"Governo do RJ está tomado pela influência de grupos criminosos", diz Serafini
Deputado do PSOL critica alianças no Rio, comenta relatório atribuído à PF e cobra que o TSE julgue ação que pode atingir Cláudio Castro
247 - A política do Rio de Janeiro entrou em um ciclo de alianças embaralhadas e suspeitas graves, com o debate sobre segurança pública e crime organizado voltando a ocupar o centro da cena eleitoral. Em meio à disputa por composição de chapas e por espaço no tabuleiro de 2026, o deputado estadual Flávio Serafini (PSOL) afirmou que a estrutura de poder no estado opera sob forte contaminação de interesses criminosos.
A declaração foi feita em entrevista ao Bom Dia 247 , em que o parlamentar comentou o vazamento de um relatório atribuído à Polícia Federal, criticou as alianças em torno de nomes tradicionais da política fluminense e cobrou que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) conclua o julgamento do processo envolvendo o governador Cláudio Castro.
Alianças contraditórias e o “palanque” de Lula no Rio
Ao descrever o ambiente político do estado, Serafini associou a confusão de alianças à dificuldade de formar campos ideológicos nítidos. Na leitura dele, o PT no Rio tem, historicamente, deixado de lançar candidaturas majoritárias para apoiar figuras mais à direita que se alinhem ao presidente Lula no plano nacional — movimento que, segundo o deputado, cria distorções na disputa local e abre espaço para composições contraditórias.
Nesse cenário, Serafini disse temer que o presidente fique sem sustentação política consistente no estado: “A gente acha que o Lula pode ficar sem um palanque que de verdade faça a defesa dele.” O deputado afirmou que o PSOL pretende manter candidatura própria e defendeu que a campanha no Rio trate de pautas nacionais, citando, entre elas, a escala 6x1 e o Imposto de Renda.
Relatório atribuído à PF e suspeitas na cúpula política fluminense
Questionado sobre um relatório atribuído à Polícia Federal — citado na entrevista como tendo 88 páginas — Serafini afirmou que não teve acesso ao documento integral, mas comentou pontos que disse ter visto. Para ele, o material descreve a amplitude do poder do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, e sugere conexões envolvendo o deputado conhecido como TH Jóias e territórios sob domínio do Comando Vermelho.
O parlamentar classificou o quadro como alarmante e ampliou a acusação para além de um caso isolado: “É muito grave.” Em seguida, sustentou que o estado convive há anos com a exposição da relação entre crime e política e afirmou que essa engrenagem teria ramificações institucionais.
Belford Roxo e as barricadas: “falácia” no discurso de enfrentamento
Na parte dedicada à segurança pública, Serafini citou Belford Roxo e relatou o que chamou de episódio revelador da distância entre o discurso oficial e a prática. Segundo ele, um comandante de batalhão teria sido exonerado após a circulação de um áudio em que, de acordo com o deputado, havia negociação com lideranças do Comando Vermelho para reposicionamento de barricadas e construção de uma aparência de controle territorial.
Para o deputado, o caso explicita um padrão: “Ele expôs como essa política toda de enfrentamento ao crime aqui no Rio de Janeiro é uma falácia, tá tudo entrelaçado.” Na sequência, fez a afirmação mais contundente da entrevista: “O governo do estado está tomado pela influência desses grupos criminosos e isso é gravíssimo.”
TSE e Ceperj: cobrança por julgamento e críticas ao adiamento
Serafini também concentrou críticas no TSE pela demora no julgamento do processo que envolve Cláudio Castro. Segundo ele, é inaceitável que a Justiça Eleitoral arraste por anos uma ação relacionada ao que chamou de compra de votos ligada ao Ceperj.
Na entrevista, o deputado descreveu o esquema com contratações em massa e pagamentos presenciais em bancos, vinculados a projetos que ele classificou como inexistentes: “Ele contratou mais de 30.000 pessoas fazendo pagamento na boca do caixa dos bancos para participarem de projetos fantasmas… ficou provado que a maior parte dos projetos não existia.” Em tom ainda mais duro, concluiu: “Isso é um absurdo… é um escárnio da justiça brasileira com o povo.”
Eleição direta ou indireta e a possibilidade de frente anti bolsonarista
Ao comentar os cenários possíveis caso o processo avance, Serafini disse que uma eleição direta antecipada seria marcada por incerteza e reorganização rápida das forças políticas. Já no caso de uma solução que leve a uma eleição indireta para um governo tampão, o deputado afirmou que trabalha com a hipótese de uma unidade “anti bolsonarista” para derrotar o grupo de Cláudio Castro e citou um nome: “O nome que a gente entende que é mais forte, que pode unificar toda a esquerda… é o nome do deputado André Ceciliano.”
Ele ponderou, porém, que a construção dependeria do comportamento de setores aliados a Eduardo Paes e apontou contradições na relação com o governo estadual, mencionando resistências a CPIs e vínculos de base na Alerj.
Federação com o PT: Serafini defende autonomia do PSOL
Na reta final, o deputado se posicionou contra uma eventual federação partidária com o PT e afirmou que uma decisão desse porte não pode ser tomada sob pressão de calendário. “Eu sou contra a federação”, disse, ao argumentar que o PSOL não precisaria desse arranjo para atravessar a cláusula de barreira e que a aliança poderia amarrar o partido a composições locais que ele considera problemáticas.
Caso Marielle: deputado diz que condenação teve base “robusta”
Ao ser questionado sobre a condenação relacionada ao assassinato de Marielle Franco, Serafini afirmou que a decisão não repara a violência, mas considerou o desfecho relevante por responsabilizar também quem ordenou o crime. “Os elementos são muito robustos”, declarou, antes de acrescentar: “Não só quem puxou o gatilho, mas também quem mandou, quem tava por trás também está sendo responsabilizado.” Para ele, dentro dos limites do possível, a condenação representou “um pouco de justiça” e encerrou um ciclo que marcou profundamente a política do Rio.


