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José Dirceu diz que mantém aos 80 a utopia da juventude

Ex-ministro defende paz, soberania, reformas estruturais e afirma que o Brasil precisa de um projeto nacional para a próxima década

José Dirceu diz que mantém aos 80 a utopia da juventude (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

247 - Aos 80 anos, José Dirceu afirmou que segue movido pela mesma utopia que o acompanhou na juventude. Em entrevista ao programa Boa Noite 247, ele apresentou reflexões sobre o cenário internacional, a política brasileira e os desafios institucionais do país, defendendo que sua geração lutou pela democracia, pela soberania nacional e por mudanças sociais profundas — bandeiras que, segundo ele, continuam atuais diante do avanço das guerras, da desigualdade e da extrema direita.

Questionado sobre qual seria sua utopia aos 80 anos, Dirceu respondeu de forma direta: “A mesma da juventude. E nunca foi tão necessário”. Em seguida, situou essa visão no quadro geopolítico atual e afirmou que a paz se tornou uma prioridade urgente. “Primeiro a utopia pela paz, por exemplo. Nós estamos vivendo um momento que o mundo caminha pra guerra. Aliás já está em guerra”, disse.

Ao desenvolver esse raciocínio, Dirceu associou a instabilidade global à atuação dos Estados Unidos e fez críticas duras à política externa de Washington. Ao se referir ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ele classificou como ilusória a tentativa de reverter o curso histórico da economia americana por meio da reindustrialização. “Essa política do Trump de reverter a história como se Estados Unidos pudesse ter de novo uma indústria de manufatura, criar de novo aquela classe operária, voltar pros anos 80 e 90, isso é uma ilusão”, afirmou.

Na entrevista, Dirceu sustentou que o Brasil deve preservar uma posição internacional independente. Para ele, o país precisa manter distância de alinhamentos automáticos e reforçar sua tradição diplomática própria. “O Brasil tem que ficar fora disso. O Brasil tem que se preservar”, declarou. Em outro trecho, acrescentou que o país já construiu historicamente uma política externa de independência e de não alinhamento, linha que, em sua avaliação, foi aprofundada nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva.

A fala de Dirceu também girou em torno da defesa de um novo ciclo de desenvolvimento nacional. Segundo ele, o país já construiu um arcabouço de proteção social relevante, mas agora precisa avançar sobre os entraves estruturais da desigualdade. “É preciso que o país cresça agora, se desenvolva 5, 6% ao ano, durante 10 anos, para que nós mudemos a qualidade do nosso desenvolvimento e eliminemos a pobreza e a desigualdade”, afirmou.

Nesse ponto, ele insistiu que programas sociais, embora fundamentais, não bastam para resolver o problema em sua raiz. Na avaliação do ex-ministro, o desafio é mexer na estrutura de concentração de renda e riqueza, com reforma tributária, ampliação do investimento e reindustrialização. “Nós temos que preservar a estrutura social que nós temos e não desmontá-la fazendo um ajuste fiscal”, disse. Na mesma linha, defendeu que o ajuste recaia sobre “a riqueza, a renda e a propriedade”, além de apontar a necessidade de revisar renúncias fiscais e elevar a taxa de investimento do país.

Dirceu afirmou ainda que o Brasil precisa se reposicionar diante da transformação tecnológica em curso. Para ele, o país segue exportando bens primários sem agregar valor suficiente, o que compromete seu potencial econômico de longo prazo. “O Brasil precisa ir atrás das mudanças tecnológicas, reformar sua infraestrutura, se reindustrializar”, disse. Segundo ele, o horizonte dos próximos dez anos será decisivo para definir se o país conseguirá aproveitar suas vantagens econômicas e territoriais.

Ao falar sobre sua trajetória, Dirceu afirmou que o Brasil sempre esteve no centro de sua atuação política. “Durante toda a minha trajetória política o Brasil sempre esteve no centro dela”, declarou. Na entrevista, ele também afirmou que, mais do que em outros momentos, considera necessária a defesa simultânea da democracia, da soberania nacional e de reformas estruturais.

Entre essas reformas, o ex-ministro citou mudanças no Judiciário, nas Forças Armadas e no sistema político. Ele declarou que pretende levar esse debate para a campanha eleitoral, na condição de pré-candidato, e argumentou que o país já não pode adiar essa discussão. “O Brasil vai precisar fazer uma reforma do Judiciário e uma reforma política e uma reforma das Forças Armadas”, afirmou.

Sobre os militares, Dirceu defendeu um processo de profissionalização e democratização interna. Também criticou o modelo atual e disse que o país deveria repensar o serviço militar obrigatório e a distribuição territorial da estrutura de defesa. Para ele, trata-se de uma discussão longa, mas incontornável para o fortalecimento institucional do país.

No campo eleitoral, Dirceu adotou um tom de cautela, mas evitou pessimismo. “Eu sou realista”, afirmou ao ser questionado sobre a reeleição de Lula e sobre a renovação do Congresso. Na avaliação dele, a disputa será decidida no curso da campanha, sob influência do cenário internacional e da capacidade de o governo apresentar respostas concretas aos dilemas nacionais.

Ao indicar quais temas deveriam estar no centro da próxima eleição presidencial, Dirceu elencou quatro prioridades: paz, soberania, democracia e desenvolvimento. Em sua formulação, Lula deveria se apresentar como “fiador da democracia, da soberania, da paz no Brasil e de um projeto de desenvolvimento nacional”. Para o ex-ministro, o debate eleitoral precisa sair da superfície e se concentrar no desenho do Brasil da próxima década.

Dirceu também dedicou parte da entrevista à correlação de forças no Congresso Nacional. Embora reconheça o peso da direita e a dificuldade de formação de maioria, ele afirmou não estar convencido de que a extrema direita ampliará seu espaço. “Eu tenho dúvidas que a extrema direita vá crescer”, disse. Segundo ele, o governo demonstrou, nos últimos anos, capacidade de aprovar medidas importantes mesmo em condição minoritária.

Ainda assim, fez críticas duras ao funcionamento atual do sistema político e às distorções produzidas pelo modelo de emendas impositivas. Para Dirceu, o arranjo institucional vem ampliando deformações que fragilizam o Executivo e corroem o próprio Congresso. “Está evidente que esse sistema político, se não for mudado, vai cair de podre”, declarou.

Ao comentar alternativas para a reforma política, ele se mostrou favorável à discussão sobre voto em lista e voto distrital misto, mas destacou que o essencial é enfrentar o problema de frente e chamar o eleitorado para esse debate. Na visão do ex-ministro, a juventude, setores médios e parcelas da classe trabalhadora podem aderir a uma agenda que proponha reorganizar o sistema político brasileiro.

Outro ponto abordado por Dirceu foi a segurança pública. Ao fim da entrevista, ele afirmou que o tema não pode ser negligenciado e disse que o governo começou bem ao enfrentar a questão. Para ele, o debate sobre o futuro do país precisa dialogar com as preocupações concretas das famílias brasileiras, inclusive o sentimento de insegurança nas ruas e nas casas.

A entrevista terminou com uma síntese de sua visão de país. Dirceu afirmou que o Brasil reúne condições materiais para reduzir pobreza e desigualdade em uma década, desde que mude prioridades, amplie investimentos e adote reformas estruturais. “Nós temos que ganhar a juventude para essa ideia de que o Brasil em 10 anos pode ser um país sem pobreza, sem desigualdade”, declarou, reafirmando a convicção de que a utopia da juventude permanece viva aos 80 anos.

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