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Engenharia como base do desenvolvimento volta ao centro do debate nacional

Presidente da FINEP defende formação qualificada, inovação e política industrial como pilares da soberania brasileira

Luiz Antônio Elias (Foto: Captura de tela/TV 247/Reprodução)

247 - A engenharia voltou a ocupar posição estratégica no debate sobre o futuro do desenvolvimento brasileiro, em meio a um cenário de rápidas transformações tecnológicas, disputa por cadeias globais de valor e fragilização do multilateralismo. Para o presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), Luiz Antônio Elias, não há projeto consistente de crescimento econômico e soberania sem investimento continuado em ciência, tecnologia, inovação e formação qualificada de engenheiros.

As avaliações foram apresentadas durante entrevista ao programa Conversas com Hildegard Angel, a partir de reflexões sobre o papel da engenharia na retomada industrial do país e na estratégia da Nova Indústria Brasil. A conversa também abordou temas como educação básica, orçamento público, regulação tecnológica, política internacional e a atuação das instituições do Estado brasileiro.

Ao explicar por que a engenharia precisa ser tratada como uma questão de Estado, Elias afirmou que o debate não poderia se limitar a diagnósticos superficiais. Segundo ele, a discussão exigia aprofundamento e articulação institucional para enfrentar gargalos históricos que comprometem a capacidade do país de se desenvolver de forma sustentada.

“Pensamos que isso não poderia ser apenas um paradoxo. Era necessário entrar no cerne da discussão, olhando não só a formação, mas o mundo do trabalho, a empregabilidade e a importância do engenheiro no cenário nacional.”

Desse processo, relatou, surgiu a proposta de consolidar as reflexões em um documento a ser apresentado ao Congresso Nacional e ao Poder Executivo, com foco em políticas públicas voltadas à formação de recursos humanos e à qualificação da engenharia brasileira.

“A ideia é que, até o final de março ou início de abril, a gente tenha um documento que possa ser entregue às instâncias do Congresso Nacional e ao Poder Executivo como base para uma política de formação de recursos humanos.”

Um dos pontos centrais destacados pelo presidente da FINEP é a fragilidade da base educacional, especialmente no ensino médio. Para ele, dificuldades históricas no ensino de matemática e na relação dos estudantes com a ciência têm impacto direto na evasão e no desempenho em cursos de engenharia.

“Um dos grandes gargalos que encontramos é a matemática, é o olhar do aluno para a ciência e para a matemática.”

Elias defendeu que a resposta a esse problema passa por políticas públicas estruturadas para o ensino médio e por uma atualização dos currículos universitários, capazes de dialogar com um ambiente tecnológico cada vez mais complexo e multidisciplinar.

“Não basta só formar. É necessário que a gente tenha qualidade na formação.”

Ao tratar do papel do Estado no fomento à inovação, ele destacou a ampliação dos recursos destinados à ciência e tecnologia nos últimos anos. Segundo Elias, a FINEP tem hoje um volume de investimentos significativamente maior do que no período anterior, refletindo uma mudança de orientação na política pública.

“Hoje a FINEP tem quase R$ 40 bilhões empregados entre 2023 e 2025.”

Ele também mencionou a atuação articulada com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ressaltando o peso dos investimentos em pesquisa, desenvolvimento e infraestrutura científica.

“Na associação com o BNDES, nós temos quase R$ 60 bilhões aplicados em pesquisa e desenvolvimento, na área de inovação e na infraestrutura científica.”

Outro dado citado foi a presença de pesquisadores altamente qualificados nos projetos apoiados pela financiadora.

“Pelos projetos aprovados na FINEP, nós temos quase 3.000 doutores trabalhando em projetos de pesquisa e desenvolvimento.”

Na avaliação de Elias, esses investimentos estão diretamente ligados à estratégia da Nova Indústria Brasil, que busca reposicionar o país em um cenário internacional marcado pela concentração das cadeias globais de valor e pela adoção de políticas industriais internas por diversas economias.

“É preciso que o Brasil construa as suas próprias cadeias de valor.”

Para ele, essa construção depende de engenharia forte, inovação aplicada às empresas e formação de recursos humanos alinhada às novas tecnologias.

Ao comentar os entraves políticos e orçamentários, Elias criticou o modelo atual de emendas parlamentares e defendeu que o orçamento público seja orientado por prioridades estratégicas, como infraestrutura, política industrial, programas sociais e desenvolvimento tecnológico. Ele também alertou para os efeitos de cortes recentes em áreas sensíveis do sistema de ciência e educação.

“A CAPES e o CNPq foram prejudicados efetivamente porque houve cortes tanto em bolsas quanto em infraestrutura laboratorial voltada para o conhecimento no Brasil.”

Questionado sobre a relação entre os Poderes, afirmou que o governo tem buscado negociar dentro de um modelo de coalizão, preservando posições consideradas centrais para o projeto de desenvolvimento, e citou a atuação de Gleisi Hoffmann, ministra da Secretaria de Relações Institucionais, nesse processo.

“É um governo de coalizão, com percalços, mas importante para a democracia brasileira.”

A entrevista também abordou o impacto da tecnologia sobre a formação de opinião e a necessidade de regulação do ambiente digital. Elias defendeu que regulação não significa censura, mas sim a definição de princípios éticos e responsabilidades.

“Regulação não subentende camisa de força. Regulação subentende estabelecer princípios, discutir ética e responsabilidade.”

Na avaliação dele, o debate sobre regulação da internet e da inteligência artificial precisa avançar no Congresso Nacional para enfrentar distorções que afetam a sociedade e a democracia.

Ao comentar críticas dirigidas ao Supremo Tribunal Federal, Elias afirmou que a Corte exerce um papel fundamental na defesa da Constituição de 1988 e lembrou decisões que preservaram mecanismos de financiamento da ciência e da inovação.

“O Supremo exerce um papel fundamental de defesa da Constituição.”

No campo internacional, ao ser provocado sobre lideranças globais e crises regionais, Elias defendeu o respeito à soberania dos Estados e a integração latino-americana. Na entrevista, foi citado Donald Trump, o atual presidente dos Estados Unidos, em contraste com a defesa de uma política externa baseada no diálogo e na autodeterminação dos povos.

“Petróleo é uma riqueza de cada país, assim como seus recursos naturais. Eles precisam ser trabalhados pelos próprios países, de forma soberana.”

Ao final, o presidente da FINEP fez uma avaliação positiva do atual governo, mesmo reconhecendo desafios estruturais. Para ele, houve uma inflexão clara na política de ciência, tecnologia e inovação, com aumento expressivo dos recursos disponíveis.

“Eu daria perto de nove, mesmo com todos os confrontos e dificuldades.”

A entrevista se encerra com a defesa de que engenharia, formação qualificada, investimento público e inovação não são temas setoriais, mas fundamentos de um projeto nacional de desenvolvimento capaz de reduzir desigualdades, gerar empregos e recolocar o Brasil em posição mais soberana no cenário internacional.

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