"Lula sempre foi ‘paz e amor’ e conciliador antes disso virar slogan", diz Fernando Morais
Biógrafo afirma que o presidente não mudou de essência e sustenta que a vitória de 2002 só foi possível com alianças ao centro
247 – O escritor e jornalista Fernando Morais afirmou que Luiz Inácio Lula da Silva sempre foi um líder político inclinado à conciliação e à negociação, mesmo antes de essa imagem ser consolidada publicamente nas campanhas presidenciais. Em entrevista concedida a Breno Altman no programa 20 Minutos, do Opera Mundi, em 6 de abril de 2026, Morais sustentou que o atual presidente não passou por uma transformação essencial entre o sindicalismo do ABC e a chegada ao Palácio do Planalto, mas revelou com mais clareza traços que já carregava desde o início de sua trajetória pública.
Ao comentar o segundo volume de sua biografia de Lula, Morais resumiu sua interpretação de forma direta: “O Lula já era paz e amor antes de isso virar slogan”. Para o biógrafo, o presidente sempre teve vocação para o entendimento político e para a construção de acordos, ainda que tenha sido empurrado, em determinados momentos, para posições mais duras pelas circunstâncias eleitorais e pela correlação de forças da época.
Biografia retrata a travessia entre o líder sindical e o presidente eleito
A entrevista, publicada pelo Opera Mundi, concentrou-se no segundo volume da biografia escrita por Fernando Morais, que cobre o período entre os anos 1980 e a vitória eleitoral de 2002. O autor explicou que a obra é resultado de cinco anos de trabalho, parte deles acompanhando Lula no período da prisão em Curitiba.
“Biografado na cadeia é bom. Não podia gravar, tinha o problema de não poder gravar e não poder sair com papel, com anotação. Então eu tinha que guardar na memória, sair correndo e lá para baixo pro Lula Livre, sentar num cantinho e anotar as coisas que eu tinha apanhado dentro da cela”, relatou.
Morais também informou que o terceiro volume da biografia deverá abranger o período entre 2002 e a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro, deixando de fora o governo atualmente em curso. Segundo ele, esse próximo tomo poderá ser acelerado se forem liberados documentos dos órgãos de segurança dos Estados Unidos sobre Lula, material que vem sendo buscado judicialmente.
Fernando Morais vê continuidade, não ruptura, na trajetória de Lula
Ao ser questionado sobre a transformação de Lula entre os anos 1980 e 2002, Morais rejeitou a ideia de uma ruptura profunda na personalidade política do presidente. Para ele, Lula sempre demonstrou capacidade de negociar e de compor, inclusive ainda no período sindical.
“Eu acho que na verdade não mudou tanto assim. O que talvez tenha acontecido é que tenha emergido um personagem que já era. O Lula já era um negociador, já era um homem capaz de fazer conciliações”, disse.
Na sequência, Fernando Morais recordou que, no auge das greves do ABC, Lula combinava radicalidade na mobilização social com pragmatismo nas negociações com o empresariado. “De dia ele colocava 150 mil pessoas na Vila Euclides e de noite ele era obrigado a ir lá no grupo 14 da Fiesp negociar com a patronzada, com os donos das indústrias”, afirmou.
Esse ponto é central na leitura do biógrafo. Em vez de enxergar dois Lulas completamente distintos — um “radical” e outro “moderado” — Morais defende que o traço conciliador sempre esteve presente e que foi sendo projetado de maneira mais nítida à medida que o líder sindical se convertia em candidato viável à Presidência da República.
Alianças políticas foram tratadas como condição para vencer
Na entrevista, Morais destacou que Lula, desde cedo, preferia alianças ao centro em vez de composições restritas ao próprio campo da esquerda. Segundo ele, o PT resistiu diversas vezes a essa estratégia, vetando iniciativas e impondo limites ao então principal dirigente do partido.
O escritor citou a campanha de 1994, quando Lula buscou aproximação com Tasso Jereissati, e lembrou também a resistência petista à contratação do marqueteiro Duda Mendonça. Para Morais, esses episódios revelam que Lula já intuía a necessidade de ampliar sua base política muito antes da vitória de 2002.
“Se é para ganhar a eleição, não tinha muito sentido você continuar fazendo aliança para dentro. Você tinha que fazer para fora”, afirmou.
Na sua avaliação, o êxito de 2002 só foi possível porque Lula conseguiu fazer exatamente esse movimento, associando a campanha a nomes e setores capazes de reduzir a resistência do mercado, do empresariado e das frações mais conservadoras da sociedade brasileira. Foi nesse contexto, segundo Morais, que a aliança com José Alencar se mostrou decisiva.
José Alencar funcionou como avalista de Lula junto a setores conservadores
Fernando Morais afirmou que José Alencar não levou votos decisivos para a chapa, mas teve papel político fundamental como fiador da candidatura de Lula diante de setores empresariais e conservadores.
“Ele foi o avalista”, resumiu.
Segundo o biógrafo, Alencar “não trazia voto”, mas simbolizava o aval de uma parte influente da sociedade. “O que o Zé Alencar trazia não era voto, era o aval de um setor da sociedade. Não pode esquecer que o Zé Alencar era o dono da maior indústria têxtil da América Latina”, disse.
Morais recordou ainda que a aliança com o PL, partido ao qual Alencar era filiado, enfrentou mais dificuldades dentro do próprio PT do que entre os liberais. Ainda assim, insistiu que, do ponto de vista eleitoral, Lula tinha razão ao buscar essa ampliação. “Se era para ganhar a eleição, o Lula tinha razão”, declarou.
Carta ao povo brasileiro marcou inflexão política e programática
Outro momento importante da entrevista foi a análise da Carta ao povo brasileiro, lançada em 2002. Morais concordou com a avaliação de que o documento representou uma inflexão não apenas eleitoral, mas também programática.
“Concordo em primeiro lugar que se não fosse a Carta ao povo brasileiro, o Lula não ganharia a eleição. Em segundo lugar, acho que há uma inflexão aí em direção a uma socialdemocracia”, afirmou.
Segundo o escritor, a carta ajudou a desmontar barreiras erguidas pelo mercado financeiro e por setores da elite econômica. Ele contou um episódio emblemático do segundo turno de 2002, quando Antonio Palocci e Clara Ant foram conversar com Olavo Setubal, então um dos banqueiros mais influentes do país.
De acordo com Morais, Setubal não quis discutir o programa do PT. Sua exigência era outra: “Eu não quero saber do programa econômico, eu quero saber do seguinte: quem é que vai ser presidente do Banco Central? Na hora que vocês tiverem o nome, vocês voltam que eu recebo vocês para um café”.
Para o biógrafo, isso evidencia o grau de desconfiança que cercava a candidatura de Lula e mostra por que a sinalização de moderação foi considerada indispensável.
Derrotas moldaram o aprendizado político de Lula
Fernando Morais também argumentou que Lula foi sendo moldado por derrotas sucessivas e por sua dificuldade pessoal em conviver com reveses eleitorais. Segundo ele, o então líder petista chegou a pensar em abandonar a política em mais de uma ocasião.
Após a derrota para Franco Montoro na disputa pelo governo de São Paulo, por exemplo, Lula teria decidido voltar à vida sindical. Morais contou que Fidel Castro teve papel importante para convencê-lo a seguir na vida pública.
“É a primeira vez na história da humanidade, desde que inventaram esse negócio chamado eleição, que alguém de mão áspera, alguém que vem do chão de fábrica, recebe 1,2 milhão de votos. Você não tem o direito de jogar esses votos pela janela”, relatou, reproduzindo a fala atribuída por ele a Fidel.
Morais também afirmou que, depois das derrotas de 1989 e 1994, Lula novamente cogitou se afastar da disputa presidencial. Só em 2002, com o desgaste do ciclo neoliberal e a crise do Plano Real, teria surgido nele a convicção de que a vitória era possível.
Mídia comercial mudou de postura quando Lula se tornou ameaça real de poder
Um dos trechos mais duros da entrevista foi a crítica de Fernando Morais à imprensa comercial. Segundo ele, Lula era bem tratado enquanto aparecia como um operário excêntrico, avesso aos políticos tradicionais. Mas isso mudou quando sua candidatura se tornou uma ameaça concreta ao poder das elites.
“O Lula era o queridinho da mídia quando ele era o operário que não gostava de político, que não gostava de estudante, que não gostava de padre. Na hora que o Lula se incorpora a esse universo, ele é tratado de uma maneira que é inacreditável”, afirmou.
Morais disse que essa inflexão ocorreu em 1989, quando Lula passou a ser visto como presidenciável viável. “Pintou a chance de ser presidente. Acabou o namoro. Não tem mais conversa. É tiro na cabeça”, resumiu.
Na avaliação do biógrafo, a cobertura da grande imprensa contra Lula foi sistemática e brutal, a ponto de ele considerar “milagroso” que o presidente tenha sobrevivido politicamente a esse cerco.
Vitória de 2002 refletiu mudanças em Lula e no Brasil
Perguntado por Breno Altman se Lula venceu porque mudou ou porque o Brasil mudou, Fernando Morais respondeu que as duas coisas tiveram peso. Ainda assim, insistiu que a transformação da sociedade brasileira foi decisiva.
“Brasil mudou. Brasil melhorou. Não tenho dúvida disso. O Brasil de 20 anos atrás, de 30 anos atrás, de 40 anos atrás, não elegeria o Lula”, afirmou.
Para Morais, o país se tornou menos conservador, ainda que siga atravessado por contradições profundas. Segundo ele, seria impossível explicar 2002 apenas como resultado de uma guinada tática do PT. Ao mesmo tempo, reiterou que sem a transição ao centro Lula provavelmente não teria chegado ao poder.
“As duas mudanças contribuíram talvez equivalentemente no destino que o país acabou tendo”, disse.
Lula segue difícil de classificar ideologicamente, afirma biógrafo
Em outro momento da conversa, Morais observou que Lula permanece um personagem de difícil classificação ideológica rígida. Segundo ele, ao contrário de nomes como Luiz Carlos Prestes e Leonel Brizola, que podem ser identificados mais facilmente em termos doutrinários, Lula resiste a rótulos fechados.
“É muito difícil você carimbar, dizer: era um socialdemocrata, era um socialista”, afirmou.
Ao mesmo tempo, o escritor sustentou que Lula continua comprometido com mudanças profundas no país, mesmo que tenha ajustado sua tática ao longo do tempo. “Eu acho que muda de estratégia. Eu acho que ele muda a tática”, declarou.
Morais também disse manter a convicção de que Lula saiu da prisão mais anti-imperialista do que entrou, apesar de apontar críticas à postura do governo brasileiro em relação à Venezuela. Ainda assim, afirmou que o quarto mandato será decisivo para definir como o presidente será inscrito na história.
“Eu acho que o quarto mandato vai definir qual é a porta da história pela qual ele vai entrar”, disse.
Fernando Morais vê em Lula um personagem ainda em aberto
Ao final da entrevista, Fernando Morais foi instado a resumir a principal ideia de seu livro. Sua resposta reforçou a leitura de continuidade, adaptação e movimento histórico compartilhado entre líder e sociedade.
Na visão do biógrafo, Lula não venceu apenas porque se moderou ou porque foi empurrado ao centro. Venceu porque conseguiu responder, com pragmatismo e sem romper com suas origens, a um Brasil em transformação.
Essa é a chave da interpretação de Morais: Lula não teria abandonado sua natureza política, mas aprendido a operar num país mais complexo, sob novas correlações de forças e diante de um sistema de poder disposto a bloqueá-lo até o fim. Por isso, para o escritor, a marca conciliadora não foi uma invenção eleitoral tardia, mas uma característica permanente de sua trajetória.
“O Lula já era paz e amor antes de isso virar slogan”, repetiu Morais, em uma formulação que sintetiza sua visão sobre um dos personagens centrais da história política brasileira contemporânea.


