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"Hungria virou modelo mundial de 'autoritarismo competitivo'", diz Pedro Abramovay

Eleição na Hungria ocorre neste domingo (12). O vice-presidente de programas da Open Society, Pedro Abramovay, analisa o pleito

Pedro Abramovay (Foto: Eduardo Martino/Panos for the Open Society Foundations)

247 - Às vésperas da uma eleição parlamentar na Hungria, o país governado por Viktor Orbán volta ao centro do debate internacional não apenas pelo resultado das urnas, mas pelo modelo político que o líder de extrema direita ajudou a consolidar — e exportar — nas últimas décadas. Para Pedro Abramovay, vice-presidente de programas da Open Society Foundations, trata-se de um caso emblemático de erosão democrática sob aparência institucional.

“O Orbán, ele é um pouco um dos criadores desse modelo de autoritarismo que se espalhou por tantos lugares do mundo”, afirma Abramovay. “Alguns cientistas políticos chamam de autoritarismo competitivo, ou seja, são governos que vão ganhando eleições e pouco a pouco corroendo o sistema democrático do país.”

Um sistema moldado para vencer eleições

Segundo Abramovay, o governo húngaro promoveu mudanças estruturais que tornam cada vez mais difícil a alternância de poder. “Ele não pode deixar que os freios e contrapesos atrapalhem de novo”, diz, referindo-se ao retorno de Orbán ao poder em 2010.

A partir daí, o processo se intensificou: 

“Ele começa a atacar o judiciário, ele começa a atacar a imprensa”;

“Transforma a TV pública numa máquina de propaganda”;

“Vai privilegiando empresários amigos dele... e esses empresários compram os principais meios de comunicação do país”.

Além disso, houve mudanças no sistema eleitoral: “Ele cria distritos de maneira que o voto rural acabe valendo muito mais que o voto urbano”.

O resultado é um cenário eleitoral distorcido. “A oposição, para conseguir ganhar, precisa ter pelo menos 5 a 10% a mais do que o governo”, explica. “Ele pode ter menos votos e acabar tendo a maioria no parlamento.”

Democracia sob pressão e perseguição institucional

O avanço desse modelo também atingiu diretamente a sociedade civil e o meio acadêmico. Um caso emblemático foi a saída da Central European University de Budapeste.

“Essa universidade foi expulsa pelo governo de extrema direita do Viktor Orban”, afirma Abramovay.

A perseguição se estendeu a organizações sociais, especialmente em temas como imigração e direitos LGBTQIA+. “Qualquer organização que trabalhasse com imigração ou apoio a refugiados era atacada e criminalizada pelo governo”, relata.

No caso da Open Society Foundations, a pressão foi direta: “O nosso trabalho lá estava sendo absolutamente limitado pelo governo”.

Abramovay destaca que Orbán construiu uma narrativa conspiratória em torno de Soros. “Ele foi pegando o George Soros como um bode expiatório”, explica.

“Ele colocava cartazes em toda a Hungria com a foto do Soros, remetendo a imagens antissemitas”, afirma. “Criou um plano falso, dizendo que Soros queria descristianizar a Hungria.”

Essa estratégia serviu de base para políticas repressivas: “Ele chegou a fazer um plebiscito contra esse plano falso”.

Uma rede global da extrema direita

A influência da Hungria vai além de suas fronteiras. Segundo Abramovay, o país se tornou um polo de articulação internacional.

“A Hungria é patrocinadora de uma rede internacional”, afirma. “Um país pequeno, mas com enorme relevância simbólica no mundo hoje.”

Essa rede inclui lideranças como Donald Trump, Javier Milei e Giorgia Meloni.

“A campanha do Orban era cheia de líderes internacionais gravando vídeos para ele”, relata.

Sobre financiamento, ele destaca a complexidade do fenômeno: “Certamente existe uma rede internacional, e hoje com cripto está cada vez mais difícil de rastrear”.

Mas ele faz uma ressalva central: “Mais importante é entender que esses modelos são tão profundamente corruptos que eles se tornam quase autofinanciáveis.”

União Europeia: contenção parcial

A União Europeia tentou reagir, bloqueando recursos destinados à Hungria. “Hoje tem cerca de 20 bilhões de dólares bloqueados”, afirma Abramovay.

Ainda assim, ele avalia que a resposta foi limitada: “Acho que foi incapaz até agora de bloquear essa reversão democrática.”

Ao mesmo tempo, Orbán usa o conflito a seu favor: “Ele fala que quem está atrapalhando é a burocracia de Bruxelas.”

Discurso sobre soberania

Um dos pilares do discurso da extrema direita é a soberania nacional. Abramovay faz uma distinção importante:

“A soberania é absolutamente central para a democracia”, afirma. “Mas existe uma versão excludente, que vincula soberania a uma etnia ou religião.”

Ele alerta para essa distorção: “Isso não é soberania, é captura do Estado para benefício de alguns”.

Impactos globais e o avanço do “autoritarismo competitivo”

O modelo húngaro influenciou países como Turquia, Índia e Nicarágua.

“O método é comum: atacar o judiciário, a imprensa e a sociedade civil”, resume Abramovay.

Ele também alerta para o risco de reeleições: “Quando esses líderes voltam ao poder, a radicalização é muito maior”.

Eleições decisivas e incerteza política

Às vésperas da votação, o cenário permanece indefinido. “Poucos analistas duvidam que o Fidesz terá menos votos”, afirma, referindo-se ao partido governista Fidesz.

“A dúvida é se ele ainda assim não vai manter a maioria.”

Entre o avanço e os limites

Apesar da expansão global da extrema direita, Abramovay vê sinais de desgaste. “A gente está vendo os limites desse projeto autoritário”, afirma.

Ainda assim, faz um alerta: “A capacidade de construir esperança vai depender de muita luta”.

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