Fernanda Sixel: “Dar voz a uma mulher é um ato político”
Niterói vira referência no combate à violência contra a mulher com feminicídio zero e políticas públicas de prevenção, acolhimento e autonomia
247 - Niterói passou a ser apresentada como um caso de destaque no enfrentamento à violência de gênero ao combinar ações de prevenção, acolhimento e autonomia econômica para mulheres. Durante entrevista, Fernanda Sixel, coordenadora de Políticas e Direitos das Mulheres de Niterói, afirmou que o resultado mais simbólico desse processo foi o registro de feminicídio zero na cidade no período citado na conversa, entre fevereiro de 2025 e março de 2026, em um município de porte médio.
As declarações foram dadas por Fernanda Sixel em entrevista ao programa Conversas com Hildergard Angel, na TV 247, que discutiu a experiência de Niterói na construção de políticas públicas voltadas às mulheres e o impacto dessa estrutura na redução da violência.
Ao longo da entrevista, Fernanda afirmou que o desempenho da cidade não é obra do acaso, mas consequência de uma construção institucional iniciada há mais de duas décadas. “Nada é fruto do acaso. A gente poder chegar a um dado de zero feminicídio é fruto de políticas públicas”, declarou.
Segundo ela, esse processo começou em 2003, com a criação da Coordenadoria de Políticas para as Mulheres, ainda antes da Lei Maria da Penha. Desde então, a cidade teria mantido a continuidade das ações, ampliando a rede de proteção e consolidando equipamentos especializados no atendimento às vítimas.
Entre os serviços mencionados por Fernanda estão o centro especializado de atendimento às mulheres, os núcleos de acolhimento espalhados pela cidade, a Sala Lilás e o programa Guardiãs Maria da Penha. Ela destacou que a rede não se limita ao atendimento depois da agressão, mas busca atuar também antes que a violência aconteça.
“Durante muito tempo a gente atuou muito no pós-violência”, afirmou. “Nós não estamos mudando a raiz do problema porque ela chega, a gente acolhe, fortalece. Mas e o passo seguinte, e o que antecede a violência?”
A partir dessa avaliação, a prefeitura passou a estruturar uma política baseada em três frentes: prevenção da violência, acolhimento e fortalecimento, e construção de portas de saída para as mulheres atendidas. Nesse desenho, a educação aparece como peça central.
Fernanda destacou o trabalho feito nas escolas por meio de ações articuladas entre a Secretaria da Mulher e a Guarda Municipal. “Esse trabalho de prevenção passa pela educação”, disse. “É o trabalho mais difícil, que é o trabalho de mudança de perspectiva e de cultura.”
Ela também relatou que a formação interna dos servidores foi tratada como prioridade, especialmente em áreas de atendimento direto à população. No caso da Guarda Municipal, além da capacitação em gênero, houve a criação de uma patrulha específica para ocorrências envolvendo mulheres e a implementação do aplicativo SOS Mulher.
Outro eixo destacado na entrevista foi a autonomia econômica. Fernanda explicou que a prefeitura criou um auxílio social equivalente a um salário mínimo por mês, pago inicialmente por seis meses e renovável por mais seis, para mulheres em situação de violência acompanhadas pela rede municipal.
“Não é um repasse financeiro apenas, é um repasse com propósito”, afirmou. Segundo ela, o benefício está vinculado à permanência da mulher nos serviços da prefeitura, incluindo atendimento psicológico, rodas terapêuticas, capacitação e ações de empregabilidade.
Na avaliação da gestora, esse apoio ajuda a romper o ciclo de dependência em relação ao agressor. “Quando as mulheres não têm essa autonomia, ele é um dificultador real do rompimento da relação”, disse.
Fernanda afirmou ainda que mais de 600 mulheres passaram pelo programa e destacou o dado que considera mais expressivo. “Quantas voltam para o agressor? Zero”, declarou. Ela contou que uma das beneficiadas, após o acolhimento, passou a se formar em massoterapia e conseguiu reconstruir a própria autoestima.
“Eu achei tão lindo esse depoimento”, comentou, ao lembrar a fala de uma mulher que disse ter descoberto que “não era um lixo” e que não era dependente, ao perceber que podia reconstruir a própria vida.
Dentro da estratégia de geração de renda, a prefeitura também criou o espaço Empreender Mulher, definido por Fernanda como um coworking público feminino voltado ao fortalecimento da autonomia econômica, à entrada no mercado de trabalho e ao empreendedorismo.
O local reúne cursos, espaço para estudo, reuniões e comercialização de produtos, além de priorizar mulheres atendidas pela rede de proteção. Segundo Fernanda, mais de 700 mulheres já passaram por turmas de formação ligadas a esse projeto.
Ao tratar das raízes da violência, ela insistiu na necessidade de romper a visão de que agressões dentro de casa pertencem apenas ao âmbito privado. “Briga de marido e mulher não é um problema privado de âmbito doméstico, é um problema social”, afirmou.
A entrevistada também chamou atenção para a violência psicológica, que, segundo ela, muitas vezes corrói a autoestima da vítima antes de chegar à agressão física. “Muitas vezes as mulheres se culpam pela agressão que sofreram. É um ciclo da violência muito perverso”, disse.
Na entrevista, Fernanda associou os resultados obtidos em Niterói a uma lógica mais ampla de planejamento e gestão continuada. Ela afirmou que a cidade trabalha com metas de longo prazo e passou a adotar, inclusive, uma lógica transversal de orçamento sensível a gênero e raça, envolvendo diferentes secretarias.
“Cada secretaria hoje, desde o ano passado, obrigatoriamente precisa construir uma meta voltada para as mulheres”, afirmou. Segundo ela, a pauta deixou de ser apenas responsabilidade de um órgão específico e passou a integrar a estrutura de governo.
Além da política para mulheres, Fernanda relacionou a queda da violência ao conjunto de ações do Pacto Niterói contra a Violência, que inclui projetos voltados à juventude, esporte, cultura, tecnologia e formação profissional em áreas populares da cidade.
Ela citou programas de iniciação musical, plataformas urbanas digitais, espaços esportivos e bolsas para jovens como parte dessa estratégia. “A gente tem mostrado que, gerando e dando oportunidade para essa juventude, eles agarram as oportunidades”, declarou.
Para Fernanda, a experiência de Niterói mostra que é possível construir uma gestão progressista com foco em direitos, segurança e inclusão social. “É possível investir em justiça social, em gestão fiscal, no setor produtivo, no microempreendedor, em segurança pública”, disse.
Ao final da entrevista, ela também comentou sua possível entrada na disputa eleitoral. Embora tenha afirmado que durante muito tempo rejeitou a ideia de se candidatar, reconheceu que passou a ouvir uma cobrança crescente de mulheres para que ocupasse esse espaço.
“Dar voz a uma mulher é um ato político”, afirmou. “E comecei a ouvir: quando você vai nos representar?”
Com base na experiência acumulada em Niterói, Fernanda defendeu maior presença feminina nos espaços de poder e reforçou que políticas de cuidado, proteção e igualdade precisam ser tratadas como prioridade permanente do poder público.

