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Fernando Morais: "Lula vencerá e evitará nova ditadura"

Escritor comenta a biografia sobre o presidente, relembra alianças políticas e afirma que vitória de Lula seria decisiva para afastar risco autoritário

Lula e Fernando Morais (Foto: Ricardo Stuckert)

247 - Fernando Morais afirmou que Lula vencerá e evitará uma nova ditadura ao comentar bastidores de sua trilogia biográfica sobre o presidente e analisar o cenário político. O escritor destacou que a vitória de Lula seria decisiva para afastar riscos autoritários, ao mesmo tempo em que revisitou episódios históricos e alianças que marcaram a trajetória do líder petista até chegar ao Planalto.

A declaração foi feita em entrevista ao Boa Noite 247, na qual Morais detalhou o conteúdo do segundo volume de sua obra e contextualizou a evolução política de Lula ao longo das últimas décadas. O autor também projetou um cenário eleitoral desafiador, mas disse estar convicto do desfecho favorável ao presidente.

Segundo Morais, o novo livro cobre o período que vai do fim da ditadura até a eleição de 2002, quando Lula se tornou presidente da República. A obra reúne relatos de bastidores, articulações políticas e derrotas eleitorais, compondo não apenas o retrato do personagem, mas também o panorama da política brasileira naquele intervalo histórico.

O escritor contou que sua proposta inicial era acompanhar Lula de dentro do governo, em tempo integral, inspirado em experiências internacionais. No entanto, a ideia não foi aceita. “Ele não queria nenhum carrapato grudado no mandato dele”, afirmou. Diante disso, Morais adaptou o projeto e passou a acompanhar o político em viagens e compromissos após o fim do mandato.

De acordo com o autor, essas viagens foram fundamentais para a construção do livro, pois proporcionaram longas conversas em ambientes mais reservados. “Eu tive essa sorte de pegar um personagem que fala muito e dorme pouco”, disse, ao relatar o acesso a informações que considera valiosas para compreender o pensamento e as decisões de Lula.

Entre os episódios destacados na obra está a tentativa de aproximação entre o PT e setores do PSDB nos anos 1990. Morais afirmou que o livro mostra como Lula buscava alianças ao centro desde suas primeiras campanhas, incluindo negociações com lideranças como Tasso Jereissati, que não prosperaram após a implementação do Plano Real.

“O casamento não morreu de morte natural, mas morreu por atropelamento pela carreta do plano real”, afirmou o escritor. Para ele, essa tentativa frustrada ajuda a explicar a estratégia adotada posteriormente, culminando na aliança com José Alencar em 2002.

Morais também citou a tentativa de Lula de contratar o publicitário Duda Mendonça antes de sua eleição vitoriosa, o que inicialmente foi barrado pelo PT. Segundo ele, o partido resistia à aproximação com figuras associadas a setores conservadores, o que só mudou na campanha decisiva.

Outro ponto abordado foi o envio de José Dirceu aos Estados Unidos para dialogar com o mercado e o governo norte-americano após a divulgação da “Carta ao povo brasileiro”. Para o escritor, a escolha surpreendeu analistas, já que Dirceu tinha histórico ligado à esquerda mais radical.

Ao refletir sobre a experiência de escrever uma biografia de alguém em atividade política, Morais destacou a importância do testemunho direto. “Nada substitui o olho do autor”, afirmou, ressaltando que acompanhar os acontecimentos de perto permite uma compreensão mais precisa dos fatos.

O autor também comentou sua relação com Lula, construída desde os anos 1970, e disse que isso contribuiu para um ambiente de confiança, sem comprometer sua independência. Segundo ele, o próprio presidente deixou claro que não interferiria no conteúdo da obra. “Você cuida do seu livro, eu cuido da minha vida”, relatou Morais.

Durante a entrevista, o escritor fez críticas ao PT, afirmando que o partido perdeu parte de sua capacidade de renovação e não formou novas lideranças com a mesma projeção de Lula. Ele também avaliou que a legenda assumiu um papel mais próximo da social-democracia, ocupando um espaço que, em sua visão, foi abandonado pelo PSDB.

Morais ainda mencionou a existência de centenas de documentos produzidos por órgãos de inteligência dos Estados Unidos sobre Lula. Segundo ele, tenta obter acesso a esse material por vias judiciais, com o objetivo de utilizá-lo em um futuro volume da biografia ou em uma obra específica sobre o tema.

Ao final da conversa, o escritor reafirmou sua convicção sobre o resultado eleitoral. “Essa eleição tá no papo. Não vai ser fácil”, declarou. Em seguida, reforçou o sentido político de sua avaliação: “Tô convencido de que ele ganha essas eleições, felizmente, porque vai nos livrar de uma outra ditadura militar”.

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