia dos países latino-americanos como questão estratégica. “Essa questão democrática tem que estar vinculada à soberania nacional, porque esse tema vai estar presente na eleição”, afirmou.
O dirigente petista também foi enfático ao criticar a política externa dos Estados Unidos, classificando o país como protagonista de conflitos globais. “Os Estados Unidos trabalham com a possibilidade de guerra. Hoje são o principal promotor da guerra no mundo”, disse, ao argumentar que parcerias na área de defesa e inteligência exigem extrema cautela.
Para Genoino, a política externa conduzida pelo presidente Lula, marcada pelo multilateralismo e pelo protagonismo do Sul Global, precisa ser acompanhada por uma política nacional de defesa e de inteligência coerente com essa orientação. “Essa diplomacia presidencial tem que ter respaldo numa política nacional de defesa e numa política de inteligência”, concluiu.
A crítica ao encontro entre a Polícia Federal e a CIA se insere, assim, em um debate mais amplo sobre os rumos institucionais do país, o papel das Forças Armadas, a autonomia do Estado brasileiro e os limites da cooperação internacional em áreas sensíveis. O tema tende a ganhar ainda mais centralidade à medida que se aproxima o ciclo eleitoral e se intensificam as disputas em torno da soberania, da democracia e do projeto de país em jogo.
