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José Dirceu: “não podemos repetir as eleições passadas”

José Dirceu afirma que reeleição de Lula depende de nova agenda, disputa política e leitura da vida real

José Dirceu (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

247 - José Dirceu afirmou que a reeleição do presidente Lula em 2026 depende de uma mudança na condução da disputa política, com reconhecimento da insatisfação social, defesa dos resultados do governo e apresentação de um projeto nacional. Em entrevista ao Opera Mundi, o ex-ministro disse que Lula tem base eleitoral para vencer, mas alertou que a campanha não pode repetir modelos anteriores.

Segundo Dirceu, a aprovação do governo, embora abaixo do desejado por setores do PT, oferece um ponto de partida para a disputa. “Quarenta e cinco por cento de aprovação, estando no governo, é uma base real para disputar e reeleger Lula”, afirmou. Para ele, os indicadores de emprego, renda e inflação ajudam o presidente, mas não eliminam problemas presentes na rotina da população, como transporte, salários, custo de vida, serviços públicos e dificuldades para fechar as contas no fim do mês.

O ex-ministro avaliou que a eleição ainda será definida pela campanha e pela disputa política. “Eu acredito que a disputa política eleitoral é que vai decidir se Lula vence ou não, se se reelege ou não. Não está dado que ele vai perder. É mais provável que ele vença”, declarou. Na avaliação de Dirceu, o presidente tem vantagens por estar no governo, por contar com uma coalizão partidária e por enfrentar como adversário o senador Flávio Bolsonaro, apontado por ele como expressão do bolsonarismo na eleição.

Dirceu disse, no entanto, que a situação exige cautela. “É preciso que levemos em consideração e tomemos como grave a situação atual. Nós não podemos fazer uma análise ufanista ou irresponsável sobre o quadro atual”, afirmou. Para ele, o governo precisa partir de um diagnóstico que leve em conta tanto os avanços da gestão quanto às limitações impostas pela correlação de forças no Congresso e pela insatisfação de parcelas da sociedade.

O petista afirmou que Lula assumiu o governo em uma conjuntura marcada pela defesa da democracia e por limitações políticas. Segundo ele, a maioria parlamentar está nas mãos da direita, o que reduz a capacidade de aprovar reformas. “É um governo que tem muitas limitações para fazer reformas estruturais que permitam que o país possa crescer o dobro do que está crescendo”, disse.

Na análise de Dirceu, a insatisfação popular não deve ser tratada como erro de percepção. “A insatisfação popular tem base. Nós não podemos brigar com a realidade ou ficar indignados porque não temos apoio de 70% ou 80%. Não tem pé nem cabeça”, afirmou. Ele disse que parte do desconforto social decorre do modo de vida, das dificuldades materiais e de mudanças culturais, tecnológicas e religiosas que afetam a relação entre governo, partidos e sociedade.

Dirceu defendeu que a campanha de Lula combine prestação de contas, comparação com o governo Bolsonaro e apresentação de futuro. “A campanha tem que ter um projeto de desenvolvimento nacional, tem que ter propostas, metas, e ao mesmo tempo nós temos que prestar contas do que fizemos e comparar com o governo Bolsonaro”, declarou. Segundo ele, também será necessário “mostrar quem é Flávio Bolsonaro”.

O ex-ministro disse que a campanha não pode se limitar à defesa do que foi realizado desde 2023. “Eu acho importante mostrar o que nós fizemos pelo país, mas mais importante é apontar para o futuro, para a esperança, para o sonho de outro país”, afirmou. Para Dirceu, a insatisfação muitas vezes recai sobre o governo porque ele está no comando do país, mas tem raízes mais amplas no cotidiano dos trabalhadores, da juventude e das famílias.

Ele também afirmou que Lula e o PT precisam dialogar com grupos sociais que passaram por mudanças na última década. “Nós temos que começar a dialogar com todos esses milhões de brasileiros”, disse. Dirceu citou trabalhadores precarizados, jovens que buscam inserção econômica, pessoas ligadas ao setor de serviços e setores que se aproximaram da direita durante o período em que o PT ficou fora do governo.

Na avaliação do ex-ministro, o PT passou anos sob ataque político e jurídico, o que afetou sua presença na disputa de valores e na formação da consciência social. “Nós passamos quase dez anos fora dessa disputa pela formação da consciência, da cultura e da educação da classe trabalhadora, e ficou a direita fazendo isso. Isso pesou muito aqui no Brasil”, afirmou.

Dirceu sustentou que a reeleição passa por uma agenda capaz de responder aos problemas concretos do país. Ele citou reforma tributária, crescimento econômico, defesa da soberania, política industrial, financiamento ao desenvolvimento, mudança no Congresso e combate à concentração de renda. “O próximo governo de Lula tem que ter como obsessão o crescimento”, disse. Para ele, o Brasil precisa discutir “outro modelo econômico” e formar maioria social e parlamentar para aprovar reformas.

O ex-ministro também defendeu que a campanha leve em conta o cenário internacional. “O governo precisa proteger o país da situação internacional e aproveitar que o país toma consciência de que precisa ter políticas soberanas e autônomas para avançar na política industrial e na política de financiamento do desenvolvimento”, afirmou. Segundo ele, a guerra, as disputas comerciais e a reorganização econômica global reforçam a necessidade de soberania e tecnologia.

Dirceu afirmou que a eleição de 2026 ocorrerá em um ambiente diferente das disputas anteriores. “Agora precisa mudar para vencer. Nós não podemos repetir as eleições passadas. Essa é uma nova eleição, num novo mundo, numa nova realidade, num novo estado de espírito do país”, declarou. Para ele, Lula mantém uma base sólida, mas a vitória dependerá da capacidade de transformar essa base em maioria política.

O ex-ministro disse ainda que o governo e o PT precisam disputar o estado de espírito da sociedade. “O que nós temos que disputar neste momento é o estado de espírito das pessoas”, afirmou. Ele citou temas como escala 6 por 1, imposto de renda, tributação dos mais ricos, segurança pública e custo de vida como pontos que podem reorganizar o debate público.

Dirceu concluiu que a reeleição de Lula é possível, mas não automática. “Hoje a minha convicção é que nós vamos reeleger Lula”, disse. Ao mesmo tempo, afirmou que o resultado dependerá de campanha, programa, mobilização e capacidade de apresentar respostas aos brasileiros que vivem problemas no transporte, no trabalho, nos salários, no custo de vida e no acesso a serviços públicos.

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