Juliano Medeiros: "eu não quero o Lulinha paz e amor nessas eleições"
Presidente do PSOL critica tentativa de beneficiar condenados do 8 de janeiro e cobra postura mais dura da esquerda contra a extrema direita
247 - O presidente da federação PSOL-Rede, Juliano Medeiros, defendeu uma postura mais combativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2026 e criticou o que chamou de tentativa do Congresso Nacional de desmoralizar as condenações dos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. As declarações foram dadas em entrevista ao Bom Dia 247, em debate sobre as ações de inconstitucionalidade apresentadas contra a chamada “lei da dosimetria”.
Durante a conversa, Medeiros afirmou que o país atravessa um momento decisivo para a defesa da democracia e disse que a esquerda precisa abandonar qualquer postura conciliadora diante da extrema direita. “Eu não quero o Lulinha paz e amor nessas eleições, pelo amor de Deus. Eu quero um Lula com capacidade de mobilizar sentimentos, afetos”, declarou. A entrevista contou ainda com a participação do advogado Rafael Cittadino, que detalhou os argumentos jurídicos das ações apresentadas ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo Juliano Medeiros, a lei aprovada pelo Congresso para flexibilizar regras de progressão de regime representa uma tentativa explícita de beneficiar os condenados pelos atos golpistas. Para ele, a medida tem um objetivo político mais amplo: enfraquecer a legislação que pune crimes contra o Estado Democrático de Direito.
“O que o bolsonarismo e o centrão querem promover é uma desmoralização da decisão do STF para impedir que essa legislação que pune crimes contra o Estado democrático de direito se consolide no Brasil”, afirmou.
O dirigente do PSOL também criticou o fato de o Congresso ter dado prioridade à votação da matéria enquanto outras pautas populares, como o fim da escala 6x1, seguem sem avanço. “As prioridades do Congresso Nacional visivelmente não são as prioridades do povo brasileiro”, disse.
Medeiros rejeitou ainda qualquer possibilidade de anistia aos participantes dos ataques de 8 de janeiro, inclusive aos chamados “bagrinhos”, termo usado para se referir aos envolvidos sem posição de liderança. Ele rebateu avaliações de que penas aplicadas aos condenados seriam excessivas e afirmou que as punições têm caráter pedagógico.
“Não devemos tratar essas pessoas como coitadinhos. São fanáticos de extrema direita que vão voltar a cometer crimes se voltarem para a rua”, declarou.
Ao comentar o cenário eleitoral de 2026, Juliano afirmou que a esquerda precisa apostar na mobilização popular e não apenas em articulações institucionais. Segundo ele, as vitórias recentes do governo ocorreram justamente quando houve pressão social e participação direta do presidente Lula.
“Se for uma eleição de marasmo, de mais do mesmo, a gente pode se complicar”, alertou.
O dirigente também confirmou sua pré-candidatura a deputado federal por São Paulo, sucedendo Ivan Valente. Segundo ele, a prioridade será ampliar a representação da esquerda no Congresso Nacional. “Eu quero eleger mais senadores de esquerda. Quero pessoas comprometidas com a democracia brasileira”, afirmou.
Advogado aponta ilegalidades na tramitação da lei
O advogado Rafael Cittadino, que participa da ação de inconstitucionalidade apresentada pela federação PSOL-Rede, afirmou que a lei possui graves vícios formais e materiais.
Segundo ele, houve desrespeito ao princípio do bicameralismo, já que o Senado alterou substancialmente o texto aprovado pela Câmara sem que a proposta retornasse para nova análise dos deputados. Citadino explicou que a alteração mudou completamente o conteúdo da matéria ao criar benefícios específicos para crimes contra o Estado Democrático de Direito.
“O Senado mudou o sentido do projeto original e não deu oportunidade para a Câmara revisar essas mudanças”, afirmou.
Além das falhas no processo legislativo, o advogado sustentou que a lei é materialmente inconstitucional por criar benefícios direcionados a um grupo específico de condenados.
“Você não pode fazer uma lei penal buscando beneficiar pessoas identificáveis. Isso é absolutamente inconstitucional”, declarou.
Citadino argumentou ainda que a flexibilização das penas para crimes contra a democracia cria um incentivo perigoso para novos ataques institucionais.
“O Congresso está criando um benefício para quem atenta contra o Estado Democrático de Direito. Isso é extremamente grave”, disse.
Alexandre de Moraes suspendeu aplicação da lei
Durante a entrevista, os participantes comentaram a decisão do ministro Alexandre de Moraes de suspender a aplicação da nova legislação enquanto o STF analisa as ações diretas de inconstitucionalidade.
Segundo Cittadino, a medida foi uma decisão cautelar para evitar insegurança jurídica e impedir que condenados obtivessem progressão de regime antes do julgamento definitivo da constitucionalidade da norma.
“Uma vez concedida a progressão, seria muito difícil reverter depois”, explicou.
Juliano Medeiros avaliou que, embora Moraes ainda não tenha concedido liminar suspendendo formalmente a lei, a decisão representa uma resposta importante diante da pressão do bolsonarismo.
“O que houve foi uma decisão de cautela. É melhor do que nada e impede um retrocesso imediato”, afirmou.
Os entrevistados também destacaram que novas ações podem ser apresentadas por outros partidos e entidades, ampliando a contestação jurídica contra a chamada “lei da dosimetria”.



