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Jandira Feghali critica “política da lacração” no Congresso e diz que extrema direita “desqualifica o debate”

Deputada afirma que o Parlamento vive deterioração política, defende Lula, critica o sionismo e promete campanha “mais irreverente” em 2026

Jandira Feghali (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)
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247 - A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) afirmou que “a lacração tomou o Congresso” e que o Parlamento brasileiro atravessa um processo de desqualificação política impulsionado pela extrema direita. Em entrevista à jornalista Hildegard Angel, no programa Conversas com Hildegard Angel, da TV 247, a parlamentar também fez críticas duras ao bolsonarismo, ao uso das redes sociais na política e ao que classificou como “guerra cultural” permanente no Brasil.

No encontro, Jandira abordou temas como a crise da representação política, a disputa ideológica nas redes, a reeleição de Lula, o avanço da extrema direita no Congresso, o conflito em Gaza e os bastidores da política nacional. A deputada confirmou ainda sua pré-candidatura à reeleição para a Câmara dos Deputados em 2026, após ter cogitado deixar a disputa eleitoral.

Logo no início da conversa, Jandira explicou por que decidiu voltar atrás na ideia de não disputar um novo mandato. Segundo ela, o cenário político nacional e internacional pesou na decisão.

“Eu não ia me candidatar por compreender que os ciclos às vezes nos empurram para desejar outras frentes de trabalho”, afirmou. “Mas, com a complexidade da conjuntura internacional e nacional, conversei com o presidente Lula e com meu partido e resolvi voltar para o jogo.”

A deputada disse que chegou a avaliar uma candidatura ao Senado, mas argumentou que a composição da federação partidária e a necessidade de fortalecer a candidatura de Benedita da Silva inviabilizaram essa possibilidade.

Ao longo da entrevista, Jandira traçou um diagnóstico severo sobre o funcionamento atual do Congresso Nacional. Para ela, boa parte dos parlamentares perdeu o compromisso com projetos estratégicos para o país e atua apenas em função da própria sobrevivência política.

“Tem muito vereador federal”, ironizou. “Muitos parlamentares não pensam o Brasil. Pensam apenas no próprio espaço de poder.”

Segundo a deputada, a deterioração se agravou após a eleição de 2018, marcada pela ascensão do bolsonarismo.

“Chegou ao Congresso uma horda de gente que desqualifica o debate político”, declarou. “Não existe debate, existe violência, agressão e mentira.”

Jandira afirmou ainda que parte da extrema direita transformou o Parlamento em palco permanente para produção de conteúdo digital e ataques políticos.

“Eles andam com microfone de lapela o dia inteiro. Tudo é lacração. Tudo é provocação permanente”, disse. “Qual é a agenda deles? Anistia para Bolsonaro e xingar o Lula.”

A parlamentar também criticou o fenômeno da chamada “pós-verdade”, dizendo que setores da extrema direita operam deliberadamente com desinformação.

“Eles não têm compromisso com a realidade. Você mostra um dado oficial e eles dizem exatamente o contrário”, afirmou.

Ao analisar o governo Lula, Jandira reconheceu dificuldades na comunicação com setores da classe média e profissionais liberais, mas disse acreditar que o presidente está consciente da necessidade de ampliar o diálogo social para além das políticas de combate à pobreza.

“O Lula precisa falar também para setores que não se sentem alcançados pelo governo”, afirmou. “As pessoas precisam enxergar perspectivas de futuro.”

Ela defendeu ainda uma estratégia nacional de desenvolvimento baseada em reindustrialização, ciência, tecnologia e soberania nacional.

“Nunca tivemos um candidato tão pró-Estados Unidos quanto o bolsonarismo”, criticou. “O Lula representa um projeto de país soberano.”

A entrevista também teve momentos de forte crítica à política externa de Israel e ao sionismo. Jandira afirmou que é preciso diferenciar antissionismo de antissemitismo.

“Ser antissionista não é ser antissemita”, declarou. “Estamos denunciando uma política de Estado, um terrorismo de Estado.”

A deputada classificou a situação em Gaza como “massacre genocida” e criticou a cobertura da grande imprensa brasileira sobre o tema.

“Isso não é guerra. É um massacre”, afirmou.

Jandira também comentou os conflitos internos do governo e do Congresso, incluindo disputas envolvendo o Banco Master, articulações do Centrão e derrotas recentes do Palácio do Planalto no Senado.

Segundo ela, parte dessas movimentações teria sido motivada por tentativas de barrar investigações.

“Houve um grande acordo para enterrar a CPMI do Banco Master”, disse.

Ao falar sobre a esquerda, a deputada fez autocrítica e afirmou que setores progressistas perderam conexão com as bases populares.

“O governo institucionalizou muitas lideranças e isso afastou parte da esquerda dos territórios”, avaliou.

Ela também criticou a ausência de uma estratégia de comunicação integrada do campo progressista.

“A direita tem estratégia de comunicação. Nós não temos”, afirmou. “Eu falo isso há anos.”

Nesse contexto, Jandira prometeu que sua campanha em 2026 terá uma linguagem mais moderna e irreverente, apostando fortemente nas redes sociais.

“Quero fazer uma campanha mais rebelde, mais irreverente”, disse. “Sem abrir mão do olho no olho.”

A parlamentar também comentou o crescimento da violência política no Congresso, especialmente contra mulheres.

“Tem mulheres eleitas que são extremamente antifeministas e isso me dá tristeza profunda”, afirmou.

Ela relembrou episódios de ataques sofridos por parlamentares bolsonaristas, incluindo ações no Conselho de Ética e ameaças de morte recebidas após embates no plenário.

“Coragem é feminina”, declarou. “Os homens mais agressivos do Congresso geralmente são muito covardes.”

Em tom mais leve, a deputada falou sobre sua paixão pela bateria, instrumento que considera terapêutico.

“Quando estou tocando, não consigo pensar em nada ruim”, contou.

Jandira também revelou seus maiores medos pessoais.

“Tenho medo de perder a lucidez e a visão”, disse. “Mas o maior medo de uma mãe é perder um filho.”

Nos momentos finais da entrevista, Hildegard Angel elogiou a trajetória política da deputada e chegou a sugerir que ela poderia disputar a Presidência da República no futuro.

Jandira respondeu em tom descontraído:

“Quem sabe um dia?”

A entrevista reforça o papel de Jandira Feghali como uma das vozes mais combativas da esquerda no Congresso Nacional, em um momento de forte polarização política e reorganização das forças progressistas para as eleições de 2026.

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